Poesia conjugal
Hoje tenham paciência, mas não me vou esforçar muito. Logo à tarde o Manel vai apresentar livro da sua autoria e dá-me de mão beijada um tema para o post de hoje. Pois é, depois de muita insistência minha e de muita preguiça dele (a história já tem uns anitos), lá se convenceu o senhor editor e marido a olhar para toda a sua produção poética escrita desde os anos 1960 até hoje e a escolher os poemas que achou deviam figurar num livro para a posteridade. A sua Poesia Reunida chama-se por isso O Pouco Que Sobrou de Quase Nada (ele foi demasiado exigente, mas a vida do editor é cortar, cortar…) e vai ser lançada hoje pelas 18h30 no Restaurante do El Corte Inglés. Aqui fica uma amostra à la O’Neill para os mais curiosos:
CHIADO
aquelas pernas ali a dar a dar
dos homens levam os olhos ao passar
são borboletas canários verde mar
onde mergulho a medo o meu olhar
são promessas que sei sem cobertura
de uma viagem pela interior natura
aquelas pernas ali a dar a dar
dos homens levam os olhos ao passar
são às dezenas às centenas ao milhar
a desenharem nos passeios pombas brancas
nascem nos pés e vão até às ancas
por um caminho que é bom de passear
aquelas pernas ali a dar a dar
dos homens levam os olhos ao passar
umas claras são outras morenas
umas marias outras manuelas
umas maiores outras mais pequenas
mas as tuas são melhores que todas elas
as tuas pernas aí a dar a dar
que já nem posso este poema terminar
A Maria do Rosário não me leve a mal, mas este poema do seu marido também dava um belo fadinho. Bastaria apenas afinar os dois últimos versos:
ResponderEliminar“as tuas pernas aí a dar a dar a meu lado
que já nem sei como terminar este fado”
Parabéns ao Poeta ! Tem muita musicalidade o seu canto, e humor e leveza este seu poema. E é um poema másculo ! Tudo coisas raras na poesia de hoje. E agradecimentos à sua Musa inspiradora pela oferta do "Chiado".
ResponderEliminarTemos Escritor !
Bem a Rosário de musa é impagável além do mais no Brasil quem chia é chaleira e claro o poeta hoje conta com vossa presença entre amigos e colaboradores e admiradores.
ResponderEliminarEu aí tão perto e sem poder ir dar um abraço ao Manel. Já o fiz por outro meio, mas, caramba, não é a mesma coisa. Desejo aos dois um grande momento.
ResponderEliminarOh, que pena, e eu com esperança de o ver também por lá!!!! Ficará para outra oportunidade!O seu livro continua a perdurar em mim...difícil, difícil libertar-me (quem sabe com a poesia do Manel volto a ter poder de concentração!!)...enquanto isso o Daniel, sobretudo o Daniel, continua a acompanhar-me!
EliminarOh, que pena, e eu com esperança de o ver também por lá!!!! Ficará para outra oportunidade!O seu livro continua a perdurar em mim...difícil, difícil libertar-me (pode ser que a poesia do Manel me devolve o poder de concentração!!).
EliminarHá muito que me interrogo sobre o que é a poesia, o que faz de um dado texto poema. Este texto convenceu-me de que a resposta estará, antes de mais, na boa vontade dos leitores. Assim, poema será aquilo que os leitores aceitarem como tal. E isso parece depender de factores externos ao texto.
ResponderEliminarJCC
Não sei dizer porquê, mas essa sua frase – “poema será aquilo que os leitores aceitarem como tal. E isso parece depender de factores externos ao texto” – faz-me lembrar estes versos, bons e expressivos, do O’Neill:
EliminarAcaba mal o teu verso,
mas fá-lo com um desígnio:
é um mal que não é mal,
é lutar contra o bonito.
Vai-me a essas rimas que
tão bem desfecham e que
são o pão de ló dos tolos
e torce-lhes o pescoço,
tal como o outro pedia
se fizesse à eloquência,
e se houver um vossa excelência
que grite: – Não é poesia!,
diz-lhe que não, que não é,
que é topada, lixa três,
serração, vidro moído,
papel que se rasga ou pe-
dra que rola na pedra…
Mas também da rima «em cheio»
poderás tirar partido,
que a regra é não haver regra,
a não ser a de cada um,
com sua rima, seu ritmo,
não fazer bom e bonito,
mas fazer bom e expressivo…
(in “De Ombro Na Ombreira”)
"A diferença entre prosa e poesia está no leitor".
Eliminarin 'Borges Verbal', edição Assírio & Alvim, Junho 2002, página 70.
E eu estou completamente de acordo!
:-) Antonieta
Justamente. Tendo a concordar com o que diz Antonieta nas palavras de Borges: “a diferença está no leitor”.
EliminarTambém nas palavras do José Catarino, no comentário acima, vemos que “poema será aquilo que os leitores aceitarem como tal”.
Atento o que diz O’Neill no poema que transcrevi, o que é preciso é que aquilo que o leitor recebe seja “bom e expressivo”.
Em última análise será de facto assim.
Aliás, nesse mesmo sentido, eu próprio, nas palavras de “Leitora” (vd o último parágrafo do meu comentário ao post “Invenções” de 16 setembro) escrevi que
«– Existe sempre algo para além do livro, para além do autor, para além das convenções da escrita, para além do tempo, de onde provém aquilo que o leitor descobre naquilo que está simplesmente escrito.» (sublinharia “para além das convenções da escrita”).
Não deixa de ser curioso, hoje estava a deitar jornais fora e acabei por ler e recorttar este poema, da página do Nicolau Santos (do caderno de economia do "Expresso", de 29 de Agosto).
ResponderEliminarÉ um belo poema às musas de pernas que nos fazem olhar, por causa do dar a dar...