Ler e ouvir
É já hoje que faremos o lançamento de A Última Canção da Noite, o segundo romance de Francisco Camacho, recentemente publicado pela Dom Quixote. É um verdadeiro page-turner que tem uma espécie de banda sonora (basta ler os títulos dos álbuns mencionados ao longo do texto) e cujo enredo inclui o desaparecimento de um músico de sucesso e o seu encontro com o homem a quem vai revelar a sua história (na verdade, trocarão ambos experiências, pois o ouvinte também tem muito que contar). A apresentação, na Livraria Ler Devagar da Lx Factory, será feita por João Miguel Tavares e Zé Pedro (sim, o dos Xutos). Espera-se uma enchente de boa-disposição. Se quiser, apareça!
Já que ninguém comenta, comento eu (de cor). Aqui vai:
ResponderEliminarDo jornalista Francisco Camacho, retiro o seguinte parágrafo de crónica recente a justificar porque já não existem jornalistas à Reinaldo Ferreira ou Mário Domingues, verdadeiros mitos do jornalismo de investigação da geração do meu pai.
"Eu, que sempre me considerei um repórter, mesmo quando passei muito mais tempo dentro de uma redacção a distribuir instruções a jornalistas do que na rua a recolher histórias, sou insuspeito para falar do assunto - mas não verto uma lágrima. Há menos reportagem nos nossos jornais e revistas? Provavelmente, sim. Mas isso não significa que, nas redacções, tenha desaparecido a vontade de sair para a rua, investigar, recolher testemunhos, registar ambientes e contar histórias fora da agenda. Até porque muitos jornalistas – novos e velhos – não concebem a profissão de outra forma. E, para esses, os livros podem ser uma boa saída. " [reparem, como intelectual de boa e conservadora cepa, escreve contra o AO]
É que é durinho passar uma semana como sem abrigo nas ruas de Lisboa para relatar essa realidade, como o fez o Mário Domingues, ou fazer-se passar por marinheiro em noites ébrias e toxicómanas do Cais do Sodré, como o fez o Reinaldo Ferreira, para dar o lado marginal de Lisboa aos seus leitores.
Agora os jornalistas querem ser ESCRITORES !!!!!! Antes mesmo de se obter um portfolio mínimo de jornalismo de investigação (ou então querem ser cronistas, comentadores, fazedores de bitaites, etc, etc).
Não há tempo para darem o corpo ao manifesto. E a culpa desta degradação do perfil do jornalista, só jornalista, deve-se ao mau exemplo do Miguel Sousa Tavares.
Que bela vidinha a dele ! E porque não para mim !
Por andas magnífico PEDRO ROSA MENDES, o último de uma espécie extinta ?
Boa sorte para o Francisco Camacho e para o seu novo livro (o homem até já ganhou um PEN !). É seguramente um romance transversal, como agira se diz: literatura, jornalismo, rockalhadas, redes sociais (isto sou eu a adivinhar sem ter lido uma palavra...).
E que belo comentário, Artur. Obrigado!
EliminarObrigado, caro Severino, mas já me arrependi das minhas palavras, como pode ver abaixo. [é um dos meus defeitos: sou por vezes excessivo no palavreado e cedo demasiado rápido ao impulsivo de o pôr cá fora].
EliminarNão foste nada excessivo Artur, só os calculistas não são excessivos, os homens de coração que falam com ele ao pé da boca são os HOMENS que podem fazer um mundo melhor, só os puros são capazes de falar assim, só as pessoas de bom senso são capaz de ser assim, porque aquelas calculistas que medem cada passo que dão dessas, meu amigo, não reza o coração dos homens!
EliminarDevo até dizer-te que sendo o Francisco Camacho um homem das letras ninguém melhor do que ele poderá certamente compreender as tuas palavras.
Obrigado Artur!
Um abraço para todos os extraordinários e extraordinárias.
não concordo com a maior parte do que escreveu, Artur.
Eliminaro Miguel Sousa Tavares nunca foi um jornalista de redacção, pelo que não pode ser acusado de algo que nunca fez.
mas na extinta "Grande Reportagem" deu abrigo a muitos jornalistas, para fazer as tais reportagens que parece já não existir.
o problema é que os actuais consumidores de jornais "estão se cagando" para a grande reportagem, querem é o "sangue do "C. da Manhã".
é por isso que não acredito que o "Publico" e o "Diário de Notícias" mantenham por muito tempo as suas edições de papel...
há uma "desorientação" muito grande por causa da "crise" e pouco dinheiro para que alguém se dedique apenas à investigação no jornalismo.
além de alguma investigação (a políticos e a empresários corruptos) não interessar aos "patrões"...
as coisas estão longe de ser tão simples.
Caro Luís, obrigado pela sua discordância ! Nada há mais heurístico do que uma discordância clara, com é a sua. Terei de facto sido infeliz ao escrever “o mau exemplo do Miguel Sousa Tavares”. O que queria ter dito, se me tivesse expressado melhor, nada era em desprimor do próprio, escritor e comentarista político que admiro, mas sim que a sua eclética e bem sucedida vida profissional poderá sugerir que todo jornalista deve aspirar a ser um ficcionista em part-time, quando, para mim, o verdadeiro e genuíno jornalista é um profissional com um perfil único, imensamente necessário e praticamente desaparecido na vertente de investigação.
EliminarO quadro do jornalismo português atual é realmente triste, tal como o traça no seu post. Mas haja esperança: com tantas escolas de jornalismo e tantos jovens jornalistas a delas saírem, talvez um destes dias surja uma nova publicação, provavelmente só em suporte digital, em que o jornalismo de investigação, tão popular em gerações que nos precederam, renasça. E não só para investigar políticos corruptos mas para infiltrar todos os aspetos da sociedade e trazê-los ao comum conhecimento da comunidade.
Que o Francisco Camacho me desculpe a acidez do comentário acima. Não o conheço, nem à sua obra literária, e seguramente estarei a ser injusto com ele.
ResponderEliminarÉ que foi um texto mais de autoflagelação do que de outra coisa: estamos todos tão agarrados ao computador, a fazer tantas coisas importantes, que deixamos passar a vida vibrante sem nela intervirmos. E imagino que a esta maleita universal também não escapem os jornalistas, igualmente sugados pelos seus computadores e pelo que é fácil (e tão sedutor): juntar palavra atrás de palavra sem levantar o rabinho da cadeira.
Excelente!
EliminarOs seus amigos "extraordinários" estão à espera do lançamento do seu romance para se fazer uma festa, com a Maria do Rosário a presidir !!!
EliminarBonito de se ler!
ResponderEliminarMas que blog bem frequentado,obrigado aos dois.
Aqui talvez pelas sombras que nos vão tapando o sol todos os dias, se pudesse utilizar aquele frase de Virgínia Wolf:
ResponderEliminar«é muito mais difícil matar um fantasma do que a realidade.»
"aquela"
EliminarViram que morreu o Tom Sharpe?
ResponderEliminarÓ João, nunca li nada dele (Tom Sharpe); vale a pena?
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