Uma ponte nunca vista
Mathias Énard costuma ser um escritor difícil, mas desta vez presenteou-nos com um curto romance extraordinariamente acessível que até deve ser oferecido a adolescentes, pois dele retirarão um imenso prazer. Chama-se Fala-lhes de Batalhas, de Reis e de Elefantes e tem como protagonista o grande escultor Miguel Ângelo, que anda zangado com o papa Júlio II por este não lhe ter pago o que lhe devia e, um pouco enraivecido com a situação, resolve aceitar um convite do sultão de Constantinopla para desenhar uma ponte sobre o Bósforo. Temente a Deus, o argumento que o convence a partir (e, mesmo assim, às escondidas) é o facto de Leonardo da Vinci ter respondido anteriormente ao mesmo convite, mas, pelos vistos, se ter saído mal, realizando o projecto de uma ponte inexequível. Já na estrondosa Istambul, o seco Miguel Ângelo conhecerá um poeta de Pristina que será o seu companheiro mais constante (e com o qual terá uma relação que, para mim, é o melhor desta novela) e uma personagem obscura (homem ou mulher, logo veremos) que foi expulsa de Granada e faz parte dos refugiados desse reino perdido. Com capítulos curtos e extrema musicalidade, o livro de Énard é uma obra de rara beleza sobre a arte, a amizade, o amor (ou a incapacidade de amar) e ainda uma ponte que ninguém chegou a ver (mas o desenho subsiste) e os pormenores que o grande escultor de Florença trouxe na memória dessa viagem e usou, aqui e ali, nas obras enormes que conhecemos. Prodigioso.
Com os ingredientes que gosto...uma ponte apetecida!
ResponderEliminarParece interessante, mas ainda tenho tantos na bicha...
ResponderEliminarPara matar o vício esta manhã lá tive que comprar os dois livros que a VISÃO, por estas semanas, está a vender com a revista (dois por € 9,90), O MEU NOME É LEGIÃO e O ARQUIPÉLAGO DA INSÓNIA, será desta que conseguirei passar da pág. quinze? tentarei mais uma vez, mas não acredito.
Mas estarei atento ao Mathias Énard a este livro.
A capacidade de Énard mudar de registo faz dele um grande escritor. "Zona" é completamente diferente de "Fala-lhes de Batalhas, de Reis e de Elefantes".
ResponderEliminarFoi muito agradável conversar com ele.
A tradução de Pedro Tamen dá um contributo inestimável para este prodígio. Como já dera para o avassalador Zona.
ResponderEliminarTem toda a razão. A tradução é tão boa que me esqueci de que era tradução (e só por isso não mencionei, como devia, o nome do Pedro Tamen, mea culpa).
EliminarAo nível das traduções de Roth por F. Agarez. ;)
EliminarNão exageremos, meu caro Mário Rufino. Antes de ser tradutor, Pedro Tamen é um grande escritor. E isso é essencial para quem traduz. Os meus amigos editores sabem que há muito tempo defendo que os candidatos a tradutores deviam fazer prova de que sabem escrever, e não só de que conhecem bem as línguas de partida e de chegada!
EliminarConhecedores das obras dos autores (e porque não das influências?) que traduzem.
EliminarNão têm de ser, obrigatoriamente, escritores...
Uma ponte sobre o Bósforo só pôde ser equacionada no séc XX. Creio tratar-se de uma ponte sobre o Corno de Ouro, uma vez que Istambul nessa altura já se estendera para o lado oriental daquele braço de mar.
ResponderEliminarMas não será que para o grande MAB tudo seria possível?
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