O génio infantil
Na infância já é possível entrever quem, de entre os alunos de uma turma, se afigura mais criativo, seja pelos desenhos que se distinguem dos que são clássicos entre crianças, seja através de redacções imaginativas, tiradas intempestivas ou até perguntas formuladas do avesso. Uma amiga enviou-me há uns tempos por e-mail um conjunto de definições que um grupo de crianças avançou – e é, de facto, notável como já é possível, por ali, encontrar uma veia poética ou uma bela dose de criatividade. Para mim, a melhor era de longe a definição de «rede»: «Uma porção de buracos amarrados por um cordel.» Mas também me deliciei quando um rapazinho disse que um relâmpago era «um barulho rabiscando o céu» e outro classificou o calcanhar como «o queixo do pé». À pergunta «O que é um palhaço?», uma menina respondeu que era «um homem todo pintado de piadas». Outra definiu vento como «ar cheio de pressa». No campo dos animais, uma criança disse que cobra era «um bicho que só tinha rabo» e, com imensa propriedade, outra avançou que uma avestruz era «a girafa dos passarinhos». Enfim, vamos ver se, daqui por uns anitos, mantêm a inventividade ou se deixam estragar pelo caminho... Pode ser que algum deles se torne um original escritor.
O AR CHEIO DE PRESSA - que criatividade.
ResponderEliminarNão sei se Millôr Fernandes, que tão bem definiu um especialista (UM ESPECIALISTA É ALGUÉM IGNORANTE EM TUDO MENOS NUMA COISA) seria tão criativo!
Fica mais uma vez provado que o mundo visto pelos olhos de uma criança tem outra cor... Mas depois vêm a sociedade cheia de certezas e designações de verdades únicas e estraga tudo...
ResponderEliminarA professora do meu filho mais novo dizia-nos sempre: " Vá lá, deixem os miúdos descobrir do que é feita a terra"
Esta deliciosa: "Avestruz é a girafa dos passarinhos"
Um abraço.
Quando comecei a ler este magnífico post da Rosário tinha acabado de «ler» o pó de arroz do «pequeno/grande» Carlos Paião de que me permito reproduzir excertos: é como enfeitar um embrulho, arroz com gorgulho do teu arrozal… arroz integral, infernal… esse pó que é fatal, és a tal que me encanta… quando chegas com todo o teu arroz…» O Carlos era pois, e é que o Carlos é imortal na sua inocência, um miúdo criativo cujo arrozal era embrulhado de uma forma natural.
ResponderEliminarA maturação e o olhar atento permitem perceber que a criatividade, que não é apenas uma caraterística de uma face ainda límpida sem pó de arroz, é apenas um elemento, um parco elemento da criação de um autor. Ao pó teremos de acrescentar base, rimmel e outros artefactos que me eximo de enumerar, já que não são propriamente elementos que me sejam assim tão próximos…para além de excelentes maquilhadores.
Uma das grandes virtudes destas “horas extraordinárias” é mesmo a aprendizagem rápida e certeira nas conclusões que não basta a um criador que queira expor a sua criatividade a possuir. E que há um mundo inventivo, limitado por barreiras muitas vezes fatais, algo formatado, naquilo que a programação neuro linguística trata da diferença entre o mundo real e o mundo percebido. Um berbere percebe a areia e o deserto de forma bem diferente do que um camionista, mesmo um daqueles que já divisa a proximidade da cidade através do aquecimento do asfalto. Ontem o criativo Afonso Cruz (que aprecio como pessoa e criador de imagens escritas e visuais; um claro visual em termos da PNL) definia o sentido de urgência de cães e gatos, em linhas retas e quebradas (gostaria de ter-lhe apresentado o meu cão, que se revela na locomoção com um sentido felino, um verdadeiro flanqueador de obstáculos e locomotor em ziguezague). Muitos outros fatores são necessários, muitos deles mesmo aqueles que gostaríamos de afastar do nosso quadro referente e que vão acomodando modelos que vão exaurindo a diversidade e impondo, modelando, a regularidade. Afinal somos todos humanos e gostamos pouco de nos aventurar a outros mundos diferenciados, pelo que:
«Jovenzinho, se te voltarem a perguntar pós infância, nesse período onde à cor sucede o cinzentismo e em que a inocência já não é tolerada, entrado num mundo criativamente idêntico, o que é uma avestruz, não te atrevas a responder: «uma girafa dos passarinhos».
Responde antes: “uma ave não voadora, da família Struthionidae, do género Struthio e da ordem dos Struthioniformes”»
Que coisas deliciosas!
ResponderEliminarSão coisas deliciosas, sem dúvida!
ResponderEliminarMas é preciso ter muito cuidado quando se lida com crianças, para não incorrer em erros que, por um lado, nos podem iludir, por outro, as podem prejudicar grandemente.
As crianças tendem a repetir muito aquilo que se diz em casa. Longe de mim concluir que as expressões aqui apresentadas não sejam da autoria das crianças em questão, mas temos de pôr sempre essa hipótese: terá a criança essa veia criativa e poética, ou terá alguém que viva com ela? Claro que também, neste último caso, pode ser uma grande ajuda para que a criança desenvolva a sua criatividade. Mas atenção: nem tudo é espontâneo. Claro que, perante o petiz, não devemos mostrar essa desconfiança, apenas registá-la na nossa mente.
O segundo aspeto é que cada criança tem o seu ritmo de aprendizagem e revelação das suas aptidões. O facto de uma criança ser muito imaginativa, no infantário ou durante o ensino básico, pode não significar que assim fique pela vida fora. E uma criança apagada nessa altura da sua infância, mesmo que não revele imaginação e poesia nenhuma, pode, mais tarde, revelar-se num poço de talento.
Onde está aqui o perigo? Os adultos tendem a tipificar as crianças muito cedo, do estilo: "este vai ser um grande escritor", ou "esta não tem jeitinho nenhum para a escrita (ou para o desenho, ou para a ginástica, etc.). É que isso pode mesmo não ser verdade! E, por mais que nos pareça o contrário, as crianças interiorizam aquilo que os adultos lhe dizem, convencendo-se de que realmente não têm talento nenhum, quando, no fundo, estão cheio dele. Conforme o temperamento da criança e a convicção com que os adultos lhes dizem certas coisas, pode-se dar o caso de nunca conseguirem revelar o seu talento.
Nesta segunda leitura, descobri algumas gralhas/erros no meu comentário. Mas, pronto, é apenas um comentário de blogue, certo?
Eliminar;)
Lá diz o poeta, "grande é a poesia, a bondade e as danças / mas o melhor do mundo são as crianças..."
ResponderEliminarPor causa dele, de Lorca e de outros que tais, abandonei no final da adolescência a produção poética. Como um espelho, mostravam-me que só escrevia lixo...
Estão tão infantis que comovem, essas definições. Obrigada, Rosário.
ResponderEliminarHá tempos disseram-me que tinha morrido num acidente de mota um miúdo a quem me liguei na infância por ser de natureza miúda e meio diferente de todos os outros. Vieram-me então à memória algumas das suas pequenas diferenças. Um dia dei com ele chorando mansamente, sem uma palavra. Estás doente? alguma coisa te fez triste? e ele, olhos vidrados, as lágrimas cara abaixo, não, hoje acordei triste. Abafei o riso dos outros. Tens razão, a gente se está triste chora; queres chorar aqui ou lá fora? e ele, aqui. E deitou a cabeça nos braços, ficou ali a chorar de apetite. Daí a um bocado agarrou no lápis e continuou. Adulta chata, inquiri, melhoraste? Ele, estou bom, já não tenho a tristeza cá dentro.
Certa vez em que uma demonstradora de produtos de beleza nos visitou, por motivos que desinteressam, experimentei uns batons. Ele entrou entretanto e perguntei, gostas? estou bonita? fez um olho apreciador, mirou durante um momento e, gosto, mas era mais bonito se fosse azulinho claro.
Tinha uma mãe que se chamava Violeta e um pai que lhe fazia versos ao pequeno almoço. Vejo ainda a sua carita redonda numa doçura infinita a abeirar-se, quer ouvir o que o meu pai disse hoje à minha mãe?e a voz desvanecia-lhe de orgulho no poema.
Como é que uma vida em toda a sua complexidade pode caber nuns tão curtos 18 anos. E me continua a parecer que não cabe.
Eu tinha sempre a pontuação máximas nas redacções da primária, mas foi no 5º ano que tive uma professora que me disse que poderia ter futuro nas letras por causa de um resumo que fiz da "Raposa salta-pocinhas" Nunca esqueci este comentário da professora de português, mas também até agora não consegui descortinar grande talento em mim...
ResponderEliminarA ver se o talento ainda virá com a idade e a minha professora do 5º ano mostre finalmente que tinha razão:))
Beijinhos
Cláudia
Uma delícia este post!!!
ResponderEliminarA minha mulher que é educadora, conta-me muitas destas... e há de facto um manancial de definições fabulosas.
Mas serão só as crianças? Na nossa sociedade urbana e dita evoluída sim... mas e nas outras?
Faço a pergunta, pois lido diariamente com pessoas cuja ingenuidade cabe nesta descrição infantil e neste post Extraordinário. Ainda há umas duas semanas, na recôndita aldeia de M'banjo perdida no planalto do Bailundo do soba Fernando Dirito, tirei uma foto fantástica a um velho muito velho e expressivo. Ele desconhecia as máquinas digitais... e como faço sempre, mostrei-lhe a sua face gravada na parte de trás do visor da minha Pentax.
Exclamação imediata e genuína: "Óh! Como fui parar aí?".
Saudações do Planalto Central
Lembra-me um glossário do já quase centenário Manoel de Barros em que apresenta, para 'lesma', por exemplo, a seguinte definição: "semente molhada de caracol que se arrasta".
ResponderEliminarNem de propósito: antes ainda de ler o seu post , li este, acerca do lançamento de um livro infantil que inclui um dicionário feito por crianças, com definições igualmente deliciosas:
ResponderEliminarhttp:/ catracalivre.com.br /geral/cidadania indicacao dicionario-feito-por-criancas-revela-a-adultos-um-mundo-que-ja-esqueceram /
A minha preferida é esta - Adulto: Pessoa que em toda coisa que fala, fala primeiro dela mesma (Andrés Felipe Bedoya , 8 anos)
O tema ''criatividade infantil'' remete-me sempre para estas maravilhas que uma criança próxima produz em série. Vejam se tenho ou não razão:
ResponderEliminarhttp://demaneirasqueeassim.blogs.sapo.pt/117856.html
Um belíssimo post e interessantes comentários, passando pela hipótese de as crianças talvez terem ouvido algo no género e sairem-se com definições encantadoras. De uma maneira ou de outra, o mérito é delas, pois, pelo menos, revelam capacidade de fixar algo que acham interessante.
ResponderEliminarNão quero tirar o mérito à menina da belíssima definição de vento: o «ar cheio de pressa». Tenho a certeza de que é de sua autoria. Mas acabou por me inspirar uma pequena história.
(Desculpem não me identificar, mas morro de medo de que não gostem):
Era uma vez um avô, cujos trabalhos e agruras da vida não haviam destruído a poesia que lhe ia na alma e que ele guardava para si, pois não aprendera a ler nem a escrever.
Um dia, ia a sair de casa com a neta, de dois anos. Era um dia de ventania, as árvores pareciam zangadas, agitavam-se em todas as direcções, em silvos ameaçadores. A neta encolheu-se.
- Que tens?
Começou a chorar. E o avô percebeu:
- Tens medo do vento? Não precisas. – Chegando o seu rosto ao dela, acrescentou: - Não sabias que o vento é o ar cheio de pressa?
A neta lançou-lhe dois olhos escancarados, ainda brilhantes das lágrimas. O avô sorria-lhe e aquele assombro fê-la esquecer o choro.
Passados dois ou três anos, o avô e a neta tornaram a sair, num dia de ventania. A neta riu-se:
- Olha, avô, o ar hoje está outra vez cheio de pressa.
O avô olhou-a, emocionado, por aquela sua inspiração não ter caído no esquecimento, como tantas outras.
A neta entrou para a escola, aprendeu a ler e a escrever e o avô pedia-lhe que ela lhe lesse as legendas dos filmes, realizando um velho sonho. Finalmente entendia-os na sua plenitude!
Um dia, a professora pediu aos alunos que escrevessem uma definição de vento. Enquanto os colegas se esforçavam a pensar, a neta não perdeu tempo e escreveu: «o vento é o ar cheio de pressa». E sorriu, ao lembrar-se do avô, que lhe ensinava coisas tão bonitas, apesar de não saber ler as legendas da televisão.
Que texto delicioso e com comentários à altura. Apercebi-me agora que esta poderia ser a frase escolhida para responder a uma questão do exame de Português de 4.º ano.
ResponderEliminarTenho filhos pequenos e delicio-me com as suas descobertas, definições e lógicas. Um dia o mais velho, por volta dos cinco anos, descobriu que o mundo / a vida era circular: primeiro vieram os dinossauros, depois os cavaleiros e finalmente os homens; a seguir viriam de novo os dinossauros e sempre assim sem ter fim. Há pouco tempo, o mais novo, com praticamente a mesma idade perguntou-me o que havia depois do céu e quase logo a seguir quis saber que número vem a seguir ao infinito.
A vontade de saber mais, de compreender o mundo e de encontrar respostas (com maior ou menor criatividade) parece fazer parte do pacote que recebemos à nascença e que ajuda à nossa sobrevivência. Ou talvez não e uma boa parte seja mesmo fruto do que vemos e imitamos.