Viva, pim!

Quem teve a sorte de ver representar o actor Mário Viegas, de certezinha absoluta que não mais o esqueceu. A sua interpretação teatral ou cinematográfica era absolutamente genial – e bem assim a forma notável como dizia poesia. Havia um poema emblemático que, na sua boca, fazia parar tudo e deixar-nos pregados ao chão a ouvi-lo. Tratava-se d’O Manifesto Anti-Dantas, de Almada Negreiros («Morra o Dantas, morra. Pim!»), que, para quem não sabe, se atirava ao também poeta Júlio Dantas (que por acaso descobri recentemente ser o autor da letra de um fado de que até gosto bastante chamado Rua do Capelão). Ora, a Assírio & Alvim teve a bela ideia de reeditar o Manifesto num formato muito bonito e com um excelente «brinde»: um CD no qual o próprio Almada lê o seu texto! Suspeito que não consiga suplantar Mário Viegas… em todo o caso, ouvir um poema dito pelo próprio autor, mais ainda tratando-se de Almada, tem outro encanto.

Comentários

  1. Excelente o manifesto anti-dantas na boca do Mário Viegas!

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  2. E quantas vezes me perguntei o porquê deste estranho ódio de um poeta a um outra poeta?

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    1. Cláudia da Silva Tomazi11 de junho de 2013 às 07:39

      Diria, o mesmo de estranho.

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  3. O Manifesto e posteriores atitudes de Almada, que esperava Dantas à porta de casa e, ao avistá-lo, se punha em sentido, fazia-lhe manguito e gritava "Às armas!" podem ser vistos como o morder nas canelas de um aprendiz de escrevente que, ambicionando popularidade fácil e rápida, melhor meio não encontra que ofender o escritor mais conceituado da sua época. Esprema-se o Manifesto, expurgue-se de insultos -- o que fica? Queremos "crítica literária" daquele jaez?
    Que diríamos hoje em dia de jovem escrevente que para lançar a carreira fosse berrar para a televisão Saramago é um cigano! O Saramago é meio cigano! O Saramago cheira mal da boca! (substituindo Saramago pelo vosso escritor preferido)?
    Na minha mocidade, quando devorava tudo o que tivesse letras, a obra de Júlio Dantas não me escapou. E apreciei-a. O que não aconteceu posteriormente com a do Almada.
    Esta defesa de Dantas, que enceto sempre que o seu nome vem à baila trazido pelo famigerado Manifesto, é uma tentativa de reposição da verdade dos factos. Não implica qualquer crítica a Viegas, capaz de declamar magistralmente qualquer texto, mesmo sem qualquer valor literário, como uma vez fez com o boletim meteorológico.

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    1. Caro Catarino

      Peço-lhe que reconsidere este seu primeiro parágrafo: «O Manifesto e posteriores atitudes de Almada, que esperava Dantas à porta de casa e, ao avistá-lo, se punha em sentido, fazia-lhe manguito e gritava "Às armas!" podem ser vistos como o morder nas canelas de um aprendiz de escrevente que, ambicionando popularidade fácil e rápida, melhor meio não encontra que ofender o escritor mais conceituado da sua época. Esprema-se o Manifesto, expurgue-se de insultos -- o que fica? Queremos "crítica literária" daquele jaez?»

      Agora, com calma, veja o caso à luz destes versos do Almada:

      (…)
      E fazer frente ao impossível
      atrevidamente
      e ganhar-Ihe, e ganhar-Ihe
      a ponto do impossível ficar possível?
      E quando tudo parece perfeito
      poder-se ir ainda mais além?
      E isto de desencantar vidas
      aos que julgam que a vida é só uma?
      E isto de haver sempre ainda mais uma maneira pra tudo?

      Tu só, loucura, és capaz de transformar
      o mundo tantas vezes quantas sejam as necessárias para olhos individuais
      Só tu és capaz de fazer que tenham razão
      tantas razões que hão-de viver juntas.
      (…)

      [excerto de “Reconhecimento à Loucura”]

      Que me diz?

      E olhe que o texto “sem qualquer valor literário” que o Mário Viegas dizia, veja bem, tem muito sub-texto. Ele intitulou-o “Boletim Meteorológico (dos jornais)”. O que está entre parêntesis não é inocente. Corria o tempo da Censura, que passava tudo a pente fino e, pode crer, por vezes as previsões optimistas de mudança do tempo eram riscadas.
      A ironia do Mário Viegas a ler aquilo é que nos animava, nos dava esperança que o tempo havia de mudar. E mudou.

      E está a precisar de mudar outra vez, não?
      Talvez aqueles versos do Almada venham a calhar…
      Que me diz?

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    2. Caro Jordão:
      Se bem li o seu post, creio que só divergimos no apreço pela obra de Almada, matéria essencialmente subjectiva.
      Sobre a declamação do boletim meteorológico , não foi minha intenção desvalorizar o trabalho de Viegas, que admiro. Repeti mais ou menos o que ele mesmo disse quando o ouvi, algo como "um texto que não vale nada".
      A mudança é sempre fundamental. O que me inquieta, como ao amigo Jordão, é "que não se muda já como soía"...
      Um abraço.
      JCC

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  4. "Poema para Galileu" de António Gedeão dito por Mário Viegas

    http://youtu.be/nFUNeV8acN8

    Cristina Carvalho

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    1. Obrigada. Emociona-me este poema. Tudo nele me lembra.

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  5. É sempre uma curiosidade (e seguramente emocionante!) ouvir o autor ler a sua obra (quase como ouvir Rachmaninoff tocar os seus concertos ou os seus noturnos; são documentos históricos) mas, esquecendo a vertente afetiva, nem sempre o resultado é o melhor. E estou a pensar, por exemplo, num CD meu de poesia do Torga lido pelo próprio autor em que a sua voz roufenha e a sua pronúncia marcadamente transmontana lhe dão uma tom muito peculiar mas... ouvidos alguns dos mesmos poemas lidos pelo Luís Caetano até parece que passaram a voar a alturas antes desconhecidas ! Um diseur (ou uma diseuse como a Maria Barroso) podem pôr qualquer texto nos píncaros. E é por isso que tento ouvir o programa da Antena 2 que começa às 19.45 em todos os dias úteis da semana (que raio de ideia chamar úteis só aos dias de trabalho...).

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    1. É absoluta verdade. Já assisti a vários autores a lêr-se a si mesmos e as palavras que talvez tanto tempo procuraram ou a inspiração lhes ditou, perdem, quase se lhes apaga o importante.

      Torga é um dos melhores exemplos. Claro que há o inverso, Ary dos Santos, por exemplo.

      Vivam os Poetas e os Diseurs. E também as crianças , Cristo afirmava ser delas o reino dos céus e o Eugénio acrescentou a poesia.

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    2. Obrigado Beatriz por recordar o Ary ! Ele transfigurava-se e a sua poesia ganhava uma enorme energia na sua voz.

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  6. Gostava muito da forma teatral como Mário Viegas dizia poemas e outros textos. O seu talento era tal que os seus programas de TV se tornaram um grande êxito em horário nobre. Notem: poesia depois das notícias, com muito sucesso!

    Mas contava-se haver poetas que não gostavam que ele dissesse os seus poemas. Às vezes ele transformava-os. Eu gostava sempre.

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  7. A propósito de bons programas de televisão, gostei imenso de ver ontem a Cristina Drios no Bairro Alto.
    Se tivesse uma livraria aqui ao lado tinha ido a correr comprar o livro dela, assim vai ter que esperar até à minha próxima ida à cidade.
    Maria do Rosário, os livros de contos continuam a não vender em Portugal?
    Espero que os «Contos Capitais» esteja a sair bem, eu já fiz a minha parte e comprei um!
    :)
    antonieta

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    1. Obrigada, Antonieta. O livro da Cristina Drios é mesmo muito bom. Quanto aos contos, espero que a coisa mude, mas parece que não são lá muito apreciados...

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    2. Muito me intriga o facto de os livros de contos não serem apreciados em Portugal. Conhece algum estudo que explique as razões nacionais para tal desinteresse?
      Não o partilho, e considero que o conto é um género tão exigente como o romance, talvez com menor margem de erro. Encaro-o como uma prova de velocidade em que o menor deslize implica a derrota. Já no romance, prova de fundo, é mais fácil a recuperação...

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    3. Comecei a gostar de ler com os contos (excelentes) do Maupassant.Imperdíveis.

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    4. Também eu apreciei muito os contos de Maupassant, tal como o seu romance Bel Ami. Não considero o conto um género menor, nem o parente pobre do romance. Eu, passe a imodéstia, estreei-me com romances e só posteriormente passei aos contos, por sugestão de uma amiga que entendeu que o meu ritmo de escrita se adequa ao género. Não encaro o conto como mais fácil de escrever por ser mais curto, nem como obra de início.

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