A ciência do papel
Desde os anos 1980 que se publicam estudos sobre as diferenças produzidas no cérebro humano entre as leituras feitas em papel e num ecrã. Li há dias um artigo publicado na Scientific American que, reconhecendo a popularidade cada vez maior dos tablets e e-readers, aponta claras vantagens para a leitura em papel, nomeadamente de livros e textos mais longos. Depois de centenas de experiências «laboratoriais», conclui-se que as pessoas dão francamente mais atenção à tinta do que aos pixels e retêm melhor a informação no papel, tendo claras dificuldades em localizar passagens num dispositivo que só mostra uma página de cada vez. Parece que a relação com o todo é, afinal, da máxima importância e que não perder de vista a capa e a contracapa, saber o que já se leu e o que ainda falta, ter duas páginas permanentemente debaixo de olho e oito cantos à vista, poder folhear com facilidade para trás e para diante, contribuem para um mapeamento do texto muito mais rigoroso e uma aprendizagem mais eficaz. Também se conclui que o toque, o cheiro, o tamanho, a forma, o peso, tudo isso é valorizado pelo leitor que, no ecrã, tende a considerar a página digital intangível e efémera… Hum… Está visto que vamos ainda ter papel por muitos anos.
Subscrevo inteiramente!
ResponderEliminarAlém de que, mesmo sem energia para carregar a bateria, podemos sempre continuar a leitura.
Aproveito para sugerir a leitura do livro «A Obsessão do Fogo», do Umberto Eco e do Jean-Claude Carrière, que trata entre muitos outros temas, o da Bíblia de Gutenberg ao e-book.
Antonieta
O que eu aprendi, Antonieta, com o Umberto Eco através do excelente "A OBSESSÃO DO FOGO".
EliminarLer no ecran é, mal comparado, como se fizéssemos amor com uma boneca insuflável...
ResponderEliminarahahahah , bem visto, Amigo Severino :)
EliminarComentário do dia.
EliminarNuma perspetiva de valor parece ser assim. Mas até a perceção de valor vai-se transmutando em algo parcialmente diferente, na perspetiva dos metodólogos céticos . A ciência do papel parece aqui um pouco como a ciência económica: só no futuro poderá ser ou não validada. Porque o que é fatual é lermos cada vez mais em dispositivos com nenhuma consonância com as árvores.
ResponderEliminarO Nuno Seabra na Edição Exclusiva deixa esta pérola: Se hoje ninguém sabe quem foi Ernest C. Poole , é porque alguma justiça se fez no mundo. Vencedor do Pulitzer no ano de 1918, mostrou ao mundo que a qualidade e a originalidade não são argumentos para se ter sucesso ou ganhar prémios importantes. Tendo derrotado autores como John dos Passos, Hemingway , Faulkner , Fitzgerald ou Miller , Poole simplesmente plagiava o estilo de autores consagrados, criando narrativas «simples» de ler e agradáveis ao público (habituados a mais do mesmo). Desde então, o fenómeno nunca mais parou.
E não, o 50 Sombras de Grey ainda não tem espaço para figurar neste grupo.»
O que é que isto tem a ver com o tema acima: nada e tudo! Porque do mesmo modo que há uma racionalidade escondida no ato de ler em plataforma odorífera, também há uma racionalidade na explosão/exposição da escrita, mesmo que escrever não possa/deva ser um ato de vaidade, ou uma vontade de querer um momento vago de atenção, mas uma vontade de conhecimento de si em conjugação com o mundo exterior, uma semente de originalidade. Ou seja, aquilo que nos pode parecer uma irracionalidade pode conter já sementes de racionalidade, que nos são invisíveis e insustentáveis aos sentidos. Como amantes do papel temos o nosso lado hedonista. Mas não devemos esquecer os ensinamentos de Epicuro: a moderação como resultado da regência da razão sobre o prazer, neste caso sobre o prazer de folhear e sentir o tangível (mais não seja para no futuro não sofrermos do trauma da desilusão).
Ainda bem! Em suporte digital só coisas de trabalho. E mesmo estas, tem dias... :)
ResponderEliminarSubscrevo na totalidade o uso do livro "físico".
ResponderEliminarHá uns meses comprei um e-book e não consegui lê-lo na totalidade, mandei depois vir o livro em papel... Recebê-lo, tocá-lo, cheirá-lo, admirá-lo e passar devagar os dedos entre as palavras, é outra coisa sem dúvida.
Um abraço.
concordo. mas a propósito de boas leituras digitais recomendo um blog que "ainda" não tem na sua lista: http://jmvieiramendes.blogspot.pt/
ResponderEliminarObrigada. Na verdade, não tenho tido tempo de actualizar e existem muitos mais blogues que lá deviam estar...
EliminarGostei da expressão "anos 1980". Não gosto do apêndice "do século passado", usado e abusado pelos portugueses (sabe-se lá porquê). Cheira a mofo e inflaciona o texto. Além disso, ao lê-lo, ainda tendo a pensar no século XIX...
ResponderEliminarJá agora, aproveito para perguntar porque não se usa mais vezes as expressões "anos 70", "anos 80", etc., sem mais nenhuma explicação? Irrita-me, por exemplo, que, ao falar de experiências vividas, haja pessoas que escrevem: "conheci fulano nos anos 80 do século passado". Mas, então, se uma pessoa que ainda vive fala de algo que lhe aconteceu nos anos 80, alguém terá dúvidas em que século foi?
Agora sou eu que digo: gostei da expressão «inflaciona o texto».
EliminarObrigada.
EliminarNa verdade, ainda bem que a ciência nos apoia. O cheiro dos livros...lembra-me aquela frase de Lobo Antunes acerca dos de Miguel Torga que, escrevia, "cheiravam vagamente a floresta". E, julgo repetir-me, a quem observei na Feira do Livro a cheirar livros seus, antigos, um a um, abria-os e punha o nariz lá dentro, de uma pilha que certo leitor lhe levou para autógrafo; e me disse que a Memória de Elefante que lhe apresentei era uma versão pirata :).
ResponderEliminarAté para correcção de textos, há sempre alguma coisa que me escapa no écran e que, posto na minha mão, muda de feição. Ou devém si mesmo. Que tanto desvalor lhe encontro então.
BFS
A mim cheiram-me mais - os livros de Torga! - a serranias pedregosas. Quanto aos livros, só contam realmente quando em papel. Os eletrónicos poderão ser, quanto muito, boas ferramentas de trabalho. Mas vão existir cada vez mais, claro!
EliminarPaulo
EliminarLobo Antunes era literal e não metafórico; referia-se ao cheiro efectivo que tinham os livros de Torga que se vendiam na feira do Livro numa barraquinha peculiar, vindos das mãos dos transmontanos, vestidos com seus fatos típicos. Dava gosto vê-los no seu inteiro camponês, pareciam esculpidos. E eram talvez os livros mais baratos da feira. Tinhamos de separar as folhas e é verdade que cheiravam a bosque. Penso que seriam, talvez, edições de autor. Tanto aparato há na Feira e nunca eu vi nada que tanto me atraísse, como aquela singeleza de um livro me ser passado pela mão próxima da terra.
Não vejo serranias pedregosas. Na realidade vejo um homem sempre e em tudo. E um sofrimento fundo a marulhar. Mas acredito que serras e pedras lhe moldaram o carácter. Também somos o donde vimos.
Só posso dizer: que bom, boas notícias!!! :)
ResponderEliminarBeijinho
Cláudia Moreira
Mesmo com os ácaros, prefito o papel. Os tabelts e demias tecnologia também têm os seus ácaros (hackers), mas nada e nunca poderá substituir o livro como um todo: o papel, a tinta, a capa...
ResponderEliminarA propósito da capa. Quero pedir à Maria do Rosário que dê, por mim, os parbéns ao vosso Criativo (com C maiúsculo) Rui Garrido.
Tenho visto e admirado capas dele, a sua arte, e esta, do premiado livro do Camarneiro, está estupenda.
Se eu tivesse os meus livros com capas dele, estou convencido que vendiam melhor.
Parece que o livro não veio para substituir, mas para complementar...
ResponderEliminarFace aos resultados apurados na investigação “Comunicação de marketing experiencial nas editoras tradicionais: uma resposta ao ambiente digital”, concluiu-se que os sentidos, a afectividade e a nostalgia são uma mais-valia para o prolongamento do ciclo de vida do livro tradicional, pois possibilitam a criação de laços entre o leitor e o objecto físico. As restantes experiências analisadas, como o pensamento (relação cognitiva), a acção (lugar da leitura), a identificação (comunidades de leitura) são igualmente importantes para a sobrevivência do livro tradicional, mas com menor influência. Este estudo demonstra que as editoras têm de se envolver mais no mercado, de desenhar estratégias de comunicação integrada e de apostar no livro em papel como um produto de nicho de mercado, no relacionamento social e nos estímulos experienciais.
Para os interessados, este estudo pode ser lido na Revista Portuguesa de Marketing on-line.
Os resultados do resumo deste estudo são muito interessantes, porque encaixam nas nossas próprias experiências de relação com estes objetos mágicos: sentidos, afetividade , nostalgia. Estando “em remoção/liquidação” do seu lugar de infância, maturidade e merecida reforma pelo uso das suas lombadas, com o «beneplácito» de uma assumida e desumana «cristas» mão de rendas (mais destruidora que o Eduardo mão de tesouras) a biblioteca da minha infância e juventude, levados em pilhas para uns armários metálicos de arrecadação de mestre mako , salvador da morte por guilhotina de uns milhares de livros, experienciei como estes objetos do papel bebem dos sentidos, do afeto e da nostalgia do passado, pequenos filhos de que não nos conseguimos separar, mesmo sabendo dos milhares que nascem todas as semanas.
EliminarPeguei numa mão cheia de alguns exemplares (sempre bebés para a quase totalidade dos extraordinários), incluindo dois ou três mestres da literatura policial (literatura que me abandonou aos 15), a uma das farpas do Ramalho (que abro ao calhas onde Ortigão critica “Além da gramática as nossas escolas obrigam o aluno a decorar várias outras coisas igualmente abstratas , como são a lógica, a retórica, a psicologia e o desenho linear…” – tudo coisas que muito falta parece fazerem na atualidade portuguesa), ao bispo negro do Herculano. A conclusão é que seremos sempre um subgrupo de um grupo mais vasto de leitores e aí a conclusão aparentemente na mouche da aposta em ninhos/nichos de mercado.
E direi mesmo mais:
ResponderEliminarExperimentem lá amanhar um peixe em cima do tablet... ou forrar a gaiola do periquito com um!!!!
Tunga... vitória do papel em toda a linha!
Ah! E faz menos mal aos olhos...
Ora báim! Diz-se lá no meu Bairro Ribatejano!
Saudações do Planalto Central
Estranahmente, não há comunidade mais conservadora (quanto a suporte de leitura) do que os book worms! Há anos que dou aulas e as turmas ficam horrorizadas quando lhes falo no ebook. Haverá sempre livros em papel como nicho (assim como continua a haver cravos e alaúdes) mas as vantagens da informação digital são inexoráveis...
ResponderEliminarAgora, sobre o assunto em questão, talvez tenha a ver com a idade. As pessoas como nós, que leram a maior parte da vida em papel, têm mais dificuldade em se adaptar aos ecrãs, mesmo aqueles da chamada eink. Mas as crianças que, cada vez mais, passam horas com os tablets -a ler, também - estão mais adaptadas. O estudo que a Maria do Rosário leu não leva isto em consideração?
Perfeitamente de acordo, é o tal caso de não pudermos para o vento com as mãos!
EliminarBoas, ótimas notícas!
ResponderEliminarLeitores há que são agnósticos quanto ao suporte do conteúdo e, viciados, lêem tudo o que encontram — inscrições na pedra, tabuinhas enceradas, papiro, pergaminho, papel, e-ink — escolhendo o suporte conforme as conveniências do momento e as vantagens oferecidas.
ResponderEliminarPor exemplo, quando leio em Inglês aprecio muito a possibilidade de ter acesso fácil ao dicionário, bastando um toque ou clique numa palavra para ver em rodapé os seus significados, acepções e valores contextuais. Dá-me muito jeito a leitura rápida das notas de fim, selecção de texto, pesquisas, etc.
Algo de semelhante se poderia dizer relativamente aos materiais que os escritores usam para produzir as suas obras, argumentando, por exemplo, que escrever com pena de pato, ou com caneta Parker com aparo de ouro é melhor do que com esferográfica Bic, que máquina de escrever com teclado HCESAROPS é superior a computador. E um texto num Moleskine tem, seguramente, outro charme...
Fico-me, assim, na fé de Camões:
"Amas o vestido?
És fraco amador.
Tu não vês que Amor
se pinta despido?"
tão bonito o que escreveu!
EliminarAfinal, ler é o que importa.
Inteiramente de acordo. Ler é o mais importante. Os não leitores nem se dão conta do que perdem. E na velhice, mesmo quando os olhos e a cabeça ainda poderiam sentir prazer nas leituras e tirar proveito delas, é vê-los entediados, a morrer de pasmo, nos adros das igrejas, nos cafés, nos lares.
EliminarO resto, o suporte físico das leituras, é acessório. Aliás, importa reconhecer que os novos suportes apresentam grandes vantagens para leitores menos jovens: a possibilidade de aumentar o tamanho das letras, a extrema leveza, que permite ler na cama (como eu gosto de fazer, ou por doença), uma biblioteca inteira dentro, audiobooks para quem não puder ler...
Acho que os livros ainda vão andar por aí durante muitos anos.
ResponderEliminarQuanto a mim, textos com mais de duas/três páginas, só em papel.
Não duvido da perenidade dos livros, aliás desejo ardentemente que os livros andem muitos anos por cá, e não apenas nas mãos de alfarrabistas e coleccionadores. Há mais de 50 anos que são meus companheiros inseparáveis.
EliminarA ameaça não vem dos e-books, afinal livros noutro suporte, mas (1) da falta de leitores, (2) da falta de leitores com gosto e espírito crítico, (3) do mercantilismo e estreiteza de vistas das editoras.
(1) e (2) são responsabilidade da sociedade, da escola, das famílias (quando existem). (3), da sociedade em que vivemos, que iguala o negócio de livros ao das lâminas de barbear, não hesitando em colocar à frente de uma editora gestor vindo da Gillette. No que à escola concerne, fiz o que pude durante 36 anos. Frequentemente em vão.