A Colômbia gosta de ler

Há pouco tempo, realizou-se em Bogotá uma feira do livro que tinha Portugal como país convidado e por onde passaram quase meio milhão de pessoas (incluindo Cavaco Silva, que se esqueceu de mencionar Saramago no seu discurso, como se um Nobel – sobretudo quando não se tem senão um – fosse coisa de somenos). Os escritores e jornalistas portugueses convidados para o certame vinham, na sua maioria, muito agradavelmente surpreendidos com o interesse e a curiosidade dos colombianos pela literatura portuguesa, enchendo os auditórios, querendo ouvir falar a língua, comprando livros, encontrando-se pessoalmente com alguns autores. Lembro-me de que, nas Correntes d’Escritas, sempre que vinham autores colombianos, os seus discursos eram muito acima da média; e um deles contou-me que, na Colômbia, a retórica e a oratória fazem parte das disciplinas curriculares de muitos cursos, não podendo nunca um deputado ler um discurso no Parlamento. Mas o que eu não sabia é que este país considera os hábitos de leitura imprescindíveis e que o seu governo, quando entrega aos mais desfavorecidos habitações sociais, além do mobiliário indispensável oferece uma estante recheada de clássicos. Uma belíssima ideia, cá para mim.

Comentários

  1. Ora aqui está uma informação extraordinária, a da estante com livros na habitação social!
    Também acho gira a dos deputados sem papel, ahahah...
    Gostava de «ouver» alguns dos nossos sem o papelito!
    Fico feliz por saber que afinal a Colombia não é só a terra da Gabo, do bom café e da droga...
    Antonieta

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  2. Claro que não é da Gabo e sim do Gabo, ou seja, do Gabriel García Márquez.
    Inconvenientes (e nabices) de escrever num teclado minúsculo e virtual...
    Antonieta

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  3. No passado verão estava numa esplanada e, por acaso, ao meu lado estava um casal colombiano que meteu conversa comigo quando me viu a ler um livro de Gabriel Garcia Marquez e foram eles, entusiasmados pelo facto, que me recomendaram um excelente livro do GABO que na altura eu não E ali mantivemos uma agradável conversa sobre livros e tive oportunidade de comprovar que era gente conhecedora!

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  4. Dos colombianos só conheço mesmo o que leio. E têm na escrita aquela aura de fantasia romanesca e quase infantil que nos cai a nós portugueses como sopa no mel vá-se lá saber porquê, mas talvez seja porque o fantástico nos agrade sobremaneira.

    Um facto que o Post da Rosário aponta com acuidade é esta mania de ler socorrendo-se do papel e que assola o país, dos mais velhos aos mais novos. Nada parece saber-se sem a cábula. Defendem-se ideias no papel - e talvez de papel. Não me pronuncio sobre políticos, descreio da política em Portugal. É um jogo sujo de que somos peões. Onde tudo é possível. Ou seja, existe nada do bem da polis. Leiam ou não.

    Os nossos jovens, que estão horas no Face, nos chats de conversa e respiram por sms, não se aguentam cinco minutos a falar sobre um assunto de que gostem. Só eles, a expor o que preparam, apenas podendo socorrer-se de tópicos. Precisam seguramente de treino. Há práticas que melhoram a oralidade (não me refiro às que o ministério exige nas línguas por exemplo, aliás bastante discutíveis), os ajudam a vencer barreiras e ajudam o professor a ajudá-los – a maioria começa pelo uso de frases desligadas e denota dificuldade em contar, quem sabe se pelo abuso da linguagem de telemóvel. No entanto, as comunicações do último período lectivo são superiores às do primeiro, havendo a atenção de anotar falhas e motivar para. É um trabalho interessante e até charmoso. 5 minutos são quase nada, e o que começa como um frete pode tornar-se um momento alto. Aprendem todos. E o professor não é quem menos. Seguramente.

    Entregar livros é uma ideia supimpa. Que em Portugal até nos supermercados o corredor dos livros é sempre o mais espaçoso. Está um frio de rachar nos iogurtes e ainda assim é mais animado.

    Um Boa Semana

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  5. Peço desculpa, esqueci este bocadinho e não pode:

    Cavaco Silva mostrou ao mundo o que é ser miudinho no pior sentido de ser miudinho; no sentido que, na qualidade de PR, lhe está vedado. Como pessoa singular, o Aníbal de Boliqueime, pode detestar e ignorar Saramago. Como PR, em representação de todos os portugueses, tem o dever de lhe prestar a homenagem que “esqueceu” e foi tanto mais notada porquanto foi o único a esquecê-la. Ofendeu-me. Por este acto e vários outros.

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    1. Um presidente da república que, num evento de livros fora do nosso país (acredito que por má fé e não por ignorância), só merece o que os jogadores do Benfica ontem, na final da Taça de Portugal, lhe fizeram: desprezo!

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  6. Ora, cá está um comentário acertado...

    A base de todo pensamento reside na leitura...

    Ah, cultura, cultura! Tens todo um pais a conquistar.

    Na América Latina não existe apenas a Colômbia a assinalar. Faço questão de referir a Venezuela com o seu "El Sistema" um programa Público de Educação Musical fundado em 1975 e localizado em zonas desfavorecidas.

    Com este programa criou-se uma rede nacional de orquestras que começa a dar os seus frutos.

    Alguém conhece Gustavo Dudamel? Não será dos meus Maestros favoritos, porém, carrega por todo o mundo uma legião de admiradores, dando uma nota positiva a um país que sofre de tão péssima imagem.

    Nota 1: Neste nosso país os puliticos (perdoem-me o erro, mas foi propositado) preferem plantar eucaliptos que mais depressa crescem (mas... que logo ardem) a carvalhos, que têm o péssimo hábito de frutificar depois de várias gerações.

    Nota 2: Pensem na nossa televisão... nos ditos canais generalistas. A cultura, tanto quanto a estupidez, tem a capacidade de se sustentar. Há que plantar e regar... Antes de sermos um verdadeiro país temos de construir o cidadão. Há mais de 2300 anos, em Esparta, já se dizia que os cidadãos eram as verdadeiras Torres de uma Cidade.

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  7. Que falta me fizeram a retórica e a oratória!
    E ao nosso PR também somos capazes de identificar essa e outras faltas.

    Uma estante recheada de clássicos numa habitação social fez-me dizer «Uau», mas pensei de imediato que nesta época de crise, em Portugal as pessoas venderiam os livros, para poderem ter pão.

    A Colombia é uma das economias em maior crescimento no mundo, um país muito rico em recursos naturais. Poderemos aspirar a tanto?

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  8. Por acaso alguém me deu a conhecer Gustavo Dudamel. E, sem a música, é muito difícil que exista cultura. Ou estará incompleta. Os jovens das escolas deveriam ter acesso a concertos de clássicos grátis, a coros escolares, etc. Porque o gosto também se educa. E os Projectos Educativos das escolas e agrupamentos podiam e até deviam privilegiar tais actividades. Mas os PE são outra coisa. o espírito de tribo é como a árvore que impede a visão da floresta. É meu entender que a cidadania se constrói não com disciplinas e aulas sobre, mas com saberes artísticos. Ensinar a gostar de música clássica seria um dever do Estado e das escolas. Há princípios básicos que deveriam estar na origem da educação. E raro estão. Vê-se nos programas como se vê nas ofertas que as escolas fazem (há disciplinas que são oferta de escola). Ninguém parece interessado em que eles sejam incutidos aos alunos. A escola portuguesa preocupa-se, por defeito inerente a si mesma, com a informação. Mas educar é também formar. Julga-se talvez que a formação corresponda a estar em silêncio nas aulas e responder ou intervir dentro da vez. Sem a arte? Eles perdem por desconhecimento, mas sobretudo perdem porque ela ajuda a formar o carácter. Não é panaceia, mas tornaria mais fácil o trabalho de professores, pais e Escola; teríamos jovens com identidade valorativa. A indisciplina combate-se com envolvimento dos alunos em projectos - musicais, de teatro, etc. As orquestras jovens mobilizam-nos e ganham para a escola gente que, quem sabe, talvez não se lhe prendesse de outra forma.

    De tudo que existe no tempo, nada existe tanto tempo como a arte. É dá-la a ver e experimentar. E notar a diferença.

    É sonho? Pode que sim. Mas, um dia, seja quando for, será assim.

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    1. Se me permite, subscrevo todas as suas palavras...

      Abraço!

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  9. Ora aqui está um país civilizado ;)!

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