Traduzir o amor
Gosto de que pessoas em quem confio me aconselhem leituras e já aqui confidenciei que o meu romance de férias (um romance de peso, com mais de 500 páginas) me foi aconselhado por Ricardo Menéndez Salmón, autor de, entre outros, A Ofensa. Chama-se O Viajante do Século e assina-o um jovem argentino que dá pelo nome de Andrés Neuman. Costumo fugir dos romances extensos por pensar que, no mesmo tempo que preciso para um deles, posso despachar dois ou três. Mas, neste caso, não há arrependimento possível, pois trata-se de um dos melhores livros que li nos últimos tempos. De argentino, porém, não tem absolutamente nada; quando já tinha devorado cinquenta páginas, sentia-me a ler uma tradução de um autor checo ou alemão e, mais para a frente, nas cenas das tertúlias literárias (e não só), cheias de diálogos e pensamentos surpreendentemente ricos, pareceu-me até que podia estar metida num romance russo (mesmo que os russos tratem as mulheres de forma bastante diferente). Este viajante do século (Hans, um tradutor que trabalha enquanto viaja em pleno século XIX) chega a uma cidade donde, surpreendentemente, não consegue sair. Há várias razões que concorrem para essa impossibilidade, mas a mais tardia é a sua paixão arrebatadora por Sophie – uma personagem inesquecível que, tenho a certeza, faria as delícias de muitas feministas. A relação dos dois (carnal e literária) é dos episódios mais inventivos e poderosos que me passaram pelas mãos, pois os dois traduzem corpo e literatura ao mesmo tempo, sem nenhuma das actividades perder com a outra. Inteligente, culto e deslumbrante, este romance de grande fôlego é uma prova de que os jovens autores são capazes dos maiores feitos literários.
aha, eu sabia que depois do que escreveu no final de julho voltaria outra vez a falar deste livro... foi também o que mais me surpreendeu, a improvável inclusão num romance (que tenta retratar culturalmente um século) de um jogo de releitura/tradução de corpos e poemas - e até com referências portuguesas... horas extraordinárias, não é?
ResponderEliminarSem dúvida!
EliminarOntem dizia a uma amiga que teria de retirar alguns blogs (incluindo este) do meu Feedly, sob pena de ir à falência muito rapidamente.
ResponderEliminarQuem consegue resistir a sugestões de leitura como estas?
Ao contrário de si, Rosário, procuro quase sempre romances extensos. Apesar de sentir que se calhar podia estar a ler outros mais curtos, adoro a sensação de, todos os dias, me deitar (é quase empre na cama que leio) e ter uma vida paralela à minha espera, uma vida em que vou conhecendo todos os recantos com cada vez mais pormenor.
ResponderEliminarComo leio muito e relativamente depressa, um romance extenso é uma forma de prolongar a evasão que os livros me proporcionam. Alguns livros longos que recomendo: «As benevolentes», «Os pilares da terra», «A sétima porta».
concordo com a vespinha. também gosto de romances grandes...
ResponderEliminare lamento mas o viajante do século (que levei de férias comigo) não foi um grande romance. tanto que não consgui ler até ao fim...