Gossip literário

Tenho esse enorme defeito de não ser curiosa, pelo que – com excepções, bem entendido – não me fascinam, como a tantos, as biografias. Mas gosto de saber coisas de escritores (e aconselho, desde já, as entrevistas da Paris Review recentemente publicadas pela Tinta-da-China; não é, porém, de aspectos tão sérios que falarei hoje). Há uns anos, li um livro de Javier Marías (nesse tempo muito menos famoso do que hoje, mas – recordo – já bastante arrogante) que reunia uma série de textos sobre escritores notáveis publicados, se não erro, num jornal espanhol. Chamava-se Vidas Escritas e trazia a chancela da Quetzal, quando esta era ainda dirigida por Maria da Piedade Ferreira. Despretensioso e ligeiro (não era um livro a que Marías desse uma importância por aí além), falava-nos de algumas idiossincrasias de escritores, contadas com humor, bom gosto e talento literário. Foi nesse livrinho que descobri, por exemplo, que Faulkner apostava fortunas em corridas de cavalos e Conrad deixava cigarros acesos por toda a casa, tendo-se livrado por pouco de alguns incêndios. Leitura boa para domingos sem ambições, que nos mostra que alguns monstros sagrados têm um lado tão humano como qualquer mortal.

Comentários

  1. E cá, sobre os escritores de cá, como seria? Provavelmente não mais do que um projecto, uma colecção de providências cautelares, um rodopio de sustos e muitas curiosidades que nunca seriam satisfeitas...

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  2. Eu, ao contrário, adoro biografias. A última que li "Life on Air", David attenborough até andei a poupar para não chegar depressa ao fim. Agora, já me estou a fazer à do Michael J. Fox que está na mesinha-de-cabeceira do outro lado da cama...

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  3. Sobre essa coisa da vida e loucura dos escritores:
    «I became a writer but when I was a boy
    I used to dream of becoming the village idiot
    I used to lie in bed and imagine myself that careless idiot , planning ways to got food and sympathy easily,
    planned confusion of not too much love or effort.
    some would claim that I have succeded in this .»
    Charles Bukowsk

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  4. Tem alguma coisa contra a palavra mexerico?

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    1. Nenhuma, Francisco. Mas, no momento em que escrevia o texto, só me ocorreu «bisbilhotice» e, como não era bem o que queria dizer, optei pela palavra inglesa. Vou ter mais cuidado da próxima vez. Um abraço.

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    2. Peço desculpa pela intromissão, mas "bisbilhotice" ficaria bem melhor. Penso que é mais saudável confessar o nosso desejo de bisbilhotar a vida de uma celebridade, absoluta ou relativa, do que fazer de conta que não queremos mesmo saber pormenores dessas vidas. E o "mexerico" não andará mais perto do "rumor" e do "boato" do que da bisbilhotice, seja ela popular ou erudita?!

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    3. Talvez, embora me pareça demasiado "criativa" a sua elaboração semântica. Para mim, "mexerico" e "bisbilhotice" sempre foram sinónimos. Ainda assim, fui ver: o Dicionário de Sinónimos da Porto Editora e o Dicionário Houaiss da Língua Portuguesa, os únicos dois que tenho à mão neste momento, corroboram-me. Outros, porventura, terão entendimento diferente. Ainda bem, ou talvez não. Português não é matemática, mas também não é plasticina.

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    4. Só, confessando-me, para precisar melhor o meu comentário: eu perdoo-me a bisbilhotice mas não gosto do mexerico; uma parece-me coisa sólida e relativamente inocente, o outro uma fantasia às vezes pouco inocente. Em termos práticos: posso ser muito curioso sobre as peculiaridades de um dado escritor e deliciar-me-ei com a possibilidade de bisbilhotar; se o respeitar, não entrarei em qualquer mexerico a propósito. Mas poderei dar-lhe razão: pode ser uma questão de criatividade :-)

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    5. Obrigado por me ter dado razão. Preferia que tivesse reconhecido que "mexerico" e "bisbilhotice" são sinónimos. Paciência.

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  5. Belíssimo livro, já o li há alguns anos e é efectivamente uma pérola, vale bem a pena!

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