Receios
Quando a gigante Porto Editora comprou o grupo Bertrand + Círculo de Leitores, houve muitas coisas que me preocuparam (até porque trabalho na concorrência, e o Manel trabalha na Porto Editora). Duas, porém, foram imediatas. A primeira tem que ver com o Prémio Literário José Saramago, atribuído a um romance em língua portuguesa publicado nos dois anos anteriores e assinado por um autor com menos de trinta e cinco anos. Quererá a partir daqui o grupo Porto Editora dar um prémio a um livro que, muito provavelmente, é de um concorrente? Pois não sei. Fazer desaparecer o Prémio Literário José Saramago, sobretudo depois da morte do Nobel português, seria, mais do que um acto de mau gosto, uma verdadeira afronta; mas, nos meus piores momentos, enceno a situação de o galardão passar a contemplar um inédito (e não um livro editado) que possa posteriormente integrar o catálogo de uma das editoras do grupo. Veremos. A outra preocupação prende-se com a revista Ler. Num país como o nosso, onde não há praticamente publicações literárias, seria uma machadada fortíssima acabar com ela, mas também acredito que os magros lucros que se calhar dá falem mais alto e dêem o golpe de misericórdia. A mim, que a leio desde o número zero, custa-me que desapareça. Mas também se diz por aí que o seu director é um dos nomes falados para a Cultura se o PSD ganhar as próximas eleições e o facto de ele ter estado na Universidade de Verão dos sociais-democratas pode ser um sinal de que não se trata apenas de um boato. Sem ele, a Ler seria a mesma coisa?
Decerto que a Porto Editora irá propor uma boa solução para o Prémio José Saramago, isso é uma questão fácil de contornar.
ResponderEliminarHá outros receios mais sentidos pelas editoras distribuídas pelo Grupo Bertrand, mas penso que os efeitos da aquisição só se farão sentir em 2011. Eu trabalhe para uma dessas editoras distribuídas pela Bertrand, e não sabemos ainda bem o que esperar. No entanto, estamos a falar de um grupo com uma sólida reputação profissional e decerto que irão chegar a uma boa solução para todas as partes envolvidas.
Quanto ao Francisco José Viegas, não concordo que ele faça um bom trabalho na área, e tenho sentimentos negativos em relação a um futuro envolvimento dele na Cultura, pelo que abstenho-me de comentar mais.
Já agora, aproveito para dizer que tenho gostado imenso de ler o seu blogue.
Safaa
É bom ler opiniões fortes e corajosas escritas assim, abertamente.Um bem-haja. Apetecia-me dizer muita coisa, mas espero que, pelo menos, acabem com a treta dos 35 anos, que estimula o que não deve nem é preciso. E sim, eu já dizia isto quando ainda não os tinha:).
ResponderEliminarA criação deste prémio foi feita justamente com o intuito de apoiar e estimular os jovens escritores de qualidade, pelo que não faria qualquer sentido, quanto a mim, desvirtuar o seu objectivo inaugural e deixar cair os 35 anos...
EliminarPois o meu problema sempre foi, precisamente, esse conceito de estimular jovens escritores de qualidade, que ainda por cima já tinham sido devidamente estimulados pelos seus editores. E por se chamar Saramago, que, por essa bitola, nunca foi um "jovem" escritor de qualidade. Essas fronteiras parecem-me a antítese da literatura, nem nenhum dos premiados precisava delas. Mas concedo que pode funcionar num tempo em que os olhos estejam todos postos nos consagrados. Não creio que seja o nosso. Estarei a ser muito ingénuo? É quase certo:))).
ResponderEliminarPedro, os autores precisavam do estímulo. Ser publicado, acredite, não basta. A visibilidade que têm hoje alguns autores deve-se sobretudo ao prémio que receberam. Basta comparar o número de livros vendidos de um autor como o valter hugo mãe antes e depois da atribuição do prémio. E fico por aqui.
Eliminar"Ser publicado, acredite, não basta."
EliminarAi acredito! E como!
Até sinto frio nos ossos só de pensar na possibilidade de ver terminar a "LER". Que não passe de um receio é o que desejo.
ResponderEliminarLER-não pode desaparecer!
ResponderEliminarSó não tenho o nº. zero (e bem o lamento-e não é mania de coleccionador).
Rosário, havia mesmo necessidade disto?
ResponderEliminar1. Prémio
«Quererá a partir daqui o grupo Porto Editora dar um prémio a um livro que, muito provavelmente, é de um concorrente»
Que quer isto dizer? que o juri (isento) do Prémio que destacou, e bem, tão bons escritores (vários publicados por si) só publicaria autores daquela casa? Tanto quanto sei, e sei que não estou errado, o prémio sempre destacou autores que não eram necessariamente do grupo a que pertence o círculo.
2. LER / FJV
O FJV já garantiu em post próprio no ORIGEM que a LER vai continuar. Excelente notícia.
Relativamente às insinuações em redor do FJV, acho triste, muito triste que as traga a lume. Não é pela política. É mesmo por amizade.
Se a LER seria a mesma sem o Francisco? Decerto que não, seria diferente. Mas saber que existem actualmente outras pessoas boas lá a trabalhar, como o actual editor, dá-me esperança.
Mas eu sou uma pessoa pouco desconfiada.
paulo ferreira.
Paulo, desculpe, mas não percebo a sua indignação. O Paulo é uma pessoa que conhece bem a edição e as estratégias a que ela está actualmente sujeita, hoje muito mais dominada pelos números do que antes. Exprimi apenas os meus receios - só quem não conhece o mercado não os tem - e não vejo realmente porque uma preocupação genuína pode manchar a amizade. Mas também é possível que não me tenha feito entender (ou que o Paulo seja mesmo desconfiado).
EliminarJá começa a cheirar a lençois entre o paulo e o chico... o menino Ferreira devia ter vergonha
ResponderEliminarPassando ao lado da polémica, que não me compete comentar, a não ser na parque em que reitero o meu aplauso pela forma franca como o post foi escrito, tom que tanta falta faz ao panorama editorial, tenho apenas a dizer que concordo, sim, que os autores precisem do estímulo, mas reforço que não é, certamente, por terem menos de 35 anos. Claro que não basta ser publicado. Há que fazer pela vida. Ó se há.
ResponderEliminarConfesso que nem consigo acreditar no que vejo. Por que motivo escreveu a Maria do Rosário Pedreira este texto? Que objectivo tinha? Não se percebe qualquer tipo de atitude inteligente nesse acto, o que não condiz com a imagem que tem feito passar. E por que razão uns defendem e outros atacam Francisco José Viegas de forma tão apaixonada? Não percebo. Maria do Rosário fala nele, Safaa Dib ataca-o, Paulo Ferreira defende-o; marquis de la boutade mete estes dois entre lençóis. Anda tudo maluco?
ResponderEliminar"Safaa Dib ataca-o?" Limito-me a dizer que não gosto do trabalho do senhor em questão e já estou a atacar? A única coisa que me levou a comentar este post foi a franqueza da Maria do Rosário Pedreira em abordar os seus receios relativamente à aquisição da Porto Editora. É verdade que muita gente do meio partilha desses receios e outros.
EliminarRespondo com a mesma franqueza, sem hipocrisias, que abomino. Vou dizer o quê? Que o FJV é um santo e que o seu trabalho devia ser canonizado? Se não é esse o meu ponto de vista!
Atacar é insultar ou difamar. Nunca fiz tal coisa. Nem nunca me escondi atrás de anonimatos para expressar os meus pontos de vista, por mais inconvenientes que sejam.
Não percebo qual realmente o problema deste post da MRP para estar a gerar defesas apaixonadas em torno da figura do FJV e indignação, mas parece que é tabu referir certos assuntos que estão à vista de toda a gente e que andam a circular na blogosfera e conversas de café há meses.
Tem razão, cara Safaa. Empreguei o verbo errado.
EliminarParece-me que andamos a sobrevalorizar a inteligência, que aliás é tão subjectiva aos olhos de um burro como de um génio. Autenticidade, mais até do que verdade, é tudo o que se pede a quem ama a literatura. O que se consegue com a falta de tolerância? Calar. Consegue calar-se os bons e dar corda aos maus. E o exercício da tolerância e da compreensão, já marchava, não?
ResponderEliminarpeço desculpa, mas um dos meus comentários, reparo agora, foi replicado várias vezes. Peço desculpa, mas não se deveu a nada do que fiz, mas, presumo, a uma loucura temporária deste telemóvel. Peço à dona de casa o apagador para o que está em excesso:).
ResponderEliminarO paulito anda à caça de tacho na Ajuda, ai anda, anda...
ResponderEliminarCara Rosário,
ResponderEliminarObrigada pelo tempo que dedica ao seu blog que muito me apraz. Em jeito de pequeníssima retribuição deixo-lhe o link para um texto muito simpático escrito por um editor brasileiro sobre o que é ser editor.
Melhores Cumprimentos
Sofia
http://www.blogdacompanhia.com.br/2010/09/o-romancista-que-nao-sou/
Os prémios não são tudo, mas ajudam certamente...aqui, como lá fora...percebe-se que um autor premiado passa a vender mais, é natural.
ResponderEliminarE atendendo ao facto de Saramago não ter sido um jovem escritor, mas ter começado a publicar depois dos 35, não faz sentido colocar essa fasquia especificamente para este prémio. E também não vejo porque tem que ser um livro editado, podiam variar, um ano um inédito, e outro um publicado...por isso concordo inteiramente consigo,
E há ainda por cima há uma data de outros prémios onde o critério -35 existe, assim como para a maioria das bolsas na área das letras e
das ciências...
~CC~
Rosário, teremos decerto oportunidade de falar nisto pessoalmente (5f no lançamento do João?). De qualquer das formas, apenas gostaria de explicar que:
ResponderEliminar- compreendo o seu receio que a PE pudesse cancelar o prémio - é uma preocupação legítima, compreensível; mas não foi isso que apontei no meu comentário. O que não entendo é que ache que a continuar o prémio, a PE acabasse por condicionar as escolhas de um juri isento e não quisesse premiar a concorrência, já que, segundo a Rosário, «muito provavelmente» é o que acontecerá (deixando no ar que os editores responsáveis das editoras literárias do grupo Porto Editora - incluindo as recentemente aglutinadas - não estarão a desenvolver trabalho de valor nessa área).
No meu primeiro comentário, era já isto que apontava: que não acreditava que a PE fosse desvirtuar o prémio ao exercer influência sobre o juri. A Rosário invocou a frieza dos números dos grandes, cujas estratégias conhecia. Mas eu nunca falei de estratégias ou de números. Falei tão só de ética. O outro aspecto não rebati.
- Relativamente ao FJV, de facto ele não precisa de quem o defenda, mesmo porque já fez um post autónomo a explicar a sua posição (e que a Rosário referenciou ). Simplesmente acho que há coisas que são do foro privado. É verdade que se fala o que refere no seu post. Mas para quê trazê-lo para aqui? Será assim tão relevante?
Uma nota breve ainda para o João Luís Barreto Guimarães, a quem deixo um abraço.
Por fim, esta minha posição é pessoal e intransmissível; não vincula a empresa de que sou associado.
Um abraço,
Paulo
O facto de o FJV ir ou não para ministro da cultura do mesmo partido do qual ele frequentou a Universidade de Verão e de cujo líder ele publicou a autobiografia política... é do "foro privado"? Mas este Sr. Ferreira nasceu quando? Limpem-lhe as orelhas e ponham-no a ver o canal Panda.
EliminarUau...
ResponderEliminarAs preocupações da Maria do Rosário Pereira não lembram o diabo. A funcionária de um conglomerado preocupada com o que poderá ou não ocorrer no conglomerado rival. Porque não cria na Leya o prémio António Lobo Antunes para jovens escritores com menos de, vá lá, quinze anos. Aí sim, o frenesi da novidade e das rotativas se tornaria imparável. Quanto ao Saramago é bom avivar a memória. O seu primeiro romance foi publicado tinha ele 24 anos. A dada altura ao responder ao Paulo Ferreira a M.R.P . afirma, de um modo contristado, que "a edição e as estratégias a que ela está actualmente sujeita, são hoje muito mais dominada pelos números do que antes..." Mas de que se queixa. Quando teve de escolher optou pela lógica dos números, deu cobertura àqueles que nos últimos anos impuseram a lei dos números. Quanto à Ler, que pura e simplesmente não leio, e às preocupações pela sua extinção e ao futuro ministro, bom não sei se hei-de rir ou chorar.
ResponderEliminarRealmente. Tanta coisa quando mais valia ter perguntado ao "Manel"...
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