Uma questão de ouvido

Quando Pinto da Costa começou a «dizer de que» e a «pensar de que» foi motivo de paródia em todo o lado; de tal modo que algumas pessoas, desconhecendo a língua que falam e escrevem, acreditaram que «de que» era um preciosismo e cortaram o «de» em todas as ocorrências em que, na verdade, era indispensável. Nos originais que todos os dias me vêm parar às mãos, estou sempre a encalhar nas ausências dos «de que» depois de verbos ou expressões como «aperceber», «ter medo», «estar convencido», «ter esperança», etc., e insiro eu própria o «de», com a esperança de que o autor aprenda com as minhas correcções. Porém, um dia destes, uma colega da Leya estava de cabeça perdida porque um dos seus autores (homem com muitos livros publicados) cortara, nas provas de um livro, todos os «de» que o revisor introduzira a seguir ao verbo «lembrar-se», dizendo que, simplesmente, não lhe soavam bem. Mesmo depois de lhe terem sido dadas as necessárias explicações, insistiu e quis que o livro fosse publicado sem eles. Bem sei que é o autor quem assina o livro, mas não deveria imperar a razão sobre o ouvido?

Comentários

  1. É tremendamente difícil, por maiores defesas de raciocínios que se ergam, escapar ao "carpet bombing" (não há tradução portuguesa desta expressão que soe bem) do português mal escrito dos jornais, das legendas do cinema/televisão e dos livros mal traduzidos e/ou pior publicados e mal dito (maldito!) nas televisões, nas rádios e no dia-a-dia! Por mais que uma pessoa crie mentalmente vigilantes tipo guardas fronteiriços do lado de lá do ex-Muro de Berlim, algumas dessas porcarias acabam por furar sempre o cerco, baralhando-nos o raciocínio e a escrita!

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    1. Não quer experimentar traduzir "carpet bombing" por "bombardeamento cerrado"? Pode ser que resulte...

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    2. Julgo que não ficará tão bem porque era um tipo de bombardeamento cerrado, na realidade, numa extensão de quilómetros, feito com a precisão de quem está a estender uma carpete. Os EUA fizeram isto no Vietnam porque não se preocupavam com as populações e ia tudo a eito (bombardeamento a eito?...). O bombardeamento cerrado vejo-o mais circunscrito a uma dada área, como na ofensiva aérea contra a Alemanha, porque aí houve alguma preocupação em não apanhar muito a população civil. Além disso, a expressão "carpet bombing" generalizou-se mesmo fora da língua inglesa nos meios militares e académicos.

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  2. Por estas e por outras é que eu digo que o português não é matemática mas também não é plasticina. E nem sequer lhe vou perguntar quem é a alimária em causa, pois sei que a Rosário não me vai dizer. Mas depois não se queixe! Dislates como este dão direito a pelourinho. Ou não?

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  3. Talvez depois do termo «dequeísmo» fosse de cunhar o «indequeísmo».

    Mas isso não obsta, no entanto, a que logo a primeira figura de estilo da Nova Gramática do Português Contemporâneo de Celso Cunha, a elipse, na alínea d do seu n.º 2 (pág. 615), contemple a elisão da preposição «de» nesses casos, tal como noutros do «que», por exemplo.

    (Não havia qualquer coisa sobre a – boa – literatura ser um desvio da norma linguística?)

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  4. Outro dos preciosismos é a tentiva de eliminação de todas as ocorrências de «a gente», como se não fosse uma expressão correctíssima fazendo-se a devida concordância do tempo verbal!

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    1. Hum… Ninguém estava a dizer que era um preciosismo, longe disso, é absolutamente necessário espalhar os des » a preceito, naqueles como noutros casos.

      Convém é não abusar, principalmente se se tratar de literatura (talvez não fosse o caso do «homem com muitos livros publicados») ou principalmente de poesia.

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  5. Confesso que grande parte do meu Português é de ouvido e que o meu grande problema nesta língua são, precisamente, as malfadadas preposições ("penso eu de que").

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  6. também me soa melhor "lembrar-se que eram horas de estudar" a "lembrar-se de que eram horas de estudar" apenas o "que" parece já subentender a existência do "de" podendo por isso este ser omisso.

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