Os políticos de hoje

Sou de um tempo em que, geralmente, as pessoas que faziam política eram pessoas genuinamente interessadas em que os seus países dessem melhores condições de vida a toda a gente e pessoas cultas e com conhecimentos muito acima da média. A coisa, como sabemos, deteriorou-se, e não podemos comparar Mitterrand com Sarkozy e muito menos Roosevelt com Trump ou Mário Soares com Montenegro. Regra geral, o nível baixou por todo o mundo, os políticos de hoje lêem pouco ou nada; e, enquanto os de outros tempos tinham vergonha da sua ignorância num ou noutro aspecto, hoje os políticos não se importam de não saber nada de coisa nenhuma. Contaram-me uma história um dia destes bastante ilustrativa do que acabo de dizer. Quando pediram, julgo que na Feira do Livro, a Paulo Raimundo, Secretário-Geral do PCP, que mencionasse um dos livros da sua vida, ele respondeu Os Filhos da Droga, de Christiane F., um livro de memórias de uma toxicodependente que foi importante provavelmente na sua geração, mas está longe de um Tolstói ou de um Dostoiévsky, que eu esperaria se encontrassem entre os seus livros de cabeceira. E, tendo ido assistir à homenagem a Lobo Antunes, Raimundo ouviu a intervenção de uma sua correlegionária, que era uma das oradoras, mas saiu assim que ela acabou de falar, mostrando que o seu interesse não era pelo escritor homenageado. Também se topa bem que os políticos não lêem um livro quando todos os anos, no 23 de Abril, Dia Mundial do Livro, os jornalistas lhes perguntam o que andam a ler e muitas das respostas são: «Ah, ando a reler os Maias.» Vê-se logo que desde o liceu não pegam num livro.

Comentários

  1. No Brasil, não é diferente. Jair Bolsonaro, à época em que foi presidente, sequer mencionava estar a ler algo (o que tem seu lado positivo no caso dele, pois era possível que qualquer manifestação dele nesse sentido certamente causaria náusea na população). Me recordo de ele ter dito expressamente em entrevista a jornalistas que os livros escolares brasileiros tinham "muita coisa escrita", sugerindo abertamente que eles fossem reduzidos, Em sua visão, era recomendável que eles tivessem menos páginas. Em resumo, o desamor dos políticos pelo livro e pela leitura infelizmente desconhece fronteiras.

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  2. Não costumamos falar aqui de política e julgo que também não o vamos fazer hoje.
    Para mim seja o saber seja a cultura, não têm nem cor política nem ideologia e muito menos posicionamento.
    Sou de um tempo - já tenho 70 anos - em que a cultura e o bom-gosto estavam definidos como sendo coisa burguesa e pertenciam a uma elite. Bastante conotada com a direita tradicional.
    Depois inverteu-se, o bom-gosto foi substituído pelo que se considerava mau-gosto, como forma de desconstrucção. A cultura dita de esquerda que seria contra-cultura, impôs-se, mas talvez e precisamente pelo mau-gosto parece que deixou de atrair as pessoas que de forma natural seriam atraídas e cultivariam o bom-gosto e a cultura.
    Isso explicaria muita coisa.
    Os políticos sendo fruto, ou se quiserem, consequência deste estado de coisas, espelham portanto quer o mau-gosto quer uma falta de cultura, que chega a ser chocante!
    Creio que é a nível mundial, pelo que vejo e oiço.
    Se me perguntarem acreditar nas boas intenções dos políticos, terei de ser radical e responder que não! Em nenhum caso... nem um tem o chamado sentido de estado, ou seja, está preocupado em dar às pessoas, ao país, o melhor. Em ter um país onde caibam todos e onde apeteça viver, onde sejamos felizes. Não governam para o povo, governam muitas vezes até contra o povo, pois pertencem a grupos e corporações cujos interesses se impõem aos da nação e nem sempre coincidem. Procuram apenas os seu próprios interesses, o poder para se beneficiarem e aos seus - que os suportam. Agem em nome pessoal e quase nunca, ou mesmo nunca, pelas pessoas e pelo país. Creio que aquilo que se passa actualmente no concelho de Almada espelha bem o que dizemos... e não podemos dizer que haja falta de cultura!
    Porém a cultura é o que nos interessa, a nós amantes da leitura, pois a leitura é o melhor veículo para ela e para a transmissão de idéias. Teremos de cerrar fileiras, de nos manter unidos a despeito das nossas diferenças de ideologia ou outras, mas porque de facto teremos de ser os guardiães da cultura, e já agora do bom-gosto... que não significa andarmos apinocados ou usar roupas de marca, porém saber combinar vestuário simples e o que se deve usar consoante as circunstâncias é o bastante para manter o bom-gosto que transmite sobretudo civilização!
    No fundo vivemos em tempo de bárbaros, será?
    É o que m'a mim parece, mas claro que posso estar enganado.

    Faço votos de um Extraordinário fim de semana a todos os meus companheiros desta estrada que é a leitura.
    Saudações cá da Cidade Morena.

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  3. Acabo de comprar o "livro vermelho", o «Livro de Poemas» de António Lobo Antunes. Que livro bonito! E interessante para quem gosta de poesia. Aconselho-o e eu que sou um leitor de poesia imperfeito.

    No que se refere a falar de política, política no sentido restrito, é verdade que não é costume falar de política no blog, e assim bem prefiro. Política no sentido global, Política, como somos leitores e, como leitores de uma ou outra forma de leitura, pelo menos pela vivência do gosto, pelo que transmitimos, fazemos política, inevitável.
    De facto, os tempos que correm, foram trazendo hábitos e vivências que não passam pela leitura - pelo esforço prazeroso da leitura. Com tristeza, reconheço o “tempo de bárbaros” evocado pelo Extraordinário António Luis Pacheco, que acrescento, globalizado, e que se propaga e cresce. Por mim, há que ler, cultivar o bom gosto, e viver conseguindo repelir o “tempo de bárbaros”, em que parece vivermos.

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