Excerto da Quinzena

 

O melhor eu. Durante séculos, este foi o conceito-chave subjacente a qualquer definição essencial de amizade: o de que o amigo é um ser virtuoso que fala à virtude que existe em nós. Como é estranho tal conceito aos filhos da cultura das terapias! Hoje não olhamos para ver, e muito menos para ratificar, o nosso melhor eu uns nos outros. Pelo contrário, é a abertura com que admitimos as nossas incapacidades emocionais – o medo, a raiva, a humilhação – que excita os laços contemporâneos da amizade. Nada nos aproxima mais do que o ponto a que encaramos abertamente a vergonha mais profunda na companhia do outro. Coleridge e Wordsworth abominavam tal exposição de si mesmo; nós adoramo-la. O que nós queremos é sentir-nos conhecidos, com verrugas e tudo; aliás, quantas mais verrugas, melhor. A grande ilusão da nossa cultura é pensar que aquilo que confessamos é o que somos.

  

Vivian Gornick , A Mulher Singular e a Cidade,

tradução de Maria de Fátima Carmo

 


 

Comentários

  1. «Doía-lhe tudo, como se tivesse caminhado muito mais do que o seu corpo aguentava, doía-lhe o corpo inteiro, e pensou: dói-me a alma. E concluiu, então, que nunca devíamos encarar de ânimo leve a solidão que as pessoas sentiam no seu âmago, que as escolhas que faziam para evitarem essa escuridão escancarada eram escolhas que exigiam respeito (...)»

    A segunda vida de Olive Kitteridge; Elizabeth Strout; Alfaguara; tradução de Tânia Ganho.

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