Excerto da Quinzena

 

O melhor eu. Durante séculos, este foi o conceito-chave subjacente a qualquer definição essencial de amizade: o de que o amigo é um ser virtuoso que fala à virtude que existe em nós. Como é estranho tal conceito aos filhos da cultura das terapias! Hoje não olhamos para ver, e muito menos para ratificar, o nosso melhor eu uns nos outros. Pelo contrário, é a abertura com que admitimos as nossas incapacidades emocionais – o medo, a raiva, a humilhação – que excita os laços contemporâneos da amizade. Nada nos aproxima mais do que o ponto a que encaramos abertamente a vergonha mais profunda na companhia do outro. Coleridge e Wordsworth abominavam tal exposição de si mesmo; nós adoramo-la. O que nós queremos é sentir-nos conhecidos, com verrugas e tudo; aliás, quantas mais verrugas, melhor. A grande ilusão da nossa cultura é pensar que aquilo que confessamos é o que somos.

  

Vivian Gornick , A Mulher Singular e a Cidade,

tradução de Maria de Fátima Carmo

 


 

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