Loucura

Ninguém que tenha lido A Louca da Casa, de Rosa Montero, pode ter ficado indiferente. É um livro que mistura autobiografia e ficção e que fala da imaginação de forma bem louca e, passe a redundância, imaginativa. De todos os livros da autora, é seguramente o mais marcante (embora ela tenha escrito romances incríveis), e é nessa linha o seu mais recente volume publicado em Portugal e intitulado O Perigo de Estar no Seu Perfeito Juízo, usando um verso «roubado» a Emily Dickinson. A proposta é incrível, pois associa aos criadores uma certa dose de loucura, justificando que para se ser um verdadeiro artista há que ter um desequilibriozinho. Partindo de exemplos reais, a começar pelos seus próprios ataques de pânico em diversas alturas da vida, Rosa Montero conta-nos as histórias fascinantes de alguns escritores a quem foi diagnosticada doença mental (Virginia Woolf, Sylvia Plath, Janet Frame...) e cuja salvação foi muitas vezes a escrita; e fala-nos cientificamente desse grãozinho de loucura que levou tantos autores ao vício ou ao suicídio, como Scott Fitzgerald, Hemingway ou mesmo Bukowski. Ao mesmo tempo, atravessa todo o livro a história de uma mulher anónima que se fez passar pela própria Rosa Montero durante anos, perturbando a autora de O Perigo de Estar no Seu Perfeito Juízo em variadíssimas situações (uma das quais apresentando-se em vez dela numa universidade americana como escritora convidada). Fascinante. Pena que a tradução tenha demasiados castelhanismos («relato» por «conto», «narrador» por «romancista»...), sobretudo porque a tradutora já assinou outros trabalhos de qualidade e não se esperavam dela erros de palmatória (O Ruído e a Fúria, de Faulkner?). Mas leiam na mesma, não se arrependerão.

Comentários

  1. Virginia, Sylvia e Janet? Para ficar mais compostinho? :-)
    Um óptimo livro!
    Paula

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  2. Maria Do Rosário Pedreira17 de março de 2023 às 06:00

    As correrias... Obrigada.

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  3. É um excelente livro! Também recomendo vivamente. Fartei-me de sublinhar partes e mais partes. Para quem sabe que é louco, este livro ajuda-nos a abraçar esse lado sem vergonha.

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  4. Rosa Cláudia Gonçalves14 de abril de 2023 às 00:30

    Também dei conta dos “castelhanismos”!
    Como tradutora (não literária), acho que devo ler as traduções, na maior parte das vezes só opto pela versão original se a obra não estiver editada em português; ofereceram-me o “Thomas Nevinson” em castelhano e passei muito do tempo a pensar como é que o tradutor (Vasco Gato, de quem já li traduções em que não “tropecei” em nada) teria traduzido esta ou aquela expressão!
    A tradução que mais me impressionou (negativamente) nos últimos tempos, também de um tradutor com muita experiência, é a de “O regresso dos andorinhões”, achei tão estranho que fiquei a pensar se não seriam opções de tradução, é certo que incompreensíveis para mim.

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  5. Rosa Cláudia Gonçalves14 de abril de 2023 às 00:33

    Também usei muito o lápis! Além do sublinhado, um ou dois 🙂, ultimamente dá-me para isto quando encontro passagens de um humor que aprecie!

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