Excerto da Quinzena

A decisão de lavrar a terra tinha sido tomada de um dia para outro, depois de muito remoer sobre o passado e o futuro. Era arriscada, mas algo precisava ser feito. Não esperaria que lhe tomassem os restos e se pôs na linha de frente para reivindicar o que considerava legí­timo. Se não fizesse algo por si, estava fadada a desaparecer como tantas vezes outros desejaram.


Resignada, lançava a manaíba na cova aberta, e fechava, paciente, ignorando tudo mais à sua volta. O homem gesti­culava com os braços, Maria Cabocla falava cada vez mais alto. Então, ele ordenou que ela parasse a irmã, do contrário ele não responderia por si.


[…]


«Luzia, Luzia, pelo amor de Deus, deixe o diabo dessa manaíba aí! Estou vendo a hora de esse homem te matar.»


Luzia parou, levantou o rosto suado e coberto de terra. Ela estava suja porque ele se aproximava arrancando os tocos, e os fragmentos de terra e mato recaíam sobre seu corpo. Agora uma lama grossa feita de barro e suor descia de sua face. Mas ela não guardava nenhuma expressão de desgosto ou desâ­nimo em seu semblante. Ignorou o homem e a ameaça. Olhou para Maria Cabocla com um ar de insubmissa satisfação.


«Não paro, Mariinha.»


 


Itamar Vieira Junior, Salvar o Fogo, quase quase a chegar!

Comentários

  1. "Emudeceu. Arrancaram-na a custo de cima do leito, e foram precisos dois homens para lhe prender os braços e arrastá-la para a pequena cozinha onde Gaspar a foi acalmar com palavras de meio espanto. Ela não escutava e mexia-se continuamente, tomada duma tão grande aflição que passou a humilhar-se, a pedir de rojo no chão que a deixassem voltar. Impressionada, Mercês concedeu que ela entrasse outra vez no quarto. Não se chegou a José Maria; deitou-se a todo o comprimento no solo, aos pés da cama, e ali ficou muitas horas, com o rosto entre os braços e tão imóvel que às vezes provocava nos que a viam uma suspeita lúgubre. Alguém lançou-lhe por cima um cobertor, ela não deu acordo. Ali ficou indiferente a toda a bulha que se fez, ao choro de Mercês quando foi informada de que o poeta, quase sem voltar a ter consciência, morrera. Ele sucumbiu na tarde do terceiro dia, abriu uma vez ainda os olhos e estremeceu; o rosto tomou uma leve cor, e tudo acabou. Mercês disse ingenuamente que o seu fim fora o dum santo".
    Agustina Bessa-Luís, O Susto, Lisboa, Relógio d'Água, 2019, 2ª ed. (Relato do momento da morte de Teixeira de Pascoaes).

    Cidália Alves dos Santos

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  2. Ceresa ria-se e encolhia os ombros. Outras vezes envergonhava-me eu por ele, quando aquela bruxa dizia parvoíces na presença dos outros. Tinha comprado um fato de banho, um fato vermelho como aquele vestido e punha-o ao meio-dia para tomar o sol, enquanto ia e vinha diante do alpendre e ficava com ele mesmo depois até que Ceresa a agarrava por um braço e a olhava com olhos ameaçadores. Nora tinha uma pele que parecia manteiga branca, mas nunca tomava banho no Pó. Quando vinha o Damiano ou o filho do Zucca ou soldados ficava com eles a rir e a mostrar-se. Eu não percebia o que é que os homens acham nas mulheres.
    - Verás - disse-me uma vez Ceresa - que também a ti te hão-de agradar.
    Mas até agora ainda não me aconteceu.
    Cesare Pavese - Férias de Agosto
    trad Ana Hatherly

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  3. O que eu gosto de Itamar Vieira júnior não tem tamanho. É livro certo.

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