Fake news e ingenuidade
Vivemos num tempo em que o jornalismo já não é o que era e não temos outro remédio senão acreditar nas notícias que nos passam debaixo do nariz. E, como não sou diferente, também fui vítima das fake news e, pelos vistos, completamente ingénua ao crer num tweet de uma pessoa que nem conheço, no qual se dizia que o Instituto Camões consideraria mortas todas as palavras não usadas num período de três anos. A pessoa que partilhou o dito tweet no Facebook é respeitável e, como tinha exercido um cargo importante numa Secretaria de Estado da Cultura aqui há uns anos, não duvidei de que estivesse a veicular informação confirmada. Ainda por cima, como passou uma semana entre eu ler o post e publicar a notícia aqui no blogue, e ninguém desmentiu entretanto o que fora dito (o que multiplicou as partilhas), fiquei mesmo convencida da verdade daquele escândalo. Mas, pensando bem, aquilo não tinha sentido (devia ser apenas uma tirada humorística) e eu tinha obrigação de, pelo menos, ter duvidado. Mea culpa. Venho, assim, retractar-me e dar-vos boas notícias: afinal, o Instituto Camões está tão interessado como nós na defesa e preservação da língua portuguesa e não vai matar palavras nenhumas, nem as inventadas aqui, nem as dos países de língua oficial portuguesa. Apesar de me ter sentido uma autêntica parva, fiquei contente de me ter enganado e de podermos continuar a aumentar o nosso dicionário em vez de o irmos podando. E, desse lado, desculpem ter-vos dado eu própria uma notícia falsa, embora os vossos comentários tenham sido excelentes no dia em causa.
Estamos perdidos num mar de informação onde a verdade e a mentira ondulam lado a lado.
ResponderEliminarUrge encontramos um rumo, que seja verdadeiro ou falso, encontramos um ritmo de preferência mais pausado, senão vamos todos naufragar.
Eu também fui "vítima", já que escrevi sobre isso no meu blogue (inspirado no "horas extraordinárias"...).
ResponderEliminarA Rosário faz bem em fazer "mea-culpa", mas não é de longe nem de perto uma notícia estapafúrdia. São difundidas pelos jornais e televisões, dezenas de notícias, muito mais perigosas e mentirosas.
Vou só dar um exemplo. Quando ouvimos e lemos todos dias, coisas cada vez mais estranhas sobre a TAP (em televisões e jornais de referência), esta "mentirinha" sobre o Instituto Camões, é quase uma banalidade...
Quando eu digo que não é uma notícia estapafúrdia, refiro-me ao que nos habituaram, até mesmo na cultura.
ResponderEliminarBasta lembrar-me da forma como foi conduzido todo o processo do "acordo ortográfico", quase como imposição e sem ser discutido com a seriedade que merecia, para não se estranhar que exista alguém com poder e "ímpetos assassinos", que se tente vingar nas palavras...
A minha própria máquina de fazer verdades é de fazer mentiras deve ter considerado que essa era uma mentira que logo esqueci. É que não me lembro nada de tal ocorrência.
ResponderEliminarAbominemos as mentiras dos jornalistas e dos fazedores de mentiras, congratulemo-nos com as mentiras dos romancistas e dos poetas. Ou, literariamente, devíamos chamar-lhes fingimentos?
Antigamente, no Estado Novo era-nos sonegada a informação... havia censura e não se podiam passar certas notícias!
ResponderEliminarActualmente, pode noticiar-se tudo, o problema é que nos mentem e enganam!
Não sei o que seja pior, muito sinceramente.
Não há jornalista que noticie, há sim uma imensidão de comentadores, de cruzados, de gente impoluta que não nos informa dos factos mas antes nos transmitem a sua versão dos mesmos, aquilo que pensam sobre o assunto e nos dizem portanto o que devemos pensar!
Somos manipulados, enganados e sofremos com a informação dirigida e conduzida da forma que interessa aos noticiadores (ou a quem neles manda) e aos poderes instituídos.
É o tempo em que vivemos, temos de nos habituar, pois hoje a informação é por excesso, é demasiada e sobretudo prestada por quem não sabe do que noticia, ou pior, noticia de forma tendenciosa.
Dizem que o saber não ocupa lugar, mas também se diz que o que é demais empata a venda!
Pela minha parte, dou cada vez menos crédito às notícias em geral, ligo pouco aos arautos de regime e se oiço ou leio um ou outro dos inúmeros comentadores é com profundo espírito crítico, com a devida ressalva aos que sei terem bom senso.
Mas é cada vez mais difícil, pois impera a histeria e o ruído!
Saudações ruidosas cá da Cidade Morena!
Aplaudo o que escreveu e apenas acrescento uma frase de Ryszard Kapuscinski:
ResponderEliminar«Quando se descobriu que informação era um negócio, a verdade deixou de ser importante.»
Creio que todos nós, evidentemente sem querer, já fomos mensageiros de uma fake news numa qualquer ocasião. Pelo menos, na sua forma mais antiga: o boato.
Qualquer dia, lemos alguma notícia e, em vez de pensarmos se será falsa, pensamos, antes, se será verdadeira.
ResponderEliminarPor acaso houve uns dias em que passei por notícias meio duvidosas, mas no fim de cada uma tinha a indicação que eram fictícias e meramente humorísticas.
eu disse noutro blog, que citou o seu post, que faltava a versao do Camoes.
ResponderEliminar(o autor do post nesse tal blog até é jornalista )
...não esquecendo as notícias que podem ser escamoteadas, unindo "tempos passados" com o presente... mantendo a chama acesso da invenção de notícias que consigam esconder outras, como foi o recente caso da catástrofe ecológica no Ohio, praticamente abafada através da criação de uma polémica sobre um balão Chinês.
ResponderEliminarPor acaso não vi essa "notícia". Não é a única. Já agora, não é o instituto Camões que define o vocabulário existente. Dão um parecer sobre novas palavras ou alterações a antigas.
ResponderEliminarA nível jornalístico não é nada de estranho. Em 2017 travei uma batalha inglória, incluindo com família directa, sobre o "imposto do sol". Segundo 30000 jornalistas, 10000000000 de perfis de redes sociais, 50000 economistas e vários milhares de advogados, tinha sido criado nesse ano. Durante 2 semanas chegou a ser tema num debate na RTP onde o Dr. José Rodrigues dos Santos não me deixou questionar as pessoas presentes, pois cometi o erro de falar com ele, logo à entrada e mostrar-lhe o artigo em causa, com as datas de criação e alteração. Como não dava jeito nenhum aquelas 3 horas de debate, não pude colocar o assunto na mesa e os 7 especialistas, os 3 deputados (1 deles do governo) e os 60 e tal jovens que puderam fazer perguntas, todos estavam de acordo que aquilo nasceu em 2017, mesmo que a criação das 3 alíneas referisse que aconteceu em 2013, vigorando a partir de 1 de Janeiro de 2014. O assunto desapareceu quando uma jornalista, da SIC, lá terá lido alguns comentário (ou terá alguém em casa que sabe do assunto), confrontou um deputado com a existência da lei ser de 2013. Ninguém pediu desculpa, ninguém corrigiu a informação e, ainda hoje, é fácil encontrar economistas e de várias áreas de economia que juram que a lei surgiu em 2017, até usarem o telemóvel para ver as notas no final do artigo no CIMI. O mesmo se passou com o imposto de selo nos prémios de casino, lotarias e casas de apostas. Os media deixam-se envenenar e envenenam a sociedade. Os jornalistas são membros de uma ideologia e aproveitam para a promover. Ainda a semana passada a CMTV e a CNN Portugal anunciaram que a esposa do ministro das finanças "foi quem dirigiu e outorgou todo o negócio de compra de aviões para a TAP. Negócio esse que está sobre investigação de pagarem 30% acima do preço de cada avião". Depois, ao ler o LONGO artigo, uma frase destacava-se "traduziu o contrato e rubricou todas as páginas". Quem leu as gordas, no site, ou viu as reportagens, ficou com a informação que a esposa do ministro foi quem teria feito um negócio que pode ter sido demasiado caro. Afinal só traduziu o documento...
O mesmo para vários sites de economia que anunciam "razão da inflação não são os preços cobrados pelos supermercados mas, a carga fiscal". Apresentam relatórios onde o economista/jornalista valida os dados mas, não explica que a subida de 630% (só nas retalhistas) nos prémios de desempenho da administração e dirigentes, tiveram de vir de algum lado. Ao apresentar os dados, parece que afinal o IVA normal subiu para 36% e ninguém viu. Se explicassem que o IVA pago pelo vendedor ao cliente final, deduzido do IVA pago na aquisição e o IVA pago nas despesas gerais (como electricidade, gás, combustíveis e outros serviços), já percebiam que a loja aumentou o lucro, logo, pagou mais IVA.
Temos de começar a aprender a navegar e reconhecer as fontes. Quando se lê algo é preciso procurar a base. Dá trabalho e precisa de conhecimentos, que cada vez menos gente possui.
Não se preocupe com essa falha. Vão surgir muitas mais, neste mundo moderno.
Neste tipo de armadilhas qualquer um pode cair...
ResponderEliminarFelizmente haverá sempre quem continue a utilizar palavras coloridas pela pátina do tempo e quem seja capaz de criar belos e suculentos neologismos :)
Um abraço!
"Não sei o que seja pior," Eu sei.
ResponderEliminarPosso sugerir que em vez de fake news se use o termo português infodemia?
ResponderEliminarCaríssima escriba, no hodierno e esquálido âmbito digital, convém acrisolar a cautela ante factoides inverídicos. Na faina quotidiana, é mister verberar a leviandade na crença de aleivosias e boatos. Reitero, parafraseando lúdica, quiçá irônica máxima: "Devagar com o andor que o santo é de barro". Desse modo, exercitemos nosso espírito crítico, não mais cedendo ao vil engodo da desinformação. Para rematar, não vos abismeis em vossa peçonha, pois já o adágio nos ensina: "errar é humano, perseverar no erro é diabólico".
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