Excerto da Quinzena
Nesta casa, em que as mulheres vivem juntas, de um lado, e os homens do outro, construída em volta de um grande pátio central, Annette fica pela primeira vez com uma ideia pálida, ou melhor, bem garrida, de como vivem as famílias árabes, quem ocupa que lugar na comunidade e onde se situam os limites que demarcam os movimentos de cada um. Entra num mundo desconhecido e não se arroga o direito de julgar. Ou será que sim? Julgar, não, não lhe chamaria assim, mas não consegue evitar não pensar absolutamente nada. Quando vê a cara triste da belíssima Aïcha, que não tem filhos e por isso vai ter uma jovem rival na família. Durante as semanas da sua permanênca, ocupa, na qualidade de francesa, doutora, e devido ao empenhamento da FLN, um papel híbrido entre homem e mulher. É tratada pelas mulheres como uma mulher um tanto bizarra e, pelos homens, como um homem um tanto bizarro. É a única mulher autorizada a comer com eles se quiser; é a única mulher autorizada a sentar-se junto ao pai, debaixo da figueira, ao pé da qual pastam algumas ovelhas da família. Estará já a pensar no que será o futuro? [...]
Anne Weber, Annette, Epopeia de Uma Heroína (Prémio do Livro Alemão),
tradução de Helena Topa
De nojo o tempo, o nosso
ResponderEliminarA perfídia estrumando
No presumir da carícia branca e sorriso
De todos
De raiva o tempo, o nosso
Céu mar e terra abrasando
Em clamor de labareda e navalha afiada
E sangue
De pavor o tempo, o nosso
A Primavera assombrando
Exílio de ventres a fecundar e tudo o mais
Que a faz
De amor o tempo, o nosso
Onde, uma voz espalhando
A boa nova no pântano fétido da noite
Imposta?
De nojo, de raiva, de pavor,
O tempo transido do nosso viver
Dia a dia
Mas não de amor...
Tomaz Kim- Exercícios Temporais
Alguem que alegre isto,por favor!So desgraças!
ResponderEliminarAcha que este tempo é alegre!?
EliminarA desgraça portuguesa é sermos, com raras excepções, um país de putas, ou de filhos da puta, ou de sujeitos que acumulam as duas qualidades. Ainda por cima nem de grande cidade: todos de Vila do Conde, Vila Real, profundas dos Alentejos, sem terem perdido o ranço de lojistas ou a malícia dos campónios. Porra para a classe média das províncias, que nunca soube aristocratizar-se, nem tomar banho senão para ir à missa.
ResponderEliminarJorge de Sena- Correspondência
Coitado do João Malfenti! Chorei no seu túmulo; contudo, foi destituído de ternura o último adeus que me dirigiu. No seu leito de morte disse-me que adorava a minha índole insolente: eu tinha inteira liberdade de ação ao passo que ele estava ali, atarrachado à cama. Estupefacto, perguntei o que lhe fizera para que desejasse ver-me doente. E Malfenti respondeu de modo textual:
ResponderEliminar- Se, dando-te a minha doença, eu pudesse ficar bom, dar-ta-ia sem hesitar, e até dobrando a dose. Bem sabes, não tenho, como tu, fantasias humanitárias!
Italo Svevo - A Consciência de Zeno
Claro que este tempo nao e alegre e por isso mais uma razao para nao nos afundarmos.
ResponderEliminarQuanto ao excerto de Jorge de Sena,eu faço parte das exceçoes.
“A guerra é a saída covarde para os problemas da paz“
ResponderEliminarDo livro: A MONTANHA MÁGICA de Thomas Mann
“O nosso chefe do governo tem já tinha cento e cinquenta anos. É uma idade bonita. Não, porém, muito avançada em relação ao avanço dos princípios que nos regem e têm já mais de quinhentos. As leis, os costumes. As instituições. A moral. As ciências, as artes. As organizações culturais. A organização do ensino em todos os escalões. E os mestres e o rol das matérias que eles vão desenrolando pelo ano fora. Uma rede de arame cruzava todo o país, arame ferrugento. Pelos intervalos passava a vida. E nos cruzamentos estava um polícia. Só os polícias eram novos, niquelados, brilhantes de correias de polainas espelhados, em motos potentes carros lustrosos. Nas paradas, nos cortejos, ritmados, disciplinados polidos de metal. Metálicos articulados precisos. Escanhoados limpos impecáveis, traçavam em fios de aço um rigor esquemático que disciplinava a vida impetuosa rumorejante nos intervalos da caquexia institucional. Mas isso permitia que outra polícia feita do puro medo fantástica da idade do medo eficacíssima e abstracta. O medo era muito antigo. Polícias muito velhos e a farda também ou sem farda. Sobretudo contra eles assustada é que a vida. Assim os evitava, passava de largo ou no intervalo subtilíssimo que separava o medo irradiante de cada um deles. Às vezes na pressa esbarrava com eles. Eles então disparavam as suas pistolas de vento com rolhas de cortiça. Poc, poc. Uma estalaria oca. Mas fazia barulho, ouvia-se, havia sempre quem morresse por espírito de compreensão. Eles carregavam outra vez as armas, contentes com a sua eficiência. Em certos dias que vinham a ser assinalados, o chefe falava. Os discursos dele chamavam-se discursos históricos. Depois os discursos publicavam-se com a história que vinha neles e contaminava o papel que era amarelo e tinha mesmo aqui e além um picotado de traça. Um dia vi o chefe falar, foi na Avenida. Comemoravam-se os fundamentos do regime e vieram ainda da província vários sobreviventes dos fundamentos. Eu estava numa janela em frente com um binóculo. À roda dele havia muita polícia com as pistolas no ar, pronta para qualquer emergência, dando mesmo nos intervalos do discurso um ou outro tiro de prevenção. Vários altifalantes disseminavam-se pelos pontos estratégicos, a corrigirem-lhe as deficiências de energia. Não corrigiam. Tornavam-lhe só mais audível a sua vozinha trémula, cheia de fífias pelo ar. Dizia muito lenta cautelosa, voz fina:
ResponderEliminar""- Prazer-me-ia que os que esto ouvirem filhassem boa tençon de guisa que ensino e avisamento ouvessem por nos e por si.”""
Brilhante, mas esquecido.
Vergílio Ferreira - Nítido Nulo.
"Dio sa che cosa oh sofferto, " si diceva la nona informa e abbandonata dai nipoti, "Dio sa che sono innocente, " si consolava qui era stato condenando ingiustamente, "Dio sa quanto ho fatto per te, " disceva la madre al voglio sconoscente, "Dio sa quanto ti amo, " gridava l'amante abbandonato, "Solo Dio sa quanto ne ho passate, " lamentava lo sciagurato delle cui sventure non importava niente a nessuno. Dio era sempre invocato come l'occhio a cui nulla sfugiva e il cui sguardo dava senso alla vita più grigia e insensata. "
ResponderEliminarDio mi è testimone che sono scemo... Umberto Eco, Cronache de una società liquida
Obrigada pela sugestão! Fiquei com muita vontade de ler o livro.
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