O que ando a ler
Estou a ler várias coisas, algumas no trabalho, outras em casa. Mas, como ia viajar e não queria ir demasiado carregada, levei o mais recente livro de Leïla Slimani publicado em Portugal, com tradução de Isabel Castro Silva, intitulado O Perfume das Flores à Noite. Não é, como os seus livros anteriores, uma ficção, mas sim um texto autobiográfico sobre a necessidade de o escritor se encerrar (a disciplina de fugir da vida, dos encontros, dos amigos, é profundamente necessária a quem quer, de facto, tornar-se escritor); e, ao mesmo tempo, a experiência que a autora aceitou de, durante uma noite, ficar fechada num museu em Veneza (claro que lá estava o guarda da noite, mas isso não conta), onde pode circular livremente por todas as salas ou apenas dormir numa caminha de campanha que alguém lá pôs. Lemos, pois, o resultado das suas deambulações e pensamentos durante esse período (muitos dos quais reminiscências das suas leituras, e também aqui é impressionante ver a bagagem literária de uma escritora ainda jovem como Slimani). Gostei especialmente da parte em que prevarica e quase mete a cabeça na retrete para dar umas passas num cigarro evitando os alarmes do museu, mas ainda me falta um terço para chegar ao final. O perfume das flores à noite prende-se com uma memória de adolescência associada à ideia de liberdade, que não é o contrário de encerramento, embora possa parecer. Vale bem a pena ler.
Bom dia, com uma otite!
ResponderEliminarO que se vai lendo por cá:
-Acabei “O último olhar” de Miguel Sousa Tavares.
Não consigo dizer se gostei ou não, como já referi antes. Porém que fiquei desiludido, disso tenho a certeza.
Não sei explicar, todavia o que me parece é um romance mal construído, o qual nem por isso me parece bem-escrito. Sem verve, com diálogos pífios e uma parte do romance-própriamente-dito, até piroso! Há partes de que gostei, as que falam da guerra em si e do campo de concentração, que me parecem bem descritas. Mais sólidas. Quando deriva para a parte do romance amoroso, parece que estou noutro livro!
Teceram tantos encómios, que de facto achei um “flop”. Talvez porque tinha uma expectativa demasiada.
- Ando a ler, para me compensar, algo de mesmo muito bom: de V.S. Naipaul, “Um caminho no Mundo”. Este não engana nem desilude, antes me preenche, identifico-me plenamente com ele, com o ambiente tropical, exótico, com outras raças e outras gentes que me enchem as medidas e ele trata como poucos! Consigo ver e cheirar o que narra. Quem me dera escrever assim!
Naipaul, é um Grande Escritor, escuso de o dizer pois é sabido e justamente celebrado, este sim merece prémios e ser destacado!
A propósito deste romance desejo destacar a Extraordinária traducção de Maria João Lourenço, a quem agradeço especialmente! Ela consegue ser brilhante, portanto permite-nos perceber o brilhantismo do autor original, o que é obra!
Uma boa traducção, é algo de Extraodinário e não é para todos, pois o traductor afinal reescreve o livro, na sua própria língua e palavras, o que não é fácil e pode fazer a diferença entre um grande romance que por bem traduzido nos dá essa grandeza, ou pelo contrário, uma boa obra pode ser reduzida à mediocridade por força de uma má traducção.
Lembro como caso exemplar, “As montanhas douradas” de C. Pam Zhang, que dizem ser um bom romance. Pois o que eu li, a traducção é péssima! Constitui um mau trabalho que desvirtua por completo o original. Não acredito que com tanto prémio e crítica o romance seja tão fraco, no entanto por força da péssima traducção, que não conhece as palavras certas e correspondentes em português, nem sequer constrói bem as frases, que parece não dominar nem a arte da escrita nem ter sensibilidade para procurar traduzir sem ser “à letra”, o que muitas vezes tira sentido ao que estamos a ler, fazem deste um dos piores livros que li nos últimos tempos.
Tenho pois de louvar a citada Maria João Lourenço, e, agradecer-lhe um trabalho muito bem feito na plenitude da escrita do grande mestre Naipaul!
Saudações tropicais e vertiginosas, cá desde a Cidade Morena!
Eu estou por acaso a ler "O país dos outros", também de Leila Slimani, e a adorar!
ResponderEliminar"PARA QUÊ TUDO ISTO" - Álvaro Magalhães. Uma biografia de um homem absolutamente sedutor, um ser humano que me põe a rir, a chorar, a pensar, um homem bom!
ResponderEliminarJá conhecia alguma (pouca) coisa da sua obra mas está biografia confirma tudo aquilo que já pensava - são pessoas destas que fazem um mundo melhor.
Estou fascinado!
O escritor de livros infantis?
EliminarDe livros infantis e não só.
EliminarÓ Paxeco todavia, neste caso, não é o escritor que me fascina é o ser humano.
Vou começar a ler Pergunta ao Pó de John Fante para o Clube de Leitura de Maio; Charles Bukowski disse que "os romances de John Fante são do melhor que a literatura americana alguma vez produziu". A ler vamos. Acabei de ler A Bruxa de Monte Córdova do nosso Camilo Castelo Branco. Camilo nunca me desiludiu.
ResponderEliminarCharles Bukowski disse que "os romances de John Fante são do melhor" e são mesmo! Do melhor que li até hoje e já os li todos (traduzidos e publicados em Portugal).
EliminarSou um "fanático" leitor de JOHN FANTE.
John Fante - a saga BANDINI é absolutamente imperdível!
EliminarEstou a ler a "Adoração" de Cristina Drios (penso que foi sugerido por aqui...).
ResponderEliminarPor enquanto está a ser uma leitura "morna" (já passei o meio).
«A disciplina de fugir da vida, dos encontros, dos amigos, é profundamente necessária a quem quer, de facto, tornar-se escritor.»
ResponderEliminarNão, não é. Pelo contrário, pode ser contraproducente e até prejudicial, além de que essa «fuga», ou isolamento, raramente é exequível, praticável. Pelo que quem quer escrever tem de se adaptar às (suas) circunstâncias, raramente ou nunca perfeitas para essa actividade, tentando conjugar os seus objectivos criativos com os deveres quotidianos para com familiares e amigos. Nem todos podem dar-se ao luxo de se encerrarem em «torres de marfim» para produzirem «grande literatura».
Manuel Dias da Silva
ResponderEliminarNa 5-ª-feira passada, comprei dois livros:
“Os Beijos” do espanhol Manuel Vilas, um dos mais eminentes escritores da actualidade. Como se pode ler na badana, “Os Beijos” surge como um dos primeiros romances europeus sobre a vida em tempos de pandemia. É uma narrativa de amor romântico e idealizado, mas também de pele e desejo carnal. No turbilhão de uma crise universal, um homem e uma mulher procuram regressar ao lugar primordial do erotismo, e o fio que vai conduzindo o leitor é a descoberta do sentido mais profunda da vida. Isto é o que me diz a publicidade. Depois de lê-lo, logo verei.
Outro foi “o meu corpo humano” de Maria do Rosário Pedreira. Já fiz uma primeira leitura e estou a iniciar uma segunda, para poder mastigar, lentamente, cada poema, porque, sendo aparentemente uma poesia fácil, é muito difícil porque fala do que se passa ao longo da vida e da nossa relação com ela, que é, muitas vezes, feita de coisas pequenas. E lá está tudo, como numa grande poesia, sem medo das palavras e das imagens. Grande livro, Maria do Rosário. Os meus agradecimentos por tê-lo escrito. Não tendo o seu contacto, aqui fica a minha opinião sincera.
Outro livro que ando a ler, além de outros que vou pegando, para reler uma página ou outra, é “Danúbio”, de Claudio Magris. Segundo a publicidade da badana, é um dos grandes romances europeus do nosso tempo, classificado na categoria de literatura de viagens, cujo tema principal serve de pretexto para explorar e dissertar sobre a cultura centro-europeia, ou seja da “Mitteleurope”. Magris serve-se do Grande Rio que atravessa a Europa Central como se fosse o fio de Ariadne, isto é, uma linha de orientação para atravessar o conjunto de culturas e etnias que se entrecruzam, sobrepõem, mas raras vezes se misturam ou diluem umas nas outras, insistindo, pelo contrário, no esforço de preservar uma identidade cultural e económica. Essa viagem, através do Danúbio (atravessando a Alemanha, a Áustria, a Hungria, a antiga Jugoslávia, a Roménia e a Turquia), o grande rio europeu, é a viagem pela História e pelo imaginário do nosso continente. Uma obra-prima.
Fiquei muito interessado nesse Danúbio!!!!
EliminarHá uns tempos larguei o DANÚBIO por volta da pág 50. Na altura achei uma sêca. Há alturas em que isto acontece a qualquer leitor (até com, supostamente, grandes livros).
EliminarEu leio “De levantar. Uma vida em histórias” de Helga Schubert.
ResponderEliminarA escritora, que recebeu o Prémio Ingeborg Bachmann no ano passado, nasceu em Berlim em 1940 e trabalhou não apenas como escritora, mas também como psicoterapeuta na RDA, identificou o cerne da sua persistência nessa experiência.
Em episódios curtos, Helga Schubert conta a história de um século na Alemanha – a sua história é ficção e verdade ao mesmo tempo. Quando criança viveu entre pátrias, quando adulta esteve sob vigilância da Stasi durante mais de dez anos e tinha quase cinquenta anos quando foi eleita pela primeira vez. Mas acima de tudo é a história da reconciliação: com a mãe, uma vida cheia de resistência e consigo mesmo.
A mãe de Helga Schubert explica à filha que ela realizou três feitos heróicos em sua vida: não a abortou, a levou consigo para fugir durante a Segunda Guerra Mundial e finalmente não a envenenou em Greifswald antes da invasão russa.
Helga Schubert descreve o legado da geração da guerra.
Também gostei do livro que fala da Leila Slimani.
ResponderEliminarJá li todos os seus livros e gosto muito!
Espero a tradução do segundo livro do "País dos Outros".
"Leio as tuas palavras numa cidade
ResponderEliminarestranha e cheira-me subitamente a
pão e a casa. Ter-te comigo é como
poder andar descalça pelo mundo."
"pés", in "o meu corpo humano", Maria do Rosário Pedreira, ed. Quetzal, 2022.