Ouvir

Tenho reparado ao longo da minha vida, em vários festivais e espectáculos, que muita gente que diz não gostar de ler poesia gosta, efectivamente, de ouvir ler poesia. A sorte para nós, que amamos a poesia, é haver muitíssima gente por esse país fora que a sabe dizer bem, porque, claro, se trata de grandes leitores , pessoas que a lêem há muito para si e para os outros, verdadeiros cultores desse género literário. No próximo dia 25, numa sessão intitulada Viagem ao Silêncio, o poeta e diseur José Anjos, na companhia de Paula Cortes (leitores), e com o acompanhamento musical de Alexandre Cortez (baixo) e Filipe Valentiom (piano), mostrarão no El Corte Inglés (às 18h30) como é bela a obra poética de Miguel Torga, esse criador que, como escreveu o grande Eduardo Lourenço, «podia dizer que escrevia como lavrava a terra». Com uma voz singular, a sua poesia faz a «apologia da natureza», tão esquecida da poesia contemporânea. E é bom que os jovens, como José Anjos, não se esqueçam destes poetas desaparecidos. Obrigada.

Comentários

  1. António Luiz Pacheco19 de maio de 2022 às 01:30

    Ouvir poesia (da que eu gosto!) ao som de música é sempre algo de belo, bom, que nos toca e dispõe bem.
    Há mesmo cantores que eu não considero como tal e sim antes como "declamadores", dando um exemplo, Pedro Abrunhosa no meu (fraco mas atrevido) entender, não canta: diz! Aliás diz muito bem... estou a ouvi-lo dizer: "quem me leva os meus fantasmas!".
    Há temas que são mais ditos do que cantados.
    Portanto, apesar de não ser consumidor de poesia, gosto de a ouvir dizer com música por fundo, sem dúvida... claro que depende dos conteúdos e do género, mas isso é como a história de nem todos gostarem de amarelo!

    Uma questão: piano e "baixo"? Ou contra-baixo? Perdoe a minudência, mas é uma questão que me importa.

    Bons ouvidos é o que desejo hoje aqui da Cidade Morena, com a minha otite curada, mas o ouvido ainda com a sensação de cheio!

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    1. Maria da Conceição Teixeira Dias Dias20 de maio de 2022 às 02:38

      Subscrevo !

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  2. Quando a Poesia é gastronomia para a Vida o Gourmet acontece

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  3. Bom dia.
    Tem toda a razão Caro António Luiz Pacheco. Ouvir o Pedro Abrunhosa dizer a sua poesia é um prazer que ultrapassa o seu(próprio) modo de cantar. Já tive o prazer de o ouvir dizer poesia num espectáculo no CCB.
    Assim como tive o prazer,em miúdo, de ouvir o João Villaret no seu programa nos anos de 1960 na RTP. Quem se lembra da sua Procissão? Como tive o prazer de ouvir o Mário Viegas,enorme,no seu Palavras Ditas.
    Ou o Luís Miguel Cintra a dizer Ruy Belo nuns CD,s editados pela Presença em colaboração com a Casa Fernando Pessoa.
    A Natália Luísa com aquela voz maravilhosa a falar de Nuno Júdice.
    E como esquecer os poemas lidos pelo Pedro Lamares ou pela Filipa Leal?
    Tantos e tão bons que tornam a poesia ainda mais bela.
    Possivelmente não terei oportunidade de ir assistir a esse espectáculo, mas fica aqui o meu abraço para o Alexandre Cortez, amigo e companheiro de aventuras nos idos da Expo 98, quando,dia e noite, trabalhávamos nos espectáculos do, então, chamado Pavilhão Atlântico.
    Daqui,da margem esquerda do estuário de Tejo, com os desejos de um bom dia e muita poesia.
    A.Delfim

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    1. A propósito do Pavilhão Atlântico e deste seu anterior nome, eu fico sempre rabugenta de cada vez que o referido pavilhão muda a denominação. Acho indecente fazerem-lhe tal coisa (na altura da Expo 98 até acho que era Pavilhão Multiusos, por acaso, mas já não posso precisar). Num destes últimos anos pré-pandemia em que se realizou a Web Summit nesse agora chamado Meo Arena ou Altice Arena, já nem sei, estava necessitada de levantar dinheiro e tendo visto uma caixa multibanco dentro do pavilhão, meio escondida num canto, ao fundo, fui lá tratar do assunto. No talão que a máquina me entregou no fim da operação, tinha a indicação do local de levantamento bancário como sendo "Pavilhão Atlântico", e aquilo deu-me cá uma satisfação! Não há mesmo paciência para todas estas mudanças de identidade de uma coisa tão icónica da nossa cidade.
      Obrigada, Extraordinário A. Delfim, por me ter feito recordar esse momento contente.

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    2. António Luiz Pacheco19 de maio de 2022 às 07:28

      Creio que Villaret será dos tais eternos!!!! Quem o tenha ouvido dizer, nunca o esquecerá.
      Igualmente dizia muito bem o extinto Ary dos Santos, lembro-me de o ouvir dizer, e, a saudosa Natália Correia também.
      Abraço A.Delfim

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  4. E por se falar de poesia, venho aqui partilhar um poema que descobri muito recentemente, incluído num livro que me tem encantado, arrebatado, surpreendido, maravilhado. É de uma autora que os Extraordinários conhecem:

    "Sete anos me aguardam de incertezas. O gato gordo,
    sobre o muro, é apenas uma figura transitória. Tu vais
    ficando, um livro abandonado no melhor
    do enredo, aberto para sempre sobre a cama. Eu

    sento-me à janela onde houve uma vez uma figueira.
    E fico. Aguardo provavelmente a tua voz no silêncio
    demorado dos quartos ao entardecer. E também adormeço,
    se não for a memória do ruído ensurdecedor dos
    espelhos, rebentando pela casa em mil pequenos cacos
    incertos. Sete anos

    para reler uma história demasiado conhecida ou
    folhear um livro branco até ao fim. O gato já
    desapareceu. Digo que escolhe, como tu, outra
    cama para desafiar a lua. Eu não, eu eu fico."

    in "poesia reunida", Maria do Rosário Pedreira, Quetzal

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    1. António Luiz Pacheco19 de maio de 2022 às 07:18

      Bonito momento trouxe aqui Extraordinária Suzana!
      E não estou a dar graxa...

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  5. Cláudia da Silva Tomazi19 de maio de 2022 às 09:51

    A paz é uma memória insaciável. Ouça...

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  6. Gostar todos gostamos, uns mais outros menos. Quem não se lembra dos poemas que sabemos desde a escola primária (Batem leve levemente….) ou já mais na adolescência (As armas e os barões assinalados…) este transformado nas aulas de canto coral e decorado com gosto. Os professores, esses eternos modeladores dos nossos gostos!
    Havia uma professora de português que saltava todas as páginas de poesia do livro e talvez por isso a contrariei e procurei descobrir diamantes em todos os poemas a que tenho tido acesso. E nessa busca acontece encontrar verdadeiras paredes de pedra intransponíveis. Há poetas que parecem escrever apenas para si próprios enquanto outros nos mostram claramente o que pretendem dizer. E aqui está a questão de alguns de nós não gostarmos de poesia, porque não desbravamos o suficiente. Trabalho por vezes impossível.
    Ter nas mãos um pequeno livro de poemas de que gostamos é uma benção. Pelo contrário ler e não entender é um entrave.
    Tenho para mim que por vezes é preciso saber mais do que se sabe sobre o poeta, o tempo em que viveu, enfim, até uma explicação do poema para o entender e então ler com prazer e admiração.
    Há dias comprei dois livros de poesia: “Memórias, Aparições, Arritmias” de Yara Nakahanda Monteiro e “O Meu Corpo Humano” de Maria do Rosário Pedreira. O primeiro, porque a autora ganhou o prémio Glória de Sant’Anna de 2022 e muito, porque nasceu na cidade do Huambo minha maravilhosa cidade onde vivi a infância. O segundo, porque entendo e gosto da poesia de MRP.
    Comecei pelo primeiro e encontrei obstáculos que tenho vindo a transpôr ouvindo a poeta em entrevistas que tem dado ( Rdp2, YouTube). O segundo repousa e espera que eu tenha vencido estes obstáculos. Sei que me espera tranquilamente.

    Tranço o cabelo
    dizem
    quero parecer mais preta

    Faço brushing
    dizem
    quero parecer mais branca

    Na frente quente vinda do hemisfério sul
    os caracóis secam desordenados
    perguntam
    quero parecer de onde?

    “Eu sou de onde estou”

    Yara Nakahanda Monteiro

    Claríssimo o que pretende dizer para quem conhece bem a questão e viveu em ambiente onde os cabelos mais ou menos frisados são ou não são, um problema.
    Mas para este Yara, vou precisar de ajuda:

    No céu estirado do sonho, a águia de Prometeu debica,
    ao mesmo tempo, duas luas negras com pálpebras
    escancaradas.
    Não se pode dormir sem óculos escuros - disse, sacudindo
    o cazumbi.

    Yara Nakahanda Monteiro

    Sei o que é cazumbi, mas…
    E foi nesta busca, saltando obstáculos e compreendendo melhor, que a poesia me conquistou.

    Saudações a todos os participantes

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