O cego iluminado

Num domingo à tarde do mês passado, fui para casa da minha mãe, como acontece com frequência, fazer-lhe companhia durante a tarde. Mas, apesar de ela ser uma grande conversadora, o calor amoleceu-a nesse dia e passou grande parte da minha visita a dormir a sesta. Como eu não ia preparada para isso, acabei por ir à estante da sala à procura de algo que ler em poucas horas e saiu-me ao caminho o excelente Cândido, de Voltaire, que provoca sempre umas boas risadas e nos faz reflectir sobre o mundo, sobretudo o de hoje. Cândido, como o nome indica, é mesmo um ingénuo que cai nas esparrelas iluminadas do falso filósofo Pangloss, por quem é educado na casa de um barão junto com a filha deste, a menina Cunegundes, que ele ama loucamente. Expulso do palácio com um pontapé no traseiro pelo pai da rapariga quando sabe dos contactos físicos (inocentes ainda), iniciará então um caminho de aventuras e desventuras – com viagens a toda a parte (incluindo Portugal, onde assiste aos efeitos do terramoto de 1755) –, durante o qual assistirá ou saberá dos horrores acontecidos (ou talvez não) a Pangloss, ao barão, à menina Cunegundes e a muitos amigos que vai fazendo ao longo do tempo e que o vão orientando para o pior e para o melhor. No fim, nesta deliciosa sátira contra a intolerância e o fanatismo, Cândido concluirá, sem grandes filosofias, que «quem não trabuca não manduca», coisa que continua a ser verdade nos nossos dias (os clássicos são intemporais), excepto para os grandes ladrões que por aí há. Viva o génio de François-Marie Arouet, aka Voltaire, e da tradutora belíssima, Maria Archer. Foi uma tarde muito bem passada.

Comentários

  1. António Luiz Pacheco2 de setembro de 2021 às 03:14

    Olhe que bela descoberta foi fazer... imagine que tendo esse "Candido" na minha biblioteca caseira e familiar, já o tive nas mãos por diversas vezes, mas, porém, todavia, contudo, nunca me abalancei a lê-lo!
    Agora ao lê-la, lamento nunca tê-lo feito!
    Fica já marcado!
    É mesmo o que vale a pena em vir aqui, e, ainda bem que a Senhora sua mãe sucumbiu à soneca, eheheh! O acaso faz bem as coisas? Bom, creio que nada acontece por acaso, pois foi uma sucessão de sucessos sucessivos que se sucederam sucessivamente que levou ao sucesso na leitura!

    Saudações sucessivas cá da Cidade Morena.

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    Respostas
    1. Por favor leia. E rapidamente. Vai adorar! Depois diga que não foi uma Excelente Recomendação.
      Celeste Silveira

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  2. "Sem futuro, o presente não serve para nada, é como se não existisse, Pode ser que a humanidade venha a conseguir viver sem olhos mas então deixará de ser humanidade.“ — José Saramago, livro Ensaio sobre a Cegueira Ensaio sobre a Cegueira

    Fonte: https://citacoes.in/obras/ensaio-sobre-a-cegueira-6461/

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  3. Há bons bocados que a terra engole. De gole em gole, o vinho à terra pertence. Livros são o (extravagante) luxo dos sentidos; bem lhes sabia Volteire.

    Cláudia da Silva Tomazi

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  4. Extraordinários:
    Gostei tanto, mas tanto de ler este livro! Ri a bandeiras despregadas! É que havia sempre surpresas, ninguém morria. E uma até ficou sem parte do traseiro, o que ela passava para se sentar... Mas também me fez pensar! Muito mesmo. Às vezes apreendemos melhor as coisas ouvindo e lendo prosa satírica de primeiríssima qualidade.
    Folgo em saber que as Férias lhe foram proveitosas, Maria do Rosário. Com excelentes leituras. Também eu já gozei de alguns dias de férias, mas vou ter a maioria das mesmas, no mês de Setembro. Que é mês que eu Adoro. E os livros? Esses estarão sempre presentes. E lidos... inevitavelmente.
    Boas Leituras para todos. E que bom que é saber que já reabriu este nosso Magnifico Cantinho de Excelentes Conversas. E de igualmente Excelentes Recomendações Literárias!
    Celeste Silveira

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