Excerto da Quinzena

Hoje deixo-vos um clássico.


 


Tratem-me por Ismael. Há alguns anos – não interessa quando – achando-me com pouco ou nenhum dinheiro na carteira, e sem qualquer interesse particular que me prendesse à terra firme, apeteceu-me voltar a navegar e tornar a ver o mundo das águas. É uma maneira que eu tenho de afugentar o tédio e de normalizar a circulação. Sempre que sinto um sabor a fel na boca; sempre que a minha alma se transforma num novembro brumoso e húmido; sempre que dou por mim a parar diante de agências funerárias e a marchar na esteira dos funerais que cruzam o meu caminho; e, principalmente, quando a neurastenia se apodera de mim de tal modo que preciso de todo o meu bom senso paranão começar a arrancar os chapéus de todos os transeuntes que encontro na rua – percebo então que chegou a altura de voltar para o mar, tão cedo quanto possível. É uma forma de fugir ao suicídio. Onde, com um gesto filosófico, Catão se lança sobre a espada, eu, tranquilamente, meto-me a bordo. E não há nisto nada de extraordinário. Embora inconscientemente, quase todos os homens sentem, numa altura ou noutra da vida, a mesma atracção pelo oceano.


Herman Melville, Moby Dick, tradução de Alfredo Margarido e Daniel Gonçalves

Comentários

  1. "O boxe apareceu num dia de zaragata lá na rua. O Elias apalpou o rabo da namorada do Silvinha, a menina não podia estar calada, foi logo contar, o Silvinha vem por aí a baixo soprando pelas narinas. Começaram os dois à bulha, a malta a assistir, mas a páginas tantas ja não havia assistentes, estavam todos no activo, a rua inteira na refrega, galfarros pegados de uma esquina à outra.
    Arnaldo foi dos primeiros a entrar na festa, pelava-se por uma boa briga, sentia-se herói de cinema, Burt Lancaster, malhava e ria, puxava ao estilo, que pena não estarem ali gajos a filmar. Nesse dia, então, Arnaldo estava com veia, acertou um murro em cinemascópio na cara de um vilão, despachou mais dois dos seus cúmplices, sorriu para as câmaras, milhões de espectadores em todo o mundo deviam ter visto aquilo, em tecnicolor, acção e aventuras, ele o rapaz, a rapariga podia ser a Ivonne de Carlo".

    "Crónica dos Bons Malandros" - Mário Zambujal - Círculo de Leitores, Julho de 1981, pág. 56
    (transcrito do original impresso através da transposição "onlineocr")

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  2. António Luiz Pacheco16 de abril de 2021 às 02:05

    Belíssima e eterna introducção!
    É um livro de culto...
    Não tem comparação possível e nem é o que pretendo mas conheço quem se tenha atrevido a imitá-lo, e de resto como criticar quem o faça? Há algo de novo debaixo do Sol?

    Deixo à vossa análise, estoutra introducção Melviliana:

    Chamem-me Ismael, começava o outro… pois a mim chamem-me Alvarito.
    Sei o que estão a pensar, sou homem das letras e do mar, conheço a frase, assumo o plágio!
    Chamo-me Álvaro Eugénio Pitagrós Peixoto mas podia ser Robinson Crusoé, nascido em Benguela vão 46 anos e na verdade não sou nem náufrago nem fugitivo de coisa nenhuma, estou aqui porque quero… agora ficava bem escrever que só faço o que me apetece, mas todos sabemos que tal não seria verdade, apenas um lugar-comum e como sou um contador de histórias, para mais caçador, é claro que contorno um pouco a verdade e componho a realidade, no entanto não sou bem um mentiroso, só minto por boas razões e compete-me a mim decidir quais são!
    Disse que sou homem das letras, ora há quem escreva sobre aquilo que nunca viu ou viveu, depois imagina, ficciona se quiserem, mas no fundo mente. Já eu considero-me um pintor da palavra a embelezar o quadro que nem preciso inventar só reproduzo, com umas pinceladas! Isso fez de mim escritor de viagens, de sucesso diga-se de passagem e sem falsa modéstia.
    Também me anunciei homem do mar. Sou pescador submarino mais exactamente, o que somado à condição de viajante (sou o que se diz caçador globe-trotter) faz de mim um perfeito conquistador do inútil como alguém escreveu num livro certa vez. Porquê este epíteto? Pois porque os nossos feitos apenas por nós mesmos presenciados não se alcançam num estádio, não são transmitidos em directo pelas televisões ou aplaudidos por uma assistência, são íntimos e pessoais, o que nos faz ser como os viciados, a querer sempre mais, mas fruindo em nós mesmos. Porém, prefiro dizer que somos como os religiosos Capuchinhos ou monges tibetanos que oram e vibram pela humanidade no isolamento monástico, apenas nós o fazemos em pleno ar livre que é também uma forma de clausura pois nos condena à demanda eterna do paraíso perdido, o Shangri-la, o desafio permanente. Faço notar que, tal como o jardim de Éden tem os seus dragões, tudo o que é desejável tem as suas dificuldades para ser atingido, e, a Natureza não dá presentes!
    Para mim, caçador de aventura, o paraíso é um lugar distante, selvagem, cheio de peixes grandes. Encontrei-o diversas vezes no meu percurso de caçador-viajante, cada vez melhor, como mais longínquo e difícil. Sempre em busca de algo indefinido, mas que tão bem reconheço quando lá chego, em cada vez achando que é ali e sonhando com o regresso mesmo antes de partir...para logo achar outro lugar e tudo recomeçar, numa girândola de insatisfação, de querer ver e conhecer sempre mais e novas coisas, terras, mares, bichos e gentes…
    Afinal, o meu paraíso está agora, aquí! Sempre esteve. Onde verdadeiros dragões existem e se passeiam sob diversas formas: isolamento, distância, más comunicações, insegurança, doenças, fome, guerra, minas... De tal modo guardado, este paraíso é, portanto certo e fabuloso!
    Posto-me aqui no cimo do platô costeiro, olho em volta para esta largueza e extasio-me – não estou a mentir, acreditem! Nem por isso sou religioso, mas agradeço a Deus, seja ele qual fôr, existir para ter estas sensações. Se alguém alguma vez quiser saber como se sente a obra de Deus ou de quem criou o Mundo, suba a um alto qualquer, de onde abarque o mar ou terra sem fim, e, acreditem no que lhes digo pois nisso não exagero nem minto: É como rezar!

    Saudações mobidiquianas, cá da Cidade Morena.


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  3. «Molero observa», disse Austin, «que o rapaz escolhia multas vezes as zonas do globo para onde se dirigia só por causa do som das palavras, foi à Pensilvânia por causa do som, a Pensilvânia não lhe interessava, interessava-lhe a palavra, gostava muito da Polónia por causa disso, e da Gronelândia, e da Itália, e de outras palavras, de preferência esdrúxulas, da família do murmúrio ou da âncora, da cólica ou do primogénito, e também do tímbalo e do crisântemo, do rodízio ou do acéfalo, não só o som da palavra mas também o peso e o contorno, a sua seda ou a sua aresta, e das cores que as palavras lhe sugeriam, e do prazer antecipado de poder trabalhar essas palavras no local próprio, descobrir a sua inserção geográfica, atravessou o canal do Panamá por causa do acento tónico no último a, era algo que se lhe afigurava definitivo, claro que muitas vezes os locais não correspondiam ao som, ou à espessura, ou à densidade da palavra, e vá de fazer as correcções necessárias, se um país dificilmente pode ser virado do avesso por não corresponder ao que dele se esperava, não se pode arrasar um supermercado para instalar uma floresta, ou subverter o ruído da serração de madeiras com o cantar do rouxinol ou fazer com que os relógios não marquem horas, marquem paixões ou a ausência delas, pode-se, contudo, interpretar esse país através de uma palavra que o resuma aceitavelmente, a palavra chamada paisagística, de olhar por alto, ou a palavra iceberguiana, de uma solidez submersa, e então começaram a aparecer nos seus versos países reais com nomes fictícios, ou palavras fundidas umas nas outras, a Dinacócia, por exemplo, metade Dinamarca, metade Escócia, dava-lhe, por estranho que pareça, a Bélgica, e isto nos primeiros versos, onde a alquimia ainda balbuciava, porque depois eram as palavras intermináveis, ondulantes ou tensas, ou os monossílabos secos e brevíssimos, e por aí adiante».

    Dinis Machado, «O que diz Molero»

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    1. Pois perante o meu caro Molero - afinal ainda há amantes de Molero e de Machado - deixo ao LAC e aos restantes amigos extraordinários o intróito da minha já concluída e próxima intervenção literária, o "Retorno A Molero":

      «Poucos anos passaram desde a última vez que soubemos de Molero. Mas o tempo agora é assim: curto. Algo diferente daquele em que muitos de nós crescemos. Pelo menos a maioria, já que os jovens começam a ser, neste Ocidente com sabor a ocaso, “coisa" cada vez mais rara. Juventude de que não queremos saber, parecendo não os desejarmos por cá. Com medo de que as nossas pequenas vidas sejam ainda mais desmanchadas do que a percepção que temos delas. Ou mandamos afastar o Mediterrâneo do seu leito como fez Moisés àquele grande rio do Egipto, o Jordão? O que nos contará e por que regressou Molero sabendo mesmo nós, por aqui, os últimos oito anos terem sido quase tão profundos na mudança, que entendemos viver quase todos num diferente Novo Mundo. No gabinete já não encontraremos Mister Austin, substituído por Miss Skoda, pela paridade imposta por um regime de quotas discriminando positivamente.
      Nem De Luxe, sucedido por Mister Bentley num concurso à prova de qualquer influência aparente, com uma mão cheia de candidatos. O lugar, como sabemos do passado, é apetecível. Da nota concursiva constavam este rol de pretendentes: Madame Ferrari, Mister Mercedes, Mister Aston Martin, Mister Rolls Royce, Madame Jaguar, Madame Audi, Mister BMW, Mister Porche, Mister Lamborghini, Madame Maserati e “por último, mas não menos importante”, como veremos adiante, Mister Bentley. Na pré-seleção, mesmo gabada as suas formas, o seu colorido, a sua potência, ficou logo pelo caminho Madame Ferrari. Por as mentes lentas, cansadas, do júri, considerarem a sua força não ser a mais adequada a um serviço necessariamente sujeito a ponderação e aceleração cuidada, precisando o lugar de tempo de maturação; e com uma congeneidade incapaz de um sistema de bloqueio eficaz nas curvas apertadas, cheias das armadilhas da vida em comunidade. Mercedes também não foi opção. Por considerar o colectivo avaliador ser um elemento cheio de uma imagem construída menos em públicas virtudes, mais em vícios privados, independentemente de todos lhe gabarem a fiabilidade e longevidade como um bloco de carácter (continua)

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    2. Com características similares a Madame Ferrari, Mister Aston Martin beneficiou da exclusão do primeiro, pelo que passou à fase seguinte… o júri a necessitar como pão para a boca de um contraponto à discriminação de quotas. A paridade administrativa tem destes assomos do politicamente correcto. O mal, como uma manifestação pungente da afectividade humana, censurando um acto que não devemos praticar: chama-se a isso, remorso! Escolhido o género anterior Rolls Royce foi logo liminarmente excluído, mesmo sabendo o júri da sua majestade e grandeza. Em consequência Madame Jaguar, aquela imagem graciosa e estendida, foi contrária e liminarmente aceite à segunda fase. Madame Audi, sucedendo na avaliação, sofreu as consequências da sua má colocação entre iguais. O candidato seguinte, Mister BMW, foi também totalmente afastado, desta feita pela unanimidade dos jurados, por considerarem a sua disseminação universal comprometer uma certa qualidade de “ímpar entre os pares”. Os três seguintes, a saber, Mister Porche, Mister Lamborghini e Madame Maserati sofreram dos argumentos excludentes cometidos a Madame Ferrari: logo, excluídos. Por último mas não menos importante, Mister Bentley foi considerado possuir a aparência grave, solene, fiel de um bom serviçal. Capaz, assim, de substituir com toda a solenidade, excelência, “lucro”, o desempenho magistral de Mister De Luxe — sendo que por questões simplificadoras e de antipublicismo, Bentley dará para nós pelo nome de SuperDeLuxe. Passado à fase final foi a este último que coube a honra de ir preencher o lugar, tão fiel e lealmente desempenhado pelo dono anterior do lugar: e todos sabemos como fidelidade e lealdade — a que nos eximimos de chamar canina pois insultuosa para todos os cães segundo o PANO (partido das pessoas, animais, natureza, ódio) e o seu braço armado, o IRRA (intervenção raivosa e resgate animal) — é condição de todos os tempos e lugares sem excepção, mesmo tão minoritária que é hoje e mais passível de encher um charco do que uma ribeira ou de um rio que não desapareça antes de desaguar num mar de detritos.»

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    3. António Luiz Pacheco16 de abril de 2021 às 04:31

      Comungamos desse mesmo gosto, entre outros e ainda bem, pelo D. Machado e o seu Molero!
      Foi uma obra de culto no meu tempo!

      Abraço!

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    4. António Luiz Pacheco16 de abril de 2021 às 04:38

      Nota: se gostei do original, gostei depois do seu primeiro, e, pelo que estou a perceber vou igualmente gostar desta sequela...

      I'll be back ... terá dito algures e alguma vez Molero?

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  4. António Luiz Pacheco16 de abril de 2021 às 02:21

    Em: "O genocídio oculto" de Tidiane N’Diaye

    - Vale mesmo a pena ler! Aconselho aos historiadores e aos que se preocupam com a nossa responsabilidade histórica...sobretudo a esses! Mas a todos os que se preocupam mesmo e sinceramente com as pessoas e o decurso da história, olhando por exemplo ao que se passa na actualidade em Moçambique, em lugares que percorri e conheço bem! Moçambique para com quem temos laços, sim, criados em séculos de ocupação, eventual exploração (e onde não ocorreu ela?) e não vejo tanta preocupação como a de apagar a nossa história, ao invés de a perceber e por ela acudir ao seu povo!


    "Os árabes, no decurso dos seus movimentos de conquista, começaram por tomar, submeter e islamizar o Norte de África, antes de se dirigirem para Espanha. Neste país, desenvolveram uma civilização brilhante, simbolizada pelos emirados e califados de Córdova. Depois, quando regressaram a África, numa nova vaga de islamização dos povos, levaram consigo uma infinidade de desgraças. Durante a progressão árabe, a sobrevivência constituía um verdadeiro desafio para as populações. Milhões de africanos foram arrasados, massacrados, capturados, castrados ou deportados para o mundo árabo‑muçulmano. Isto em condições desumanas, em caravanas que atravessavam o Sara ou por via marítima, a partir dos entrepostos de carne humana da África Oriental. Era esta, na verdade, a primeira empresa da maioria dos árabes que islamizavam os povos africanos, fazendo‑se passar por pilares da fé e por modelos dos crentes. Muitas vezes, iam de região em região, com o Alcorão numa mão e um machete na outra, levando hipocritamente uma «vida de oração» e invocando constantemente Alá e os hádices do seu profeta.
    Belos e nobres princípios, na verdade, mas que foram desprezados com tanta alegria, tanta infâmia e tanta má‑fé! Pelos negreiros árabes, que puseram África a ferro e fogo. Protegidos
    por este pretexto religioso, perpetraram os crimes mais hediondos e as crueldades mais atrozes. Isto mereceu a Édouard Guillaumet as seguintes palavras: «Que desgraça para a África, o dia em que os árabes puseram os pés no interior! Com eles vieram a sua
    religião e o seu desprezo pelos negros...»
    Se hoje em dia, no que diz respeito à islamização de povos africanos, na maioria dos países, a religião do profeta Maomé — com o seu prestígio social e intelectual — fez enormes concessões às tradições ancestrais, ao integrar‑se harmoniosamente sem
    destruir as culturas e as línguas, isto nem sempre se verificou: a história dos árabes que mergulharam os povos negros nas trevas foi sobretudo a do mal absoluto.
    Enquanto o tráfico transatlântico durou quatro séculos, os árabes arrasaram a África Subsariana durante 13 séculos ininterruptos.
    A maioria dos milhões de homens por eles deportados desapareceu devido ao tratamento desumano e à castração generalizada.
    - continua-

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    1. António Luiz Pacheco16 de abril de 2021 às 02:21

      continuação -

      O tráfico negreiro árabo‑muçulmano começou quando o emir e general árabe Abdallah ben Saïd impôs aos sudaneses um bakht(acordo), no ano de 652, que os obrigava a entregar anualmente centenas de escravos. A maioria destes homens era retirada das populações do Darfur. E foi este o começo da sangria humana que, aliás, só iria estancar oficialmente no início do século xx.
      Aparentemente, esta dolorosa página da história dos povos negros não foi virada de forma definitiva. No rescaldo do segundo conflito mundial e da descoberta dos horrores do Holocausto, a Humanidade foi confrontada com a medida exacta da crueldade do Homem e da fragilidade da sua condição. Sob o choque, a comunidade internacional declarou, numa espécie de célebre e memorável «never again», que não permitiria que tais acontecimentos se repetissem. Isto revelar‑se‑á tanto mais absurdo aos historiadores do futuro quanto, neste início do século xxi, está a decorrer no Sudão uma verdadeira operação de limpeza étnica das populações do Darfur.
      Em Abril de 1996, o enviado especial das Nações Unidas ao Sudão já testemunhava um «aumento assustador do esclavagismo, do comércio de escravos e do trabalho forçado no Sudão». Em Junho do mesmo ano, dois jornalistas do Baltimore Sun, que também tinham conseguido entrar no país, escreviam num artigo intitulado «Dois testemunhos da escravidão*» que tinham conseguido comprar jovens escravas, para as libertar. Decididamente, do Darfur do século vii ao Darfur do século xxi, o horror continua, desta vez com a agravante da limpeza étnica.
      É mais do que tempo de o genocidário tráfico negreiro árabo‑muçulmano ser examinado e debatido, ao mesmo título que o tráfico transatlântico. Embora não existam graus no horror nem monopólio da crueldade, podemos afirmar, sem risco de equívoco, que o comércio negreiro árabo‑muçulmano e as jihads (guerras santas) provocadas pelos seus impiedosos predadores para obter prisioneiros foram, para a África Negra, muito mais devastadores do que o tráfico transatlântico. E isto ainda ocorre sob os nossos olhos (Janeiro de 2008), com o seu quinhão de massacres e o seu genocídio a céu aberto.

      Tidiane N’Diaye

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    2. Li este livro de N' Diaye no Verão passado e fiquei chocado com a dimensão do holocausto dos negros perpetrado pelos árabes maometanos, e também pela sua extensão ao longo dos séculos (sabe-se que esta escravatura ainda hoje persiste de modo encoberto em países árabes). Relembro um único facto relatado no livro e que não mais esqueci: os jovens escravos negros que serviam os sultões da Arábia era castrados à chegada para que não deixassem descendência nas suas terras. Foi-nos vendida a versão suavizada de que eram tornados eunucos apenas os escravos negros destinados a guardar os haréns, afinal o que havia era eliminação sistemática de raça já que havia sempre disponível novo carregamento de rapazes negros, a serem castrados à chegada, para substituir os que iam sendo descartados.

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    3. Muito bem, António. O negacionismo, o politicamente correcto e as "estórias" da história revista e proscrita, envergonhada e vergonhosamente, são males de um novo tempo, de um lugar que tenta de forma enviesada (re)inventar-se?!, de modo pouco rigoroso, recheada de ardis, perfídia e de mãos cheias de ignorância, mesmo sendo a História sempre aberta a outras "memórias globais e localizadas". Brevemente teremos aí outro verdadeiro livro de História, da Bookbuilders, sobre "A História dos Povos Árabes" - de Albert Hourani e Malise Ruthven - que vale a pena ler.

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    4. António Luiz Pacheco16 de abril de 2021 às 04:32

      E que garantidamente irei ler!
      Obrigado pela informação... ainda por cima o Pedro agora é homem também da história, eheheh!
      Abraço.

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    5. António Luiz Pacheco16 de abril de 2021 às 04:34

      Um bom livro, e, muito oportuno Extraordinário Artur!
      Ainda bem que leu e gostou... estou a gostar muitíssimo, mesmo lendo em versão on-line que não é a minha preferida... mas a versão em papel já está encomendada!
      Grande abraço e bom fim de semana!

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    6. Caro António Luíz, é um relato de horrores organizados ao longo de séculos de que pouco se fala... Bom fim de semana !

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  5. Depressa! Depressa! – diziam-me do jornal – Depressa que é para a terceira edição!
    Iam-me faltando as moedas de cinco tostões, sentia-me aflito, pedia que me trocassem moedas de cinco, dez escudos. E os nomes dos mortos continuavam na minha boca, lidos um a um, o mais exactamente possível. Como um preito de homenagem. Como um choro. Chegavam aos meus ouvidos pormenores da tragédia, da chuva, da lama. Eu carregava nas moedas de cinco tostões, afligia-me com o seu desaparecimento contínuo e, automatizado já, ia lendo os nomes dos mortos à luz da pilha.
    Escuridão total.
    - Acabou-se a carga! – disse o bombeiro.
    O suor tomou-me o corpo todo – e os meus dedos amarfanhavam o papel com os nomes dos mortos ainda não transmitidos. E agora? E agora? Agora que a pilha tinha dado de si – que fazer, que fazer?
    - Acendam fósforos! – gritei – Estes fósforos!
    E assim foi: à chama tremida do enxofre, dos fósforos, acesos um a um, fui lendo o nome dos mortos que restavam, que estavam ainda no papel, sem o mais pequeno deslize.
    “Se tu és João” – dizia para mim – «és João. E se o teu nome é Mário, o teu nome será Mário. E caso te chames Rosa, não te chamarei Lucília. »
    Quando, finalmente, abandonei o telefone, ganhei a rua, respirei a noite, apeteceu-me loucamente um cigarro, um cigarro que me turvasse, um cigarro para esquecer aquilo tudo.
    Meti, os pulmões ansiosos, um cigarro na boca – mas não pude, não pude fumar, não pude acender o cigarro: os mortos tinham queimado todos os meus fósforos.
    Crónica de Pedro Alvim em «O Homem na Cidade», pág. 5, Prelo Editora, Lisboa, Julho de 1968.

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  6. O texto que antologiei para hoje, merece uma pequena explicação.
    Esta semana falou-se aqui do centenário do «Diário de Lisboa».
    Pedro Alvim foi jornalista do «Diário de Lisboa». A crónica, um texto muito bonito, refere as trágicas inundações que assolaram, no dia 25 de Novembro de 1967, o país, principalmente Lisboa e os arredores. Um tempo de grandes jornalistas, grandes repórteres, sem os meios que hoje existem e que podem permitir um jornalismo diferente mas que, na volta, redunda num jornalismo de esgoto a céu aberto. Um outro pormenor, relatado pelo jornalista João Paulo Guerra: «Eu das cheias de 67 lembro-me de um telex da Censura, para a redacção do Rádio Clube Português, pelas 3 da manhã, a dizer: «A partir de agora não morreu mais ninguém»
    Reparem no tempo estuporado que então vivemos, e em que um qualquer analfabeto coronel da censura, como se fosse um deus, determina: a partir de agora mais ninguém morre.

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  7. «Não é apenas sequer uma ânsia comparativa, ou de paralelismo, ou de procura de coincidências, cada um saber onde estava o outro nas diversas épocas das respectivas existências e fantasiar com a possibilidade improvável de se terem conhecido antes, aos amantes o seu encontro parece-lhes sempre demasiado tardio, como se, em retrospectiva, o tempo da sua paixão nunca fosse o mais adequado ou nunca suficientemente demorado (o presente é desconfiado), ou talvez lhes seja insuportável que não tenha havido paixão entre ambos, nem sequer intuída, enquanto os dois já estavam no mundo, fazendo parte do seu ritmo mais veloz e, não obstante, de costas voltadas um para o outro, sem se conhecerem e talvez sem desejá-lo tão pouco. Também não é que se estabeleça um sistema de interrogatório diário a que, por cansaço ou por rotina nenhum cônjuge escapa e todos acabar por acatar. Antes pelo contrário, é que estar junto de alguém consiste em boa medida em pensar em voz alta, isto é, em pensar tudo duas vezes ao invés de uma, uma com o pensamento e outra com o relato, o casamento é uma instituição narrativa.»

    Javier Marías, Coração tão branco (1992), trad. de Fátima Alice Rocha (2013)


    Guilherme P. Henriques

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    1. António Luiz Pacheco16 de abril de 2021 às 05:49

      Despertou-me interesse no romance, este belo excerto... sim!
      Grato pela partilha, e, boa escolha!

      Abraço cá da Cidade Morena e votos de um Extraordinário fim de semana!

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  8. [...] Eu choro como choram os pinheiros para dentro do púcaro de resina sem ninguém dar por isso
    António Lobo Antunes - O Manual dos Inquisidores

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  9. "Quando comecei a pôr vulto no mundo, meus fidalgos, era a porca da vida outra droga. Todas as semanas contavam dias de guarda, armava-se o saricoté nos terreiros. Não andaria Nosso Senhor de terra em terra - eu cá nunca me avistei com ele - mas a verdade é que a neve vinha com os Santos e as cerejas quando largam do ovo os perdigotos. Bebia-se o briol por canadões de pau até que bonda. Um homem mesmo com os dias cheios tinha pena de morrer.
    Não tenho cataratas nos olhos, ainda que me hajam rodado sobre o cadáver quase dois carros de anos, mas os dias de hoje não os conheço. Ponho-me a cismar e não os conheço."

    O Malhadinhas, Aquilino Ribeiro

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    1. António Luiz Pacheco16 de abril de 2021 às 05:43

      Grande escritor... Extraordinária obra!
      Aquilino, e, a alma serrana das Terras do Demo, que tão bem soube incarnar as nossas gentes remotas, pobres e de vidas duras!

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  10. É desta mesmo que começo o Moby Dick. Que excerto fantástico! Por momentos pensei que se referia a Conrad (que tem contos maravilhosos sobre viagens marítimas), porém com um tom um tanto mais trágico e menos cómico.

    Hoje não tenho nada a partilhar, infelizmente, e por isso limito-me a desejar a todos um excelente fim de semana!

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    1. António Luiz Pacheco16 de abril de 2021 às 05:47

      Também o Conrad, sim, que fez das trevas coração!
      Na minha opinião de traça, Melville e a sua baleia branca, são tão imortais quanto a caldeirada de amêijoas e a de bacalhau que Ismael e seu companheiro tatuado vão devorar naquela taberna imortalizada!
      Leia que não vai arrepender-se!
      Bom Fim de Semana!

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  11. Bom dia com alegria

    "O importante, dizia o padre Galiani a Madame d'Épinay, não é curamo-nos, mas vivermos com os nossos males"

    "O mito de Sísifo" - Albert Camus

    Saúde, Bom FdS e Boas Leituras
    cp

    PS: A ler "Fahrenheit 451", de Ray Bradbury, publicado pela Harper Voyager (50th Anniversary Edition"

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  12. " A beleza do cabo da Roca é homeopática e a seita tem razão.É impossível um indivíduo de raça humana ficar indiferente à magnitude, ao drama, à solenidade daquela varanda sobre o Absoluto. A pergunta que imediatamente qualquer pessoa pode fazer ao chegar ao cabo da Roca é a seguinte"Temos nós, os humanos, o direito de estragar a vida do planeta e dos nossos companheiros de espécie com ódios e guerras, com os desastres ecológicos, com os abusos do progresso, com a ignorância e sofreguidão ?"O cabo da Roca responde que não temos o direito".

    in "No Princípio Estava o Mar" -Gonçalo Cadilhe-pág. 220 Clube do Autor 1.ªedição 2011

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  13. Desde que se lembrava, William Stoner tinha tarefas para cumprir. Aos seis anos, ordenhava as vacas escanzeladas, alimentava os porcos na pocilga a uns metros da casa e recolhia os pequenos ovos de um bando de galinhas magricelas.
    Era uma família solitária, da qual ele era o único filho....

    -"STONER' - John Williams - (dos melhores livros que li até hoje).

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  14. Maria João Lourenço

    Não acredito em Deus, mas sinto a Sua Falta. É o que digo quando o tema é abordado. Perguntei ao meu irmão, que ensinou Filosofia em Oxford, em Genebra e na Sorbonne, o que pensava desta afirmação, mas sem revelar que era minha. Ele respondeu com uma palavra: «Lamechice.»
    mjl

    Julian Barnes, Nada a Temer, tradução de Helena Cardoso, Quetzal

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  15. Joaquim Moedas Duarte17 de abril de 2021 às 17:04

    Moby Dick é um dos livros da minha vida.
    Há dias um amigo perguntou-me que livros escolheria se apenas pudesse ficar com seis da minha biblioteca.
    Assim de repente, pois não me deu tampo para reflexão.
    Respondi:

    - O Livro do Desassossego (teria de escolher mais tarde uma das três versões que aqui tenho)
    - Todos os Poemas, de Ruy Belo
    - Moby Dick, de Herman Melville
    - Palmeiras Bravas, de Wiliam Faulkner, trad. de Jorge de Sena
    - Os Maias, de Eça de Queiroz
    - Memórias do Cárcere, de Camilo Castelo Branco

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