Excerto da Quinzena

Deveria ter sido sexta, mas sexta era feriado...


Qual é a nossa história? Tudo está no contar. As histórias são bússolas e arquitectura; navegamos por elas, construímos os nossos santuários e as nossas prisões com elas, e não termos uma história equivale a estarmos perdidos na vastidão do mundo que se espalha em todas as direcções como a tundra árctica e o mar de gelo. Amar alguém é pormo-nos no seu lugar, é pormo-nos na sua história, ou descobrirmos como contar a nós próprios a sua história.


O que significa que um lugar é uma história, e as histórias são geografia, e empatia é antes de mais um acto de imaginação, uma arte de contar histórias, e ainda um modo de viajar de um lugar para outro [...]


Rebecca Solnit, Esta Distante Proximidade (trad. de José Lima)

Comentários

  1. "Hans Castorp quis ver o defunto. Fê-lo por desafio ao sistema vigente de encobrimento, por desprezo para com a atitude egoísta do voltar de costas, do recusar ver e ouvir, por desejar contrariar esse comportamento com o seu gesto. Tentara abordar a morte daquele paciente à mesa, mas deparara com uma rejeição tão obstinada e tão generalizada do tema que se sentira envergonhado e indignado. A senhora Stohr fora até mal-educada. Como se atrevia ele a falar de uma coisa daquelas, perguntara, que educação teria afinal recebido dos pais. O regulamento da casa protegia-os zelosamente, a eles, pacientes, de serem afectados por histórias assim, e eis que agora surgia um fedelho qualquer e punha-se a falar em voz alta daquelas coisas, ainda por cima à hora de servirem o assado e precisamente na presença do doutor Blumenkohl que a qualquer momento podia ser vítima de igual sorte (isto já dito em surdina).
    Thomas Mann- A Montanha Mágica-pág. 330-Dom Quixote-Maio de 2009

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  2. "Marco Polo descreve uma ponte, pedra por pedra.
    -Mas qual é a pedra que sustém a ponte ?-pergunta Kublai Kan.
    -A ponte não é sustida por esta ou por aquela ponte-responde Marco-, mas sim pela linha do arco que elas formam.
    Kublai Kan permanece silencioso, refletindo. Depois acrescenta:
    -Porque me falas das pedras ? É só o arco que me importa.
    Polo responde: - Sem pedras não há arco."

    Excerto retirado do livro intitulado As Cidades Invisíveis, Italo Calvino, tradução de José Colaço Barreiros, 14.ª edição, Outubro de 2011,Teorema.

    AM

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  3. Que bom descobrir uma autora nova para mim e recordar o prazer da leitura de "A Montanha Mágica" e de "As Cidades Invisíveis" !

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  4. «O andar sinuoso é muitas vezes a decoração do acto de caminhar, é um andar adornado. Podemos dirigir-nos convictamente para o nosso objectivo (que também terá a sua beleza, na eficácia, na precisão), mas, se queremos que esse caminho seja feito com alguma diversidade e surpresa, então vamos ter de acrescentar alguma coisa à monotonia fria da recta e ao utilitarismo, vamos ter de acrescentar algumas voltas inesperadas, o insólito, a sensualidade, as curvas e contracurvas. O andar do bêbedo é uma bela parábola para descrever uma vida em que mantemos uma certa direcção, mas não abdicamos de umas voltas para condimentar a austeridade seca e ascética da linha recta. É evidente que a linha recta tem os seus méritos, mas as curvas também. Caberá a cada um de nós saber quando deve correr, dançar ou cambalear.»

    Afonso Cruz, «O macaco bêbedo foi à ópera - da embriaguez à civilização»

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  5. "É muito possível que os fantasmas, se é que ainda existem, tenham por norma contrariar os desejos dos inquilinos, aparecendo se a sua presença não é desejada e ocultando-se se são esperados e solicitados. Apesar de por vezes se ter chegado a alguns acordos, como se sabe graças à documentação acumulada por Lorde Halifax e Lorde Rymer nos anos trinta: um dos casos mais comoventes é o de uma anciã da localidade de Rye, por volta de 1910..."

    Não Mais Amores, Javier Marias (trad. Elsa Castro Neves, Manuel Alberto e Miguel Filipe Mochila)

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  6. Passamos anos fazendo-nos desesperadas perguntas e não sabemos que, à nossa volta, tudo são respostas. Afogados num turbilhão de perguntas, não queremos ou não sabemos ver as respostas contínuas que a natureza nos dá. Poucas vezes aceitamos o mundo tal como é : como uma uma única e clara resposta.

    Harmonia, António Colinas
    (trad. Joaquim M. Palma)
    Assírio & Alvim, 2019

    Bom dia.
    Maria 🌼

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  7. [...] começa-se por levantar a parte do corpo situada em baixo à direita, quase sempre coberta de couro ou camurça e que salvo raras exceções cabe exatamente no degrau. Posta a dita parte - a que para abreviar vamos chamar pé - no primeiro degrau, recolhe-se a parte equivalente da esquerda (igualmente chamada pé, mas que se não deve confundir com o pé atrás citado) e levando-a à altura do pé, continua-se até a colocar no segundo degrau onde se descansará o pé, descansando no primeiro pé. [...]. A coincidência dos nomes entre o pé e o pé torna a explicação difícil. Tenha-se especial cuidado em não levantar ao mesmo tempo o pé e o pé.
    Julio Cortázar - Instruções para Subir uma Escada, in Histórias de Cronópios e de Famas

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  8. Perante a sensação dolorosa e agridoce de viver um mundo em que o valor da cultura foi esquecido para dar lugar ao sensacionalismo acéfalo, fugaz, e alienado, transcrevo o excerto que tive a oportunidade de ler ainda há pouco em Doutor Fausto de Thomas Mann - "A cultura, no fundo, é a incorporação piedosa e ordenadora, diria mesmo, propiciatória da esfera noturna monstruosa no culto dos deuses"

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  9. «Acabo de receber a tua carta. O teu cartão. O teu cheque. Não sei bem que te dizer. Cartas tuas, todos os dias, se quiseres. Cartões também. Cheques, querida menina, faz-me o favor: não repitas. Olha que não é ingratidão, não é mesmo. Estou comovido e impressionado. Mas, Isabel, tenho um vício e um orgulho só aceito aquilo que obtenho por briga, seja ela qual for. Aceito o teu amor, todo, Obtive-o. É o que quero de ti. O teu dinheiro não posso. É teu e és tu quem o obtém. Percebes? Creio que sim. E agora, obrigado mesmo pelo cheque. Aliás veio a calhar, parece que a Jovília tem que ser operada em breve e sabes como são as coisas neste excelso país.
    Eu aqui, desiludido (aliás já é costume), Estou retraído, à espera. Sabes bem que as coisas se fazem até ao fim, ou não se fazem. E por cá tudo vai pelo meio termo. Não aceito um socialismo que o não é, tal como nunca aceitei a tal democracia com escravos e tudo. Talvez eu seja radical demais (ou excessivamente honesto) para entrar no jogo. De jogos, só gosto de poker e aí parece que sou furiosamente bom. Mas só poker, mais nada.
    Demiti-me de tudo. Estou só- Aliás, sempre estive. Agora dizem que sou anarquista, inimigo do Estado. Talvez seja, não sei. O que eu não sou, com certeza, é oportunista.
    Bem, deixemo-nos disto.
    Cá por casa há frio. O malvado Vodka morde em toda a gente. Ainda bem.
    A mãe, muito velhinha e cansada.
    A Jovília continua com análise, biópsias, radiografias. Tem dores e chateia toda a gente. Deve ter que ser operada, não sei a quê. Nem estou interessado em saber.
    Eu, dores de cabeça de manhã à noite, reumatismo excelente e incapaz de escrever. No entanto tenho mesmo de escrever as habituais besteiras para os jornais. Questão de dinheiro, mais nada.»
    Mário-Henrique Leiria em «Depoimentos Escritos», pág. 333, Editorial Estampa, 1997

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  10. "24 De Maio de 1910 — Terça-feira
    O anúncio da última noite de vida na terra, dezanove de maio, trouxe para as ruas mais multidão que uma manifestação republicana. Passei pelo Rossio e subi o Chiado, era um fervilhar de povo curioso, chalaceador e mesmo com o disfarce de falar alto, assustado. Em todas as janelas havia gentes e luzes, alguns apontavam aos céus instrumentos de visão. Os mais crentes e temerosos procuravam as igrejas para viver as últimas horas. Por todo o lado acenderam velas bentas e se encomendaram a Santos e Arcanjos. Os jornais republicanos brincaram com o medo e aconselharam que se alumiassem velas ao S. Borromeu. Houve mesmo um tal Eduardo Luz, que vive no primeiro andar do número quinze da Rua da Oliveirinha que ensaiou a sua morte. Valeu-lhe a família e um guarda, que arrombaram a porta do quarto em que se trancara e conseguiram, no derradeiro instante, aliviar a corda que tinha à volta do pescoço."

    Trata-se da aparição do Cometa. Do livro que me foi oferecido:
    "Diário de Um Carbonário", de Mário Silva Carvalho (Prémio João Gaspar Simões, 212), pág. 527 - Chiado Editora/2014

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    Respostas
    1. O livro apresentada no comentário supra, é meu. Saiu anónimo porque tenho a mania de limpar periodicamente a "cache" e os "cookies" da máquina.

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    2. Quando digo que é meu, não significa ser da minha autoria - é da minha posse um exemplar. E não é "apresentada" porque é "apresentado", uma vez que livro não é a mesma coisa que livra.
      Hoje não dou uma para a caixa. É o que faz o confinamento...

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  11. Bom dia com alegria e pandemia

    "Estuda e saberás
    Trabalha e terás"

    "Semeia e cria
    E terás alegria"

    Lido nuns ajulezos da Escola Primária das Azenhas do Mar

    Saúde e boas leituras
    cp

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  12. «Sempre e sempre a pé fizesse frio ou calor, fosse noite ou fosse dia. Rómulo evitava os transportes públicos, não tinha automóvel nem sequer carta de condução. Percorreu quilómetros sem fim nesta cidade de Lisboa para todo o lado onde podia deslocar-se a pé.
    Houve um período em que todos os domingos da parte da tarde saía com a sua máquina fotográfica a tiracolo. Demorava-se umas horas. E um dia, apareceu publicado um grande livro, um álbum chamado Memória de Lisboa. Entre tantas das suas notáveis e diversas atividades, Rómulo foi também fotógrafo amador e, da cidade de Lisboa, que tanto amou, desde a Sé à Torre de Belém, de Alcântara ao cais das Colunas, guardou todas as imagens possíveis do seu rio Tejo. Das ruas, de monumentos, de pormenores, de pessoas, da luz de todos os dias, dos pingos da chuva no calcário dos passeios.»

    Cristina Carvalho em "Rómulo de Carvalho/António Gedeão, Príncipe Perfeito"

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