A culpa é do biógrafo
Como anunciei oportunamente, as minhas crónicas sob o título genérico Adeus, Futuro foram reunidas num livro publicado recentemente. Porém, se ainda estivessem a sair no Diário de Notícias aos sábados, estou certa de que teria escrito mais uma na semana passada pois o tema combinaria muito bem com a minha indignação. Desta feita, a escandaleira tem que ver com a biografia de Philip Roth escrita por Blake Bailey. Quem leu Roth e quem leu sobre Roth sabe muito bem que não era nenhum santinho e que, se fosse vivo, não escaparia quase de certeza a uns insultos femininos sobre a forma como tratou as mulheres nos seus romances (e também na vida real, segundo atestou, de resto, a sua ex-mulher). Como ainda não li a biografia que Bailey lhe dedica, não sei como Roth é tratado pelo biógrafo, mas tenho conhecimento de que se trata de uma biografia «autorizada». No entanto, li a notícia de que, já depois de ter sido posta à venda e registar bastante sucesso, estava prevista uma reedição cuja distribuição foi retida nos armazéns da editora... E porquê? Bem, a razão nem sequer tem que ver com a vida de Roth, mas afinal com a do senhor Bailey... É isso mesmo: o biógrafo acaba de ser acusado de assediar sexualmente duas raparigas no tempo em que foi professor, e o editor da biografia, diante das acusações que nada têm que ver com a obra em causa, decidiu mesmo assim prejudicar a memória de Philip Roth e a curiosidade dos leitores do génio não deixando sair dos armazéns mais exemplares... Claro que acho um horror qualquer professor assediar alunas, mas esse assunto deve ser tratado pelas competentes instâncias e fora do âmbito da literatura. Com ou sem crónica, só me ocorre dizer de novo: Adeus, futuro.
P. S. Logo às 21h30 vou estar a conversar com Tito Couto no âmbito do Ler Olhos nos Olhos, que pode ser visto e ouvido na página de Facebook do Município de Oeiras.

Dele só li O Complexo de Portnoy; para já não estou interessado na biografia .Disseram maravilhas da Pastoral Americana, mas nem esse li. Se não lhe deram o Nobel, eterno candidato, por alguma razão foi!
ResponderEliminarNão conheço o homem Roth mas conheço o Roth escritor e era um grande escritor.
ResponderEliminarLi quase todos os seus livros e gostei de todos mas "A pastoral Americana" foi o que mais gostei, "A conspiração contra a América" é muito bom e para além destes não deixem de ler "A mancha humana", "Teatro de Sabath", sinceramente recomendo todos, que grande escritor e juro que cantava melhor que o Bob Dylan...
Esta geração acha-se no direito e com competência para julgar tudo e um par de botas. Bom seria que se julgasse a si mesma pelo afã de comprar coisas, pelo seu comportamento de ter artefactos electrónicos em excesso e desfazer-se deles com leviandade provocando uma hecatombe ecologica e aplicasse as suas energias a combater um flagelo do seu tempo, a fabricação de notícias falsas, uma das responsáveis pelo seu ebganador sentimento de superioridade.
ResponderEliminarConcordo em absoluto. Mas não consigo gostar de Roth. Li a Pastoral Americana e achei um pastel desinteressantíssimo. A minha irmã é fã e emprestou-me outros livros dele, que devo ter ainda nas minhas estantes. Li as sinopses, folheei os livros, e nada me interessou suficientemente até hoje, para a ele regressar. Há alguns meses passou a Pastoral na televisão e decidi dar-lhe o benefício da dúvida, mas hoje já nem me lembro novamente da história. Mas o que é que tanta gente, em cujo gosto confio, vê de tão especial naquele autor? Enfim, gostos não se discutem. Talvez leia a biografia, a ver se descubro uma razão.
EliminarFilipa
Gostei muito de ler Roth, e tenciono fazê-lo até que se me acabe o "material". Não obstante, reconheço uma tendência circular nos temas, uma repetitividade um tanto cansativa e penosa, particularmente para quem o lê na perspetiva feminina. Creio sempre que o escritor vale pela obra, e não pelo que foi, ou é, e a lucidez cruel com que Roth retratou a puberdade masculina no complexo de portnoy ficar-me-á gravada para sempre com uma misto de gratidão e simpatia. Quanto ao biógrafo, não li, e por isso não posso falar.
ResponderEliminarMais um boi no meio da boiada. Por acaso se o literato discrimina, logo o conjunto da obra se lhe valem coices.
ResponderEliminarBom dia com alegria
ResponderEliminarI'm flabbergasted!!!
Ou como diria a minha tia Vivelina, na sua doce boçalidade: "O que é que o cu tem a ver com as calças?"
Saúde e boas leituras
cp
Ahahahaha!
EliminarSó agora é que aqui cheguei e comecei a ler e fiquei logo a pensar na expressão usada pelo C. P., da sua tia Vivelina.
EliminarJá começo a estar cansado da mistura que gostam de fazer entre o escritor e o ser humano. Da incapacidade de separarem a Arte da Vida.
Na verdade, começa a fazer-me asco esta actual tendência, profundamente hipócrita porém sobretudo insana e insensata, de perseguir qualquer um pelas mais variadas e até justas razões, mas que revelam apenas uma desmedida ânsia persecutória, pidesca, que na minha óptica são a prova de que ficou plantada a semente da Inquisição, hoje regada e renascida pelos novos censores e inquisidores, que tratam de ajustar contas tão antigas que deviam ter sido ultrapassadas numa prova verdadeira de autêntica evolução, de tolerância e civilidade!
ResponderEliminarEle são os maus tratos aos animais, eles são os homossexuais, as feministas, os ditos refugiados, as minorias, a história, tudo a ser aproveitado por um bando de oportunistas radicais e extremistas que pretendem impôr uma ditadura das minorias, ao seu gosto e em seu proveito... irra, que já CHEGA!
Pronto é o que me apetece dizer!
Já disse e repito, que é preciso separar o autor da obra!
A arte é o que nos encanta, não é o artista! Quem não o percebe e consegue distinguir, fazer a separação, não é digno nem capaz de apreciar a arte em si, é apenas um triste e sombrio censor. Um invejoso e doentio inquisidor que reflecte nos outros as suas frustrações ou inadaptação, achando que assim exorciza os seu próprios fantasmas.
Lamento que haja quem, em posições de responsabilidade e decisão, falhe desse modo como se relata aqui... agora a culpa é do biógrafo? Mata-se o mensageiro?
Haja Deus, porque está visto que os homens não vão lá!
Saudações, tristes e iradas, cá da Cidade Morena:
PS - Acabo de vir do funeral do meu jovem amigo Quinzinho: 19 anos generosos, bonitos, alegres, prestáveis e simpáticos, animados. Sobrinho do meu velho amigo João Mestre, de uma família que são da melhor gente que há em Benguela. Sempre acompanhava o tio e a mim, nas nossas mergulhaças atrás dos peixes ali na Ponta do Sombreiro, acompanhei o seu desenvolvimento e vi-o crescer, o Quinzinho era um promissor mergulhador. Morreu na Segunda-feira, num acidente de mergulho quando dava apoio ao tio que estava a fazer um trabalho no casco de um barco de pesca. É triste, muito triste, vai-se um jovem bom, quando ficam vivos tantos estupores que não fazem cá falta nenhuma! Sou dos que acreditam que tudo acontece por uma razão... mas por vezes não consigo entender qual a razão para acontecerem certas coisas.
Uma tristeza, uma morte dessas. Um abraço solidário, António, pela perda do seu amigo.
EliminarA obra de arte, incluindo a livresca, é um mundo único que flui no Tempo e no Espaço .
ResponderEliminarO ser humano , escritor, editor, autor ,.. é outro mundo único pertença da humanidade.
Há instâncias próprias que julgam e decidem sobre prática de um acto criminoso .
Mas , há também a Reinserção Social e a melhoria do ser humano.
E há obras de arte maravilhosas criadas por pessoas que praticaram crimes.
Quem pisar /andar sobre a calçada lisboeta estará, mesmo sem o querer, a usufruir de uma
criação contributiva obrigatória de seres humanos, ao tempo prisioneiros.
E há a "Poesia atrás das Grades" um projecto que no terreno da reclusão busca o belo e promove a leitura.
Não deixo de ler um livro porque foi escrito ou editado por alguém que praticou um crime.
AM
Extraordinário AM, presumo que seja "são", isso mesmo, uma pessoa sã, apenas e só!
EliminarÉ o que interessa, e, é o que transparece das suas sensatas palavras.
São, não é santo... santos são aqueles seres superiores e ideais, em que não acredito, aliás todos acabam por ter "pés de barro". Nós, seres humanos devemos ser sãos, isso sim, de corpo e de espírito. Pelo nosso bem e pelo bem de todos.
Os artistas são uma espécie de "santos", de extraterrestres, que se destacam pela sua arte e génio, nem tudo lhes é permitido se bem que muita coisa se lhes desculpe, sabemos que são diferentes, incomuns, raros e muitas vezes perturbados. O que deles transborda são as suas obras, é o que avaliamos, celebramos, apreciamos. É o que deles fica...
Lê-se: Rua António Botto (poeta) . Não se lê (homossexual) , como não se lê noutras, (pedófilo), (opiómano) , (alcoólico), (mulherengo) , (ninfomaníaca) , (cocainómana), (gordo) , (boazona) , (tinha olhos verdes) , em nenhuma rua ou praça com nome de artista!
Isto de renegar, apoucar ou tentar obliterar os artistas pelos seus defeitos, é das maiores baixezas morais que há!
Se for caso disso, julguem-se em vida pelos seus crimes. Condene-se a pessoa, mas não a obra. Se estiverem mortos, pois deixem-nos estar... se não se esconde o que foram, continua a não dever-se denegrir a sua obra. Muitos deles foram pessoas que sofreram toda a sua vida, por serem inadaptados, injustiçados, incompreendidos, vítimas da fraqueza que os consumia, e, dos seus vícios, fruto do desequilíbrio e sofrimento. Consequência da sua genialidade e arte, que os fez diferentes e por causa disso produziram obras que os elevaram a uma categoria aparte. Transmitindo-nos o que nos faz sentir bem, como só eles são capazes. O resto pouco interessa, quem nunca pecou que atire a primeira pedra disse aquele a quem crucificaram depois.
Abraço saudável e humano cá da Cidade Morena!
Gostei bastante de "O Complexo de Portnoy", o único livro que li de Roth, onde ele desconstrói a sua obsessão sexual. Não me admira que tratasse mal as mulheres, na vida real, o que é lamentável. Mas o facto de ele ter tentado desconstruir essa sua tendência, abona a seu favor. Até porque ele caracterizou essa sua obsessão como algo prejudicial (também para ele próprio).
ResponderEliminarQuanto ao biógrafo, li que recebeu, adiantado, cerca de um milhão de dólares pelo seu livro. Por isso, não lhe fará grande mossa, esta retenção. A mim também não faz grande mossa, sinceramente. Mas talvez a melhor solução seria continuar a vender a obra, retirando-lhe os direitos autorais, que remeteriam para o apoio de vítimas de abusos sexuais.
Esta coisa dos assédios tem muito que se lhe diga. Basta uma mulher afirmar e o tipo está frito.
ResponderEliminarAcontece que o meu pai e a minha mão eram bastardos, os dois. Isto é, os meus dois avôs (paterno e materno) assediaram as minhas duas avós. Que penso eu? Como gosto de viver, acho que fizeram bem. Se não o tivessem feito eu não existiria. Hoje sou idoso e muita gente dirá que sou uma besta por dizer isto. Não me importo, estou vivo e de saúde (até já recebi as duas doses da vacina). Se eu dissesse isto durante o Maio de 68 os nomes que me chamariam seriam outros, de certeza. Daqui a umas décadas (não não serei vivo) se alguém ler isto que me chamará? Não sei, muito provavelmente esta obsessão do sexo terá sido esquecida e haverá outras.
É esquisito que ninguém comente
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