Viver e morrer

Vi tanta gente a elogiar que não consegui resistir. E fiz bem, porque de facto não se deve morrer sem ter lido o norueguês Jon Fosse, dramaturgo, poeta e ficcionista, já comparado a  Ibsen e Beckett e, pelos vistos, muitas vezes pensado para o Nobel. A literatura nórdica (de que cá, infelizmente, se publicam praticamente só os policiais de sucesso internacional) tem destas surpresas e Manhã e Noite é seguramente uma delas. Assistimos antes de tudo ao nascimento de um menino, Johannes, cujo nervosíssimo pai é pescador, num lugar que imediatamente sabemos pobre e simples. E depois veremos acordar um Johannes velho e cansado, que já pouco pesca, viúvo, numa espécie de sonho em que tudo é estranhamente leve ou estranhamente pesado para então descobrirmos, como num novelo desfeito, o que foi a sua vida: os filhos, a pescaria, a forma como conheceu a mulher e como ela lhe morreu, a beleza do mar e o frio dos caminhos, o melhor amigo (Peter) que o salvou de morrer afogado e lhe cortava o cabelo para poupar dinheiro. Mas esse amigo também já morreu, embora lhe apareça nessa manhã com o barco cheio de caranguejos para vender no mercado e o conduza para o alto mar uma última vez, rumo à noite escura, como se o levasse de volta ao ventre materno. Muito bonito, não percam. A tradução é de Manuel Alberto Vieira.

Comentários

  1. Muito bonito mesmo! Poético, simples e profundo.

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  2. António Luiz Pacheco21 de janeiro de 2021 às 02:22

    Pois, promete... lembra-me "O pescador da Islândia".
    Não tenho lido muitos autores "nórdicos", na verdade, e, leio pouco policial.
    Este parece-me que o vou procurar.

    Saudações cá do Bairro Ribatejano, chuvoso.

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  3. Sem dúvida, uma literatura pouco divulgada por cá e absolutamente desconhecida por mim, que não leio policiais. Obrigado, pois parece ser uma boa sugestão para começar.

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  4. Já li o livro e asseguro que é, de facto, belo. Com uma prosa poética fascinante. Andei a lê-lo muito devagar só para não chegar ao fim!

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  5. Anónima é que não: Carla Pais

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  6. Bom dia Rosário e todas as pessoas!

    Para quem ama, desde sempre, a chamada literatura nórdica, - o meu caso - fica e ainda mais uma vez deslumbrada com este escritor Jon Fosse que já conhecia de outros livros sem ser este " Manhã e Noite". Este livro, curto, sentimental ao extremo, revelador de um certo espírito humano que coexiste em qualquer parte do mundo - esta descrição é passada numa ilha ao norte da Noruega, mas podia ter exactamente o mesmo sentido se fosse passado num deserto ou numa floresta, desde que houvesse humanos - tem uma cadência à qual não estamos habituados, um tom embalado sequencial, uma sequência absolutamente lógica do começo da vida e logo da morte com alguns acontecimentos no seu percurso, tudo natural, tudo elevado à potência mais simples que existe.
    Uma vida é o que aqui se conta com seu maravilhamento, descoberta, surpresa, angústia, medo e tristeza. E que nos parece tão curta, essa vida!
    A linguagem não pode ser mais simples, por isso tão complexa mais não seja pela surpresa que causa uma pontuação - tudo o que anima um texto - estranha, inusitada e que obriga o leitor a uma muito maior atenção.

    Neste estilo conheço alguns extarordinários escritores islandeses, conheço os ainda mais extraordinários escritores suecos - tenho preferência acentuada pelos do século XIX - os noruegueses, enfim, os escritores escandinavos em geral.
    A sua luz é diferente, como tudo é diferente daqui para ali em qualquer parte do mundo. Cabe-nos apreciar e saber ler este tipo de latitude literária.

    Gabo-me de conhecer relativamente bem o estilo de literatura nórdica. Não é para levar a mal. É só um gosto meu desde pequena que tenho alimentado ao longo da vida. Talvez eu sofra de Anemoia, quem sabe?
    E não, nunca li nenhum policial nórdico. Gosto do género, mas prefiro outros géneros.


    "Manhã e Noite" é um livro excepcional

    Cristina Carvalho

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    Respostas
    1. António Luiz Pacheco21 de janeiro de 2021 às 11:26

      Olha... anemoia?
      Sempre me sai com cada uma! Também não conhecia o termo, mas foi bom aprender pois e para que conste, eu sofro manifestamente de anemoia! Em relação ao século XIX!
      Quanto à literatura "nórdica" (ou escandinava?) , é sem dúvida nenhuma a sua horta!

      Saudações saudáveis cá do Bairro Ribatejano aí para a Ir'cêra!

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    2. Meu bom amigo António Luiz Pacheco,

      Eu não sei que século será, mas também me inclino bastante para o XIX :) Isto, relativamente à anemoia.

      Quando quiser leituras da minha horta, diga, faxabuore!

      CC

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  7. Bom dia com alegria e pandemia

    Já ganhei o dia:

    1 - mais um livro para lista de desejos
    2 - mais uma palavra para o caderno dos significados

    anemoia - n. nostalgia for a time you've never known

    Muito agradecido

    Boas leituras
    cp

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  8. Vou ler , já encomendei ... espero q seja assim tão bom .

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  9. Cara Maria do Rosário Pedreira,
    Não é para comentar o seu post sobre o livro "Manhã e noite". É apenas para lhe dizer que gosto muito do seu blog, que sigo há bastante tempo, assim como das crónicas semanais que escrevia no DN. Também lhe queria agradecer pela entrevista radiofónica que deu, creio que no mês passado, onde tocou em muitos aspectos que também são problemas aqui em Moçambique (mas aqui em escala muito maior, infelizmente). Nessa entrevista, ouvi-a dizer o poema "As anjas" e o entrevistador a dizer outro seu poema, creio que se chama "Vamos ser velhos sozinhos", comovi-me com os dois, belíssimos, divulgueu-os entre os meus amigos. Era só isto que lhe queria dizer, muito obrigado.
    Álvaro Carmo Vaz, Maputo

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