Liberdade para os leitores
O nosso Extraordinário Fernando Costa, assíduo frequentador e comentador deste blogue, enviou-me por e-mail um link para um artigo da Sapo 24 que, quanto a ele, merecia ser partilhado aqui no «salão». E merece! Diz respeito a uma proposta feita ao Governo de Moçambique pela Associação dos Antigos Alunos da Escola Secundária Francisco Manyanga para reduzir algumas penas de prisão em, no máximo, 48 dias anuais, especialmente porque os estabelecimentos prisionais se encontram sobrelotados (o que é, como sabemos, um convite a mais violência) e, ao que parece, Moçambique ainda não tem a regra das pulseiras e dos detidos em prisão domiciliária E em que consiste a proposta? Pois bem, pura e simplesmente, em ler! Sim, ler livros. Cada recluso deve ler um livro e fazer por escrito o seu resumo; e, se este efectivamente corresponder à obra, terá menos quatro dias de pena a cumprir. Se ler um livrinho por mês, não só ganhará hábitos de leitura (com tudo o que isso implica para o seu futuro) como ficará menos mês e meio preso. Obrigada, Fernando, pela partilha desta notícia! Veremos o que decidem os governantes moçambicanos.
Vejamos , é uma boa notícia, e uma forma eventual de divulgar a leitura!
ResponderEliminarPorém faço algumas observações:
-1º É preciso que haja livros… falo do que sei, acreditem e não se riam!
-2º Deveriam estar excluídos da medida os criminosos violentos, contumazes e similares, apenas abrangendo os que fossem considerados recuperáveis, coisa que também me faz duvidar, conhecendo as autoridades em questão…
-3º Substituir prisão pela leitura… numa primeira abordagem não será pouco lisonjeiro para a leitura? Quero dizer, é uma punição? Ou antes deve ser vista como um forma de redenção, de educar?
Creio que será esta a perspectiva, e acho que vale a pena fazer essa experiência, o que me leva ao ponto 2. E, acrescento: é na escola que a educação deve começar, de pequenino se torce o pepino, na cadeia pode já ser tarde.
Mas é uma medida curiosa… da qual duvido por razões de pragmatismo, no entanto cai bem, e é mesmo Extraordinária!
Se cá fizessem o mesmo, muitos de nós nem seríamos presos, eheheh!
Uma boa notícia para começar a semana, viva a leitura!
Leia-se, eduque-se e espalhe-se a mensagem.
Ó Extraordinário Pacheco, lembro-me daquela frase que os nazis mandaram colocar no campo de concentração e extermínio de Auschwitz - Arbeit macht frei (O trabalho liberta) – que não é mais do que parte do título de uma obra de Lorenz Diefenbach. E lembrei-me dessa frase porque, se não pretendo comparar aqueles campos nazis às prisões, por razões óbvias, achei que mais apropriado seria colocar um letreiro nas bibliotecas destes estabelecimentos, o qual dissesse – A leitura liberta.
EliminarA leitura é, de facto, uma janela de liberdade, não só para os que se encontram dentro como para os que se encontram fora dos presídios. Ler é viajar, é colocar o pensamento e a imaginação em sítios onde não há proibições, passaportes ou quaisquer tipos de restrições.
Sobre o caso em apreço: se resulta ou não, é uma curiosa tentativa de criar uma actividade positiva em meio de clausura, talvez até como forma de recuperação daquele que cumpre uma pena criminal. Não há reclusos que estudam nas prisões e acabam por tirar uma licenciatura? É natural que muitos o façam para abreviar o período da pena, porque isso indicia bom comportamento, mas não é isso que inquina o objectivo.
Será curial e pertinente saber que tipo de leituras existirá nessas bibliotecas, porquanto se a leitura liberta, poderá ocasionalmente e em casos de deturpação dos princípios, ajudar a criar mais problemas. Não estou a ver, ó Pacheco, que ali possa existir o “Manual de Assaltar Bancos e Cofres” ou “Como Iludir a Investigação em caso de Crime”. Bem… Julgo eu, porque às tantas!...
Cumprimentos livres do Planalto para a Cidade Morena, directamente para o Extraordinário Pacheco
Caríssimo e Extraordinário Fernando Costa: Inteiramente de acordo com o que diz!
EliminarEm toda a linha.
No entanto, e porque tenho uma noção dos delinquentes detidos nas cadeias africanas, muito pragmaticamente duvido da medida… a grande maioria nem ler sabe, e começa por aí… os que pouco saibam ler, duvido que tenham a noção ou façam uma pequena idéia, do que é um livro, para que serve e o que dele se obtém.
Note que não estou a menosprezar ou a diminuir as pessoas de que falamos, mas sim a ser realista quanto à sua formação, pois é gente de estratos sociais muito baixos e até muito pouco evoluída, que são os que praticam a maioria dos crimes, de roubos de gado, caça furtiva, e coisas do género. É gente muitíssimo simples, básica.
Os assassinos ou criminosos violentos, esses estarão de fora… falamos certamente da pequena criminalidade, feita até pelas circunstâncias a que são muitas vezes levados os pobres e os necessitados, e esses são quase sempre iletrados.
Claro que haverá outros presos, com outro nível intelectual, a quem a pena se aplique e sirva… mas serão muito poucos.
Este assunto é um tema de conversa interessante, até. Mas aquilo que seria interessante aplicar num estrato mais letrado, não me parece que seja de efeito em Moçambique concretamente.
Num projecto em que trabalhei ali, em Cabo Delgado, combatíamos o furtivismo indo aos acampamentos deles no mato fazer a sua detenção. Depois seguiam para Montepuez, para a polícia… seriam presos a aguardar julgamento e aquilo era dantesco em processo e condições, não se imagina! Chegámos logo à conclusão de que era perder tempo e pior, eram uns mortos de fome a quem a própria polícia entregava duas armas obsoletas, sempre as mesmas, que apreendíamos até as danificarmos, e, caçavam e secavam carne para um "monhé" que os mantinha e pagava. A solução foi, prendê-los e em vez de os mandar para a cadeia, de onde voltariam em duas semanas, mais famintos e andrajosos para o mesmo, propor-lhes ficarem ali a trabalhar abrindo picada (por contrato a empresa tinha de manter as picadas existentes na concessão e abrir 50 Km de picada nova por ano) e fazendo outros serviços do género. Recebiam alimentação e um pequeno ordenado, melhor do que caçarem e secarem a carne. Todos aceitavam! Assim se minimizou um problema, e a cadeia de Montepuez (onde morreram de uma assentada 50 e tal presos por excesso de lotação) ficou mais aliviada. Nós também, pois nunca tivemos vocação para policias!
Aqui, temos um problema semelhante, com roubos de gado organizados e caça furtiva também organizada por compradores de fora… há que andar atrás deles, a prender gente que no fundo nem é culpada, pois a um mucuíço iletrado que vive no mato e só sabe caçar e colher mel, como explicar-lhe o conceito de não poder caçar? Ainda que para vender… a solução sugerida por mim e baseada na experiência, foi idêntica… os maiores furtivos, que agem em grupo familiar e se escondem uns aos outros, foram nomeados "fiscais" de caça, e são pagos, recebem comida também. Foi a maneira de os pôr do nosso lado, e é-lhes permitido caçar pequenos animais para comer!
Enfim, as coisas por cá muitas vezes ainda são assim… lembro-me do pisteiro Comprido, a fazer cigarros com folhas de papel impresso a minha mulher foi investigar: eram páginas dos livros da escola dos filhos dele!
Grande abraço!
São memóri
Regressado à escola após alguns anos de outras actividades eis que me deparo com uma realidade que reflecte o estado da nossa sociedade.
ResponderEliminarMiúdos completamente desmotivados, para quem a escola serve para pouco mais do que para socializar - muitos (mas mesmo muitos) dizendo até que preferiam ficar em casa e a quem a escola pouco ou nada diz. Será que isto podia adaptar-se aos alunos Portugueses? «Ficas em casa e por cada livro que leres, analisares, resumires ficas dispensado da escola que dizes ser uma seca!»
Ó Fernando Costa perdoe-me que lhe faça esta pergunta que, acredite, não tem nada de provocatório muito menos de vexatório nem tão pouco pretende ser dissuasora da sua proposta: o Fernando vive em que planeta? Se calhar no mesmo que eu e onde habitarão não mais de meia dúzia de sonhadores extraordinários.
ResponderEliminarE como eu concordo com o que diz porque também penso assim: Ler é viajar, é colocar o pensamento e a imaginação em sítios onde não há proibições, passaportes ou quaisquer tipos de restrições -acrescento eu: para os que lêem!
O problema é que, porventura, e colocando os pés assentes na terra, em Portugal uma em cada dez mil pessoas (estou a ser optimista) lêem (faço idéia em Moçambique...)
Abraço
Creiam-me, Extraordinários António Pacheco, Pedro Sande e Seve, que as vossas considerações sobre o tema são inteiramente pertinentes e factuais. Por isso, em vez de responder no reporte ao vosso comentário individualizado, faço-o em comentário geral, se não me levarem a mal.
ResponderEliminarO Pacheco não exagera quando diz que a maior parte da criminalidade africana, mormente nos pequenos e médios delitos, é analfabeta ou pouco longe disso. Seria então altura para, nas cadeias, haver uma espécie de escola que os ensinasse a ler e a escrever, quem sabe até para lhes proporcionar outro nível de vida após a libertação. Partindo do princípio que há aqui um círculo vicioso – é delinquente porque não é culto e é inculto porque é delinquente – é meio caminho andado para o status quo, deixar tudo como está – princípios ruins, desgraçados fins.
Já o Extraordinário Pedro Sande considera que o benefício, se aplicado aos alunos não-alunos, faria com que eles abdicassem mais de aprender. Ora, na minha maneira de ver, os prémios devem ser incentivo para quem quer evoluir, trabalhar, estudar, não para os caturras que se querem servir deles para deixarem de seguir esses fins.
Quanto ao Extraordinário Seve, que já me vê a seguir numa nave que partiu do Centro Espacial John F. Kennedy, direi que a estatística dos não-leitores que referiu estará muito perto da realidade – e, se peca, será por defeito – mas qualquer acto que envolva a leitura terá sempre o meu apreço.
Ó Seve, para além de não levar a mal o seu comentário, ainda lhe digo que tem razão – em certas alturas do dia, quando leio, não fico neste planeta; regresso quando me chamam para a mesa ou quando retine o telemóvel.
Finalmente, nem sempre as prisões são tugúrio de incultura. Vejam-se estes exemplos, se bem que alguns já escritores quando entraram:
Marco Polo ditou ao companheiro de cela Rusticiano os capítulos da obra “Livro das Maravilhas”.
As histórias do rei Artur e dos Cavaleiros da Távora Redonda, escritas em 1469, de Thomas Malory, foram por este escritas na prisão de Londres, onde morreu.
“Memórias do Cárcere” do brasileiro Graciliano Ramos e “Amor de Perdição”, de Camilo (que aproveitou para escrever ainda que posteriormente “Memórias do Cárcere”) foram, escritas na prisão.
O “Dom Quixote“, também teve o seu início quando Miguel de Cervantes foi preso em 1597 em Servilha, e durante três meses em que esteve encarcerado o concluiu.
Voltaire escreveu o poema épico “Henríade” nos onze meses preso na Bastilha.
Preferia omitir o “Mein Kampf”, de Hitler, também escrito entre grades, só não o fazendo para dizer que nem ele nem o livro deviam ter saído de lá.
Quanto ao “prémio” de ler ou escrever na cadeia, temos o John Cleland, o qual estando preso por dívidas, aceitou a proposta de escrever “Fanny Hill” para conseguir a liberdade.
Não quero com estes exemplos dizer que é nas cadeias que se solta a imaginação, nem que os exemplos apontados correspondam ao grande número do tipo de reclusos encarcerados. Só direi que o incentivo à leitura – mesmo que nos pareça ridículo e nada prático, como o apontado em Moçambique – é sempre de enfatizar. Como diz o aforismo – “nada fazer, é fazer mal”.
Bom, e, Camões? Não escreveu boa parte d'Os Lusíadas sob prisão? Se bem me recordo…
EliminarCreio que uma qualquer ONG dessas que pululam e muitas vezes são inúteis e quase sempre uma forma de gastar recursos, deveria dedicar-se a escolarizar os detentos nas cadeias!
Isso é que era Extraordinário!
Vai boa a nossa conversa, que deveria acontecer sentados a uma mesa… se é que me entendem, eheheh!
Aqui são 22.44 h e cheguei agora da fazenda do Carivo (é uma lindíssima planta deste mato seco do muxito (espinheiras) , vou comer qualquer coisa e dormir, mas não resisti a vir aqui dar uma última espreitadela… e imaginem: O maior furtivo ali da zona, ao atravessar o rio, de noite, para ir caçar, ali bem em frente da casa, foi apanhado por um crocodilo, e morreu! Pior foi o filho de um pastor ter morrido por mordida uma n'goroca (naja africana).
Por aqui ainda é assim… e não estou a ficcionar.
Enfim, memórias como bem diz o Fernando!
Abraço a todos, temos de nos juntar a uma mesa um dia, para falarmos destas coisas!