O senhor Eco

Eco dizia coisas inesquecíveis, entre as quais recordo duas frases geniais. Uma delas dizia respeito ao facto de as redes sociais serem a invenção que  deu voz a todos os imbecis que antes estavam caladinhos e inibidos de abrir a boca; a outra que, se a China inteira usasse papel higiénico, já não tínhamos planeta. Mas, no que tem que ver com o que nos une aqui no blogue, li recentemente uma outra, que alguém partilhou no Facebook, que é mesmo interessante para complementar aquilo que há dias escrevi sobre o fio narrativo e a imagem do colar fornecida por Eugénio Lisboa. Ora leiam: «Eu penso que, para criar uma história, é necessário, antes de mais nada, construir um mundo, o mais «mobilado» possível, até aos mais pequenos pormenores. Se eu construir um rio com duas margens e se, na margem esquerda, puser um pescador, se atribuir a esse pescador um temperamento irascível e um cadastro não muito limpo, pronto, poderei começar a escrever, traduzindo em palavras o que não pode deixar de acontecer. Que faz um pescador? Pesca (e eis uma sequência completa de gestos mais ou menos inevitáveis). E depois que se passa? Ou o peixe morde, ou não morde. Se morde, o pescador agarra os peixes e volta para casa todo contente. Fim da história. Se não morde, e dado que se trata de alguém irascível, talvez se encolerize. Talvez parta a cana de pesca. Não é grande coisa, mas já é um começo. Ora, há um provérbio indiano que diz: "Senta-te na margem do rio e espera, o cadáver do teu inimigo não tardará a passar." E se, arrastado pela corrente, passasse um cadáver, já que esta possibilidade está contida na área intertextual do rio? Não esqueçamos que o meu pescador tem um cadastro carregado. Quererá correr o risco de se meter em maus lençóis? Que fará? Fugirá, fingirá não ver o cadáver? Sentirá pesar sobre si todas as suspeitas, pois que, seja como for, este é o cadáver do homem que ele odiava? Irascível como é, irritar-se-á por não ter sido ele a realizar a vingança ardentemente desejada? Como vêem, bastou «mobilar» o mundo com quase nada e logo nasceu o começo de uma história. E também o começo de um estilo, porque um pescador a pescar deveria impor um ritmo narrativo lento, fluvial, o da espera paciente, mas também o dos sobressaltos da sua impaciente irritabilidade. Basta construir um mundo, as palavras vêm a seguir, quase sozinhas: Rem tene, verba sequentur.» Quem sabe sabe.


 

Comentários

  1. Quem trabalharia muito bem esse argumento é o nosso cônsul na Cidade Morena, o Extraordinário e talentoso Pacheco. É pescador, nos rios e nos mares, também caçador, é um homem que está preparado para esperar. E com grande dose de paciência e ponderação. Certamente, nesses períodos de pesca (mais nesta do que na caça), construirá os seus argumentos, desenvolverá as suas histórias, as quais mereciam ser passadas ao papel, se ele as mantivesse na memória até ao fim desses dias.
    Um grande abraço para o Pacheco, com a esperança que não se melindre por eu abusar da sua imagem para comentar este curioso artigo da nossa Anfitriã.

    ResponderEliminar
    Respostas
    1. Retribuo o abraço, e considero-me distinguido pelo facto de se lembrar de mim, quanto mais agora pelos encómios que me tece…
      E já agora, interpreta muitíssimo bem, porque sobretudo na pesca, em muitas horas na água tende-se a filosofar sim, a discorrer. Na caça também, porque as sensações que nela se produzem, apesar de as sensibilidades não serem todas iguais, também nos enchem tanto a idéia quanto a alma… Torga (entre outros) é exemplo disso…

      Escrevi uma vez algures:
      "Com o Domingo ao leme, sempre calado, varamos o lusco-fusco rumando à Ponta das Ferreiras, o ronronar do motor e o chapinhar do casco, abafados pelo guinchar das milhentas aves marinhas que já dão caça às sardinhas, empurradas para a superfície sabe-se lá por quem, bombardeadas por garajaus, negrinhas, gaivotas e cagarras. Eu sentado na proa, também em silêncio, recolhido como cavaleiro na vigília antes do combate, matutando nestas coisas que vos vou contando e contarei. É para mim o local e a hora propícios à filosofia, algum salpico atinge-me na cara e às vezes na boca, sinto aquele sabor amargo do mar de Angola, diferente do de outros mares que provei pelo Mundo fora. "
      ….
      "Recolho a bóia e retornámos à Equimina na satisfação plena da certeza de que o melhor em existir é fazer estas coisas!
      Se na vinda o silêncio era de recolhimento, no regresso é do cansaço. Foi como um acto religioso, pescar e sentir a solidão esmagadora, só eu e o mar imenso."

      Creio que me compreende!
      Grande abraço cá de debaixo das floridas acácias, rubras!



      Eliminar
    2. Texto bonito e sugestivo, ó Pacheco. Vibrante na descrição, sem necessidade de ser longo, quase que nos falta sentir a sensação dos salpicos da água da proa.
      De facto, um criativo é um sonhador. Tem ainda a particularidade de estar permanentemente em serviço.

      Eliminar
  2. Genial ! Ao sábio Eco, juntou-se, como sabemos, há dias o sábio Steiner. Grandes diálogos estarão acontecer no Paraíso e nós sem podermos transcrever para livro o que eles vão descobrindo. "Construir um mundo" foi o que, mais uma vez, fez Eco no seu último e curto romance ("O Número Zero") sobre a imprensa contemporâneo e a sua submissão ao poder corruptor do dinheiro e dos multimilionários com agenda de poder. Exemplar ! Tal como "O Transporte para San Cristobal de A. H." de Steiner ao abordar a extrema-direita escondida e à espera de uma oportunidade para levantar a cabeça. Mas de Eco e Steiner temos sempre connosco a obra ainda não lida e as releituras. Um mundo infinito. Alegria !

    ResponderEliminar
  3. Extraordinário post, que mais uma vez nos surpreende e alegra por termos este espaço privilegiado para ler estas coisas, e, comentá-las… sim, mesmo que façamos parte dessa imensidão de imbecis (em maior ou menor grau), em que incluo as traças dos livros atraídas por esta luz Extraordinária que nos atrai e reúne.

    É igualmente Extraordinária essa idéia de construir um mundo, o mais mobilado possível, pois também me parece que é esse o segredo: "mobilar". Ainda há dias aqui falámos nisso quando referi a composição do "cozido à portuguesa" em sentido literário.
    Genial, e afinal tão simples.

    De facto vale a pena vir aqui diariamente!

    Saudações gratas cá da Cidade Morena!

    ResponderEliminar
  4. Li esse texto vezes sem conta. Apareceu-me num livrinho do Eco chamado “Porquê o Nome da Rosa”, um embuste delicioso, já que se fica pela questão e nunca dá a resposta - um título serve para confundir, escreve a dada altura. Mas conta-nos coisas muito giras a propósito desse romance. Por exemplo, confessa que, contrariando a ideia original, deslocou a abadia para o norte de Itália, porque precisava de afogar um monge em sangue de porco e teria de ser em novembro - muito cedo para uma matança. Daí ter escolhido uma zona fria e montanhosa.
    Também diz:
    «Podemos construir um mundo completamente irreal, no qual haja burros voadores e as princesas possam ressuscitar com um beijo. Mas esse mundo, possível e irrealista, deve respeitar as estruturas definidas à partida (temos de saber se nesse mundo uma princesa apenas ressuscita com o beijo de um príncipe ou também de uma bruxa, e se o beijo da princesa transforma somente sapos em príncipes, ou também, por exemplo, ornitorrincos.»

    ResponderEliminar
    Respostas
    1. Muito bom, esse pormenor da matança do porco. E a neve, pelo menos no filme (já não me lembro se também surge no livro), contribui para transmitir uma vida parca, desconfortável e uma atmosfera, de certa maneira, ameaçadora.

      Por outro lado, os monges de "O Nome da Rosa" dormem em celas individuais, o que só passou a acontecer a partir de determinada altura. Segundo a Regra Beneditina, os irmãos deveriam ter um dormitório comum, para que se pudessem vigiar uns aos outros, mesmo durante a noite, e não se dessem a práticas pecaminosas.

      As celas individuais surgiram mais tarde. Ainda não consegui descobrir quando, mas o século XIII parece-me muito cedo. Creio que só surgiram depois da Idade Média.

      Aliás, se alguém pudesse esclarecer, agradecia.

      Eliminar
    2. Correção: o romance passa-se em 1327, por isso, século XIV.

      Tinha a impressão de que se tratava de fins do século XIII, mas, depois de escrever o comentário, fiquei pensativa e fui pesquisar.

      No entanto, mantenho a dúvida das celas individuais nos mosteiros.

      Eliminar
  5. Acredito que Eco se tenha "estampado" muitas vezes. A sua facilidade de efabular combinada com a introdução de cenas ou referências de outros autores a que não resiste propicia essas situações. Há cenas n'O Nome da Rosa que nunca se me apagarão. Por exemplo, o encontro com os camponeses esbaforidos que tentam recuperar o cavalo do abade, a hipótese para se orientar no labirinto da biblioteca (mal tratada no filme), a explicação para o desaparecimento de obras alegres ou cómicas na cultura cristã. Na explicação (negada) do título senti-me simultaneamente encantado e gozado. É obra!

    ResponderEliminar
  6. Eco sustentou uma vez de improviso e em direto na televisão que, ao contrário do que pensamos e exigimos, a televisão não serve para ensinar nem para ajudar a refletir, serve apenas para ventilar, dar a conhecer. E fazê-lo muito rápida e atrativamente pois tem que passar ao assunto seguinte. O problema é que se demora em entretenimentos e assuntos imbecilizantes.

    ResponderEliminar
    Respostas
    1. Tive o privilégio de assistir em Roma nos anos 90 a uma conferência do Eco em Estocolmo. Li o Cemitério de Praga, não gostei do Baudolino, mas A Vertigem das Listas é um monumento de beleza e erudição. Tal como Steiner, faz-nos falta .

      Eliminar
  7. Li o livro e vi o filme “O Nome da Rosa”. Gostei de ambos, embora o livro seja mais “pesado” com as descrições feitas por um autor que conhecia muito bem a Idade Média.
    Sempre me interroguei sobre o título, de tal forma que nunca o encaixei no romance. Eco esclareceu, mais tarde, que este título seria um plano C, e que lhe ocorreu por acaso. Não queria que o título apontasse para a “chave” do drama “policial” e que confundisse logo desde o início: “um título deve confundir as pessoas e não orientá-las” . Escolheu a rosa por ser uma figura simbólica, tão cheia de significados ao ponto de quase não ter mais nenhum. Daí ter recusado “Adso de Melk”, o narrador, como título e até um outro mais “piroso”- A Abadia do Delito.
    Também por acaso, vi em tempos uma entrevista dele em que a cena do incêndio lhe ocorreu quando estava a preparar um churrasco. Os génios têm destas coisas…

    ResponderEliminar

Enviar um comentário

Mensagens populares deste blogue

Em Berlim

O que ando a ler

O principal e o acessório