O que ando a ler

Há certos livros que, assim que lhes pomos a vista em cima, desejamos começar a ler. E, porém, às vezes a vida não nos deixa simplesmente tirá-los da estante, começá-los e levá-los por diante sem interrupções. São por isso abençoados os dias de férias, em que sabemos ter bastantes horas livres para dedicar à leitura. E, como quase sempre acontece, foi isso mesmo que fiz na semana em que saí de Lisboa, principalmente com um livro que me estava aqui atravessado e dá pelo nome de O Mundo de Ontem, publicado há uns dez anos (mas reeditado recentemente) pela Assírio & Alvim. Sou um pouco saudosista (que isto, por favor, não se confunda com qualquer apego ao regime de Salazar); e é nessa medida que um livro que conta as recordações de um tempo que se perdeu para sempre na Europa na voragem de duas guerras mundiais me suscita desde logo uma enorme curiosidade, maior ainda porque o seu autor é o grande escritor austríaco Stefan Zweig que, nascido em 1881, no seio de uma família de judeus abastados, viu ruir em pouco tempo o mundo de segurança em que fora educado, sendo obrigado a exilar-se num dos momentos mais trágicos da história europeia. Curiosamente, muito do que conta sobre a sua própria educação em Viena parece-se incrivelmente com a educação portuguesa anterior à revolução que (eu também o senti) ou estimulava para a descoberta de muito mais (ele e os colegas apaixonaram-se por tudo o que era arte e literatura por causa das aulas francamente desmotivantes que lhes eram ministradas), ou adormecia para sempre as mentes dos estudantes, tornando-os pouco reactivos, como convém de resto a quem manda... Mas isto é apenas um exemplo desse mundo de ontem, pelo que sugiro que leiam este magnífico testemunho de uma época desaparecida pela mão de uma pessoa que pensa as coisas com grande lucidez e, ainda por cima, escreve com incomparável riqueza. A tradução é de Gabriela Fragoso.

Comentários

  1. Também sugiro:). Obra a não perder. E um autor de que gostei. A intemporalidade da obra conquista-se também pela similitude que o leitor encontra com o seu tempo. E nem sei bem se é pelas semelhanças políticas e sociais, se pela força humana de crer e não se entregar, da perseverança no entendimento.

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  2. Já li há alguns anos na edição da Civilização que editou quase toda a sua obra em Portugal. Além das novelas, que algumas resultaram em filmes, os seus ensaios são notáveis de que destaco "O Combate com o Demónio-Holderlin, Kleist, Nietzche"; e "Três Poetas da Própria Existência- Casanova, Stendhal, Tolstoi".Ando a ler "A Marcha de Radetzki" do Joseph Roth, estou a reler "Mortes Imaginárias" de Michel Schneider, prémio de ensaio Médicis de 2003 e aguardo para dar início à "Casa Sombria" do Dickens.

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  3. Deste autor só li as "Vinte e Quatro Horas da Vida de uma Mulher".
    Desde o último poste sobre este tema li "Afirma Pereira", de Antonio Tabucchi e estou a terminar "O Mal de Montano", de Henrique Vila-Matas".
    Boas leituras.

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    1. Se me permite a sugestão, não deixe de ler A Novela de Xadrez: de leitura imparável.

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  4. António Luiz Pacheco2 de julho de 2018 às 03:57

    Bom… isto tem sido uma barrigada de ler!
    O tempo manhoso é a isso propício, assim como a real necessidade de descansar que tinha, e, a despeito de reuniões de trabalho e algumas visitas profissionais que tive de fazer, porque estando também sozinho, li e li a valer!!!!
    Valeu a pena esta vinda!

    Da minha Confraria de caçadores que escrevem, li rapidamente dois pequenos livros e se os cito não é para os divulgar, mas porque estamos activos:
    -1 José Maria da Cunha, "Olha o passarinho", um divertido e interessante trabalho sobre as manias e os tipos dos caçadores… retratos, selfies e caricaturas de caça e caçadores.
    -2 Valdemiro Correia, um açoriano ilhado em Moura, escreveu "Mouros e atlantes", um romance despretensioso, até naif na forma como é escrito, onde nos trás o período da descoberta dos Açores e o cruza com a vida em Moura naquela época, um interessante relato na perspectiva histórica das duas regiões e sobretudo humana!

    O Homem de Constantinopla/Um milionário em Lisboa do incontornável José Rodrigues dos Santos.
    NA MINHA OPINIÃO:
    Um excelente trabalho , uma biografia de K. Gulbenkien, muitíssimo bem feita e bem sustentada numa investigação acurada. Vale a pena ler, é um dos grandes vultos da nossa cultura (o Gulbenkian!) e o período, local e acontecimentos que viveu é menos conhecido, pelo que só por isso valia a pena, mas depois há a história do Homem!
    A parte romanceada… é muito fraca, não gosto do estilo do autor, acho "desconseguida" a forma como insiste em introduzir a acção, até despropositada ou fora de contexto porque em nada beneficia a narrativa antes a prejudica. São bastante mauzinhos quer os diálogos quer a "romanceação" em geral.
    Se fosse apenas e só uma biografia, muito bem! Como romance, é fraco!

    Sul Profundo - Paul Theroux.
    Estamos perante outra loiça… daquele que para mim é o maior escritor actual de viagens, que nos leva ao profundo Sul dos EUA, com as reflexões lúcidas e cultas de um erudito e de um profundo conhecedor do género humano como da geografia, na visão do Viajante - aquele que vai ver, viver e misturar-se.
    Quem ainda não percebeu porque foi Trump eleito, deve ler este livro e reflectir! Os EUA não são a Europa nem jamais serão governados como a Europa deseja, a Europa dita culta, pois também há a Europa profunda, talvez à espera de Paul Theroux!
    Curiosamente começa com esta citação que aqui vos deixo:
    " Neste despropositado e inclassificável livro das minhas "Viagens", não é que se quebre, mas enreda-se o fio das histórias e das observações por tal modo, que, bem o vejo e sinto, só com muita paciência se podes deslindar e seguir em tão embaraçada meada."
    "Almeida Garret" (Viagens na minha terra - 1846).

    "Cebola crua com sal e broa" de Miguel Sousa Tavares.
    É uma viagem às memórias da meninice e depois juventude adulta do célebre, controverso e truculento mas inteligente, esclarecido e corajoso escritor, jornalista e comentador de TV. Concorde-se ou não com ele (vario…) mas é daquelas pessoas de quem gosto saber o que pensa e porquê.
    Creio que vale a pena, pois se recolhe muita informação interessante sobre factos e pessoas, no resto revemo-nos em muita coisa nós que andemos já nos 60.

    Vou começar a ler: "A fome", de Alma Katsu. Despertou-me a atenção pois narra uma daquelas epopeias das caravanas que demandavam o Oeste, e no concreto, trata de uma tragédia que a história registou.
    Depois darei notícias!

    Saudações ainda cá do Bairro Ribatejano, desta traça dos livros!

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  5. António Luiz Pacheco2 de julho de 2018 às 04:00

    Bolas, esquecia-me:
    Li de uma assentada e depois de o ver aqui referido: "Gente séria" de Hugo Mezena.
    Já dei o meu parecer num post anterior, gostei, gostei bastante porque nos fala das pessoas do nosso Portugal profundo, de gente que existiu e como era na altura, que não deve nem pode ser esquecida para que nos compreendamos a nós mesmos.
    É um trabalho que comparei a "Entre Cós e Alpedriz", memórias da nossa gente, de nós mesmos.

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  6. Acabei de ler um daqueles livros mais que improváveis, que não pensava ler, mas como estava em promoção na feira do livro, trouxe-o...

    Falo de "Rui Patrício, a vida conta-se inteira", uma conversa entre Leonor Xavier e o último ministro dos negócios estrangeiros da ditadura.

    Comprei-o pelo interesse que tenho pela história do século XX, e valeu a pena. É um testemunho honesto (e fiquei com vontade de fazer duas ou três perguntas ao antigo ministro).

    Estou a ler a "Sétima Onda" de J. Rentes de Carvalho (de 1984...), também comprado na feira, nos saldos. Embora ainda não tenha chegado a meio, noto que esta obra mostra um escritor bastante mais fraquito, que o que conheci na "sua segunda vida", quase na segunda década do século XXI... o que até se compreende, trinta anos é muito tempo de crescimento para um escritor.

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  7. Zweig é um daqueles escritores a que volto com frequência e pelas mais variadas razões.
    A semana passada foi ao ver a adaptação da sua novela Angst no filme O Medo, do Rossellini, com uma excelente Ingrid Bergman. Ando à procura do livro.
    Agora foi esta sugestão da Rosário de um livro absolutamente extraordinário.
    Para quem estiver interessado também existe um filme com a biografia dos anos de exílio - "Stefan Zweig: Adeus Europa", da realizadora Maria Schrader.

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    1. Bom, já somos dois; também volto com frequência a Zweig e também a obras sobre o seu percurso. O filme que vi retrata infelizmente os últimos dias dele no Brasil. A biografia que o Alberto Dines, recentemente falecido, escreveu é a mais completa sobre a sua vida, intitulada "Morte no Paraíso" "O Medo" penso que anda aí pelas livrarias. O pequeno opúsculo "Mendel dos Livros" também vale a pena.Ainda recentemente li "Encontros-Impressões sobre livros e escritores" que comprei num alfarrabista na Feira do Livro; impressionou-me sobretudo o 1º ensaio sobre Marceline Desbordes Valmore.

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  8. Finalmente consegui ler o Fahrenheit 451, do Ray Bradbury, que procurava há imenso tempo: adorei!
    Também li O Nervo Óptico da María Gainza e gostei bastante.
    Para terminar senti uma vontade enorme de reler o Afirma Pereira, do Antonio Tabucchi, depois de ler a Novela Gráfica do Pierre-Henry Gomont, recentemente editada pela GFloy.
    Resultado: adorei ambos!

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  9. E é triste pensar que perante um país mais cómodo e liberal, a maioria dos jovens cresça entorpecida para a descoberta das artes e da cultura, mesmo quando esta nos é incrivelmente mais acessível.
    Males de um excesso de conforto?

    Infelizmente ainda não li nada de Stefan Zweig...
    Ontem dei início ao ''O Eleito'' de Mann, que já me está a deliciar com um travo irónico que não me foi dado a conhecer em outras obras do autor.
    Simultaneamente, mas aos bocadinhos (porque não é fácil), estou a ler "os passos em volta" do Herberto Hélder. Apesar de não ser uma grande fã do surrealismo literário, estou absolutamente rendida a esta prosa lírica tão profunda e inquietante. HH foi mesmo um grande (grande) poeta e esta obra confirma-o.

    Saudações

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  10. Pois as minhas leituras, num tempo em que a ficção é cilindrada pelo real, derivam cada vez mais para a crónica, historiografia, biografia, memórias. Assim locupleto-me ardorosamente com as Memórias da Segunda Guerra Mundial, de Churchill, meu estadista de eleição. Sigo com o estimulante Breviário de um Repúblico, do incisivo e criativo professor Adelino Maltez, um dos mais extraordinários e satíricos pensadores actuais deste país corrompido, pequenino, tribal, falho de imaginação, humor... mas pleno de ignorância, soberba, arrogância. Neste tempo de trevas e enganos, a que nos vai valendo o afecto do Professor Marcelo — um cânone futuro na desconstrução das iminências pardas e dos seus enjoados e "manobreiros" séquitos, sempre à espreita de prebenbas e migalhas — seguem Castelos, Mercadores e Poetas na História da Idade Media, organizado com a argúcia e competência de Umberto Eco.
    Finalmente, mesmo não acreditando em cânones — ou talvez por isso —, junto a todo este peso o de perceber como Harold Bloom entrevê o Gênio na literatura mundial.

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    1. António Luiz Pacheco2 de julho de 2018 às 10:53

      Breviário de um repúblico… conheço o Prof. Adelino Maltez , mas desconhecia esse título!
      É recente? Fiquei interessado…
      Abraço!

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  11. “Lemos livros para descobrirmos quem somos. O que outras pessoas, reais ou imaginárias, fazem e pensam e sentem (…). É um guia essencial para compreendermos quem somos e no que nos podemos tornar” – Ursula K. Le Guin

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  12. " A literatura é uma profissão maravilhosa, porque prescinde da pressa. Quando está em causa um verdadeiro livro, um ano a mais ou a menos não tem importância."

    É nesta frase de Rathenau na página 218 onde me encontro.
    Até agora não o acho nostálgico, é um livro de afectos. E tão bem escrito que estranhamente provoca em mim uma peculiar ternura.
    Pois a um homem a quem " Três vezes... despedaçaram casa e existência..." seria compreensível uma certa acidez. Mas não, faz desses afectos, dessas paixões pelas artes, desses deslumbramentos maiores, a sua pátria. Ele precisamente a quem condenaram ao " não sei para onde".
    À imagem de Goethe ( que tanto idolatrava ) também ele, Zweig construíu uma casa sobre o nada... e talvez não me engane muito se disser, que lá cabe senão a humanidade inteira, pelo menos uma boa parte dela.

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