O pessoano

No verão, os jornais optam normalmente por cadernos ligeiros, com reportagens leves e questionários um tanto ou quanto cuscos – para que praia vais, qual é o teu prato favorito, o que vais ler nas férias, que viagem gostarias de fazer, coisas assim… Por sorte, este ano o suplemento P2 do Público resolveu sair durante o Verão com grandes entrevistas – e a que li no dia 16 de Julho a Jerónimo Pizarro feita por Isabel Lucas era mesmo interessante. Pizarro é colombiano – mas português de coração, uma vez que é doutorado em Linguística Portuguesa, é professor titular da cadeira de Estudos Portugueses na Universidade dos Andes, viveu em Portugal muitos anos e é um dos grandes especialistas mundiais na obra de Fernando Pessoa (com livros publicados na Tinta-da-China) para a qual foi despertado pelo Livro do Desassossego. Conta que se apaixonou pela literatura para fugir à violência da política (era jovem na época de Pablo Escobar e teve parentes sequestrados e mortos); e, aos 13 anos, já trabalhava na loja da avó para ganhar uns cobres para poder comprar livros (Dostoiévski, Cortázar, Hermann Hesse e muita poesia). Nós agradecemos que os estrangeiros cultos se interessem pelos nossos escritores e digam que Pessoa já se tornou imagem de marca e uma porta por onde muitos entram em Portugal. E percebemos quando Pizarro diz que uma das razões por que é tão bom viver em Portugal tem que ver com essa sensação de segurança que falta realmente em tanto lado. Entrevistado e entrevistadora estão de parabéns. Leitores, não percam a entrevista, por favor.

Comentários

  1. António Luiz Pacheco27 de julho de 2018 às 02:37

    Eu diria que é interessante que, não apenas os estrangeiros cultos (?) mas estrangeiros em geral , se apaixonem pela nossa literatura e cultura, seja a da sardinha assada ou a Pessoana, porque dela devemos orgulhar-nos transversalmente.

    Portugal não é, nem se esgota em Fernando Pessoa. Há muito mais, e, para todos os gostos ou níveis de interesse. Pode ser que havendo interesse estrangeiro pela nossa cultura, os nossos "cultos" e os arvorados em desenvolvidos, passem a estimar também a cultura do seu país, em vez de a quererem mudar! Oxalá!

    Quanto a Fernando Pessoa, é de facto um vulto ao mais alto nível internacional, fascinante.
    O mais curioso é que a maioria dos portugueses que falam e acham que cultivam Fernando Pessoa, lhe desconhece particularidades que o fazem assim interessante, as suas ligações ao oculto e ao sagrado, o lado místico que o inspirou e transparece na sua obra, até as inclinações monárquicas. O interesse nele não reside apenas na obra literária, não se extingue nela e seria redutor fazê-lo, porque é por tudo que ele foi e é, que exerce esse fascínio sobre os estrangeiros cultos, e, sobre os portugueses mesmo os incultos como este barrão exilado, penso eu!

    Saudações Pessoanas e votos de bom fim-de-semana, cá da Cidade Morena!

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  2. Vou tentar lê-la. Muito obrigada pela dica.
    E BFS:)

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