Ficheiros Secretos
Já tive vários computadores desde o meu velhíssimo Schneider, de 1990, com disquetes que se metiam numa ranhura no teclado e gravavam o documento. Quase sempre troquei de máquina quando apanhava um susto (até um copo de água entornei num portátil) e percebia que ela já estava mesmo a dar o berro; mas não me lembro de ter alguma vez perdido coisas demasiado importantes. Mesmo assim, gostaria de ter voltado a alguns desses discos em busca de rascunhos e coisas começadas, pois na verdade, nunca se sabe quando vem uma ideia boa para as continuar... Num velho computador de José Saramago, por exemplo, encontraram recentemente um novo Caderno de Lanzarote, o sexto e último, escrito no ano em que o escritor recebeu o Prémio Nobel da Literatura (1998). O ficheiro, na verdade, esteve sempre lá, numa pasta maior. No entanto, Pilar del Río pensava que só estavam dentro dela os cadernos publicados, até que um estudioso da obra de Saramago precisou de vasculhar os ficheiros dos cadernos (talvez para realizar buscas, que são muito mais práticas no ficheiro digital do que no exemplar em papel) e se descobriu uma pasta que tinha o número 6! Vamos poder saber o que escreveu o nosso Nobel nesse ano tão especial para ele (em que deve ter sido convidado para tudo e mais alguma coisa) no próximo mês de Outubro. O diário será lançado durante um congresso que dedicado ao escritor que assinala o vigésimo aniversário do recebimento do galardão. Imagino que, a par do contentamento, também tenha havido momentos de angústia e de um grande cansaço. Veremos.
O meu primeiro computador também foi um "Schneider" (com disquete de arranque), 1991, 92... não sei.
ResponderEliminarEm relação ao tema, já foi conversa na mesa de café, com poucos amantes de Saramago. Foi por isso que alguns levaram o caso para a "ficção", outros para o "milagre da Senhora do Pilar". Mas o assunto é demasiado sério, para se inventar um "diário", mesmo que a altura seja bastante propicia comercialmente.
E continuo a pensar que ele tem uma escrita muito particular, facilmente se percebe se é ele que está ali.
Segundo li no JL, Saramago teria já assegurado, numa das entradas finais do Caderno 5, que aquele não seria o último dos seus Cadernos porque já estava a escrever outro no seguimento cronológico do volume que era então publicado. O não ter sido publicado em vida do autor, dá que pensar. A Pilar del Río diz que o texto está cheio de notas telegráficas sobre assuntos que Saramago provavelmente planearia elaborar mais tarde. Será que o escritor adiou a publicação porque considerava o texto incompleto, tal como aconteceu com o seu último romance "Alabardas, alabardas, espingardas, espingardas" ? Em outubro saberemos e, claro, temos já toda a curiosidade em saber como o escritor sentiu e viveu o efeito do Nobel. Mesmo que seja um texto incompleto é sempre um prazer ouvir a voz de Saramago. Em agosto releio sempre um Eça e um Saramago. Prazeres únicos !
ResponderEliminarCaro Artur, não obrigatoriamente em Agosto, mas reler Saramago, Eça e Pessoa (são o meu PP=personal podium) é um prazer que não dispenso.
EliminarAinda não há muito tempo, ao reler os 5 Cadernos de Lanzarote, pensei que era uma pena ele não ter escrito mais nenhum no período pós-Nobel.
Lá vamos ter de esperar até Outubro...
Bela sugestão: este ano vou também levar Pessoa comigo. Obrigado !
EliminarSaramagos e Antunes há para aí aos molhos. Eu prefiro regressar sempre aos meus favoritos e mestres da língua, Eça, Camilo e Aquilino, além do Camões, Pessoa e Herberto na poesia.
ResponderEliminarAntunes conheça vários, Saramagos só conheço o José... o inimitável José Saramago.
EliminarJá leu ou tentou ler algum livro dele?
É que há muito boa gente que não leu e não gostou...
Todavia confesso que partilho algumas das suas outras preferências.
"É que há muito boa gente que não leu e não gostou", essa foi muito boa (e infelizmente verdade)!
EliminarGenial, único e inigualável Saramago...
Gosto de acreditar que surgirão outros escritores portugueses que se lhe equiparem, mas pelo paradigma atual, tenho as minhas dúvidas... (Não negando a qualidade de vários escritores contemporâneos, evidentemente)
Completamente de acordo, Maria!
EliminarE apesar de muito ódio e muita dorzinha de cotovelo, o Nobel já ninguém lho tira.
E digam o que disserem, quem não gostaria de o ganhar?
Já sim senhor. Gostei do Memorial do Convento e do Ano da Morte de Ricardo Reis. Também gostei da Viagem a Portugal 1ª edição do Círculo de Leitores quando ainda ninguém sabia quem era o Saramago!
EliminarQuem nos dera que Saramagos e Antunes haja aos molhos. Pela qualidade dos dois, de muita saúde gozaria a literatura portuguesa.
EliminarEntão os meus parabéns pelo seu bom gosto
EliminarEu também sou desse tempo e ainda tenho essa edição da Viagem a Portugal, que aliás me fez viajar bastante por zonas mais desconhecidas do nosso país.
O primeiro romance que li foi O Memorial do Convento, e ficou um escritor para a vida inteira...
Olha… é interessante esta história do caderno-secreto-escondido-achado-por-acaso!
ResponderEliminarVai acender discussões acesas como se entende, sobre a sua autenticidade versus oportunidade! Aguardemos os próximos capítulos.
Entretanto não deixo de fazer notar que este constitui um excelente tema para um romance, "O ficheiro perdido" … quem sabe alguém não pega nele?
Com um personagem principal que fosse um detective literário ou coisa parecida, a investigar.
Saudações cacimbadas cá da terra dos caluandas!
A minha lista de favoritos coincide com a do Anónimo das 10:21, com o Padre Vieira no lugar de Herberto. Ah, e Saramago, claro.
ResponderEliminarTenho por Saramago uma enorme admiração, sendo talvez o autor nacional com Cardoso Pires e Dinis Machado que mais influenciou aquilo que escrevo. Não só por já ter lido quase todos os seus livros, mas porque (para mim) à escrita não basta a graciosidade mas a riqueza de conteúdo.
ResponderEliminarO Evangelho, ... O Ano da Morte de Ricardo Reis e os seus Diários são um sinal mais na literatura nacional.
Reconhecer Saramago neste "inédito" será pois para mim fácil e com certeza um prazer. Continuo a lastimar apenas que à literatura nacional actual falte densidade, falte cultura, maturação, num registo quase sempre igual e pobrezinho.
José Saramago-o maior da literatura portuguesa depois de Camões!
ResponderEliminarJOSÉ SARAMAGO-o maior da literatura portuguesa depois de Camões!
ResponderEliminarFICHEIROS POR DESCOBRIR
ResponderEliminarPor entre quatro paredes tudo ainda descansa. Dormem o sono dos justos, embalados no sono de um país cheio de entorses e entraves, mesquinhez, interesses. Adormeci-do num passado que até estes novos já desconhecem. Ao virar da esquina uma mão vigorosa puxa-me e sorrindo diz: «O caminho não é por aí, amigo. Tente antes estoutro que o poderá fazer sair deste labirinto sem fim.» Demónio! Quem é este homem que aparece tanto nos meus sonhos? Será apenas fruto de uma imaginação "desbocada", construída num imaginário de uma história pintada a muitas mãos, mas cujo quadro terminado só a mim interessa? Será realmente um diabo, um anjo, que nos quer dar ou tirar às trevas? Abro a porta do sonho e, descalço, vejo-me sobre um chão gelado. Magoa os pés, este chão, enquanto as paredes estreitam. Agora já não são quatro, mas três paredes. Um triângulo equilátero que seduz e penetra por entre os nossos poros.
No corredor em frente tento abrir os braços, alargar o espaço por onde escasseia o tempo e o ar. Mas o primeiro escorre, o segundo rareia, as paredes abraçam-se. Agora são as pedras e as rochas, o salitre que magoa os olhos. Ouço uma voz distante nesta gruta repleta de sibilares de víboras, voos de vampiros, rastejares de pequeníssimos insectos. A distância que percorro é curta, pois mesmo serpenteando por entre os escolhos, as paredes fecham-se numa sinfonia de fole. Agora já não são três, mas duas paredes. Mais à frente já nem duas. Torno-me uma folha estorcida, como uma lâmina de alumínio de uma só dimensão.
Ouço agora uma voz melodiosa falando em ficheiros secretos, Lanzarote, Pilar, um número 6, uma voz que se replica como num eco. Fico de atalaia, vigilante. Será o 666 que ressoa neste plano cada vez mais fino, como risco indelével de lápis afiado? Ou antes o 999, o aviso de um anjo, de que o meu ciclo de vida já durou tempo demais e está a terminar?
Quem tem imaginação e talento literário constrói uma história a partir do mais elementar dos motes. Parabéns ao Pedro Sande ! E obrigado pelo texto.
EliminarSem dúvida!
EliminarObrigado, Artur! Abraço.
EliminarEu não disse… aí está, quiçá, o ponto de partida para mais um romance ou deambulação literária, e, quem melhor do que um apreciador de Saramago?
EliminarAbraço!
Abraço, António!
EliminarGostei bastante dos Cadernos de Lanzarote publicados e que li de empréstimo. Acho que compro o sexto.
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