Ler na escola
A criação de um Plano Nacional de Leitura – o nosso PNL, mas também muitos outros espalhados pelo mundo (lembro-me, por exemplo, de un Plan de Lectura na Argentina) – é fundamental, antes de mais, para que todos os alunos, venham de onde vierem, possam aceder ao livro em igualdade de oportunidades. Isso, para mim, é o mais importante, pois todos sabemos que há famílias que não têm um único livro em casa e que, se não for a escola a disponibilizá-los, muitas crianças não poderão ler livros e experimentar o prazer da leitura. Claro que o aconselhamento de certas obras para determinado grau de ensino ou idade é interessante, mas não deve ser tomado como um espartilho: não há ninguém que conheça melhor o nível intelectual ou os hábitos de leitura de uma turma como o seu próprio professor e, assim sendo, a lista de recomendações de um Plano de Leitura (cá, lá e em toda a parte) deveria ser apenas um guia de sugestões. Muitas vezes, porém, não é. E porquê? Pois, agora vou chegar à parte difícil. É que há mesmo muitos professores que não lêem absolutamente nada e, quando têm de propor a leitura de uma obra aos seus alunos, imediatamente consultam a lista pois não saberiam de outro modo o que aconselhar. Li um artigo sobre o assunto, em que uma coordenadora de leitura, no Brasil, foi a uma escola em que os professores não tinham a mínima ideia de como motivar os alunos para a leitura; e, quando ela lhes pediu que trouxessem um livro de que tivessem gostado e falassem dele, bem… percebeu que não tinham lido nenhum livro nos últimos dois anos. Será que os Planos de Leitura de todo o mundo não deveriam também sugerir obras a professores?
Sugerir e verificar. Mas aí entrávamos no domínio da avaliação e da formação para atualização de conhecimentos.
ResponderEliminarEm termos de Brasil, generalizar qualquer informação exige números. O Plano de Leitura Nacional ocupa diferenciadas esferas educacionais, inclusive uma das barreiras (sócio-cultural) é o regionalismo. Embora na atualidade tenhamos um extenso e agradável nível de pesquisa pedagógica em prol a leitura de formação, fazer chegar as regiões mais afastadas requer além da logística, capacidade funcional dos municípios e munícipes. No Brasil há lugares recônditos e "responsabilizar" atitudes com resistência em diferentes culturas é inconveniente.
ResponderEliminarE, durante a minha longa vida de professora (implicando uma íntima relação com a biblioteca da escola e trabalho conjunto com os outros professores de português), até encontrei casos de fracção invertida: os professores revelavam-se incapazes de levar a cabo leituras que os alunos, nas mãos da biblioteca, liam com gosto e proveito. Factos são factos. Deles, advirá a reflexão...
ResponderEliminar«... há mesmo muitos professores que não lêem absolutamente nada.»
ResponderEliminarGrande verdade!
Porque não têm tempo para leituras; ler é para professores que se baldam.
Extraordinário ABC, olhe que não, olhe que não. Como não vislumbro qualquer ponta de ironia na sua afirmação , sou levado a pensar que acredita no que diz. Mas ao contrário de si, conheço muitos professores que além de serem competentíssimos no que fazem, lêem e ainda têm tempo para, por exemplo, fazer teatro, cantar em coros, e colaborar em sessões de poesia. Também conheço os que se baldam, mas não para ler. Fazem outras coisas... ou não fazem nada, inclusive evoluir na carreira.
ResponderEliminarPeço desculpa, esqueci-me de assinar. E, como não gosto de ser anónimo, aqui vai
ResponderEliminarAmílcar Mendes
EliminarCaríssimo Amílcar,
As minhas ironias são difíceis de captar; ou então tenho de treinar mais este recurso expressivo.
Parece-me simples o que afirmei: os professores que não leem justificam-se apoucando profissionalmente os que leem.
Sem ironia.
Custa-me a aceitar que haja professores, de línguas sobretudo - seja a portuguesa ou outras - que não leiam, e que não trabalhem com os alunos sobre livros lidos.
ResponderEliminarComigo, foi assim... nas disciplinas de Português, Francês, Inglês, fomos obrigados a ler livros que os professores indicavam e tínhamos de ler, até porque depois havia "ponto" sobre eles...
Tenho uma enteada professora, e que lê... apesar de ter 2 filhos pequenos e o trabalho normal da escola, lê... e sei que lê porque até me pede livros emprestados, no que abro uma excepção - só ela, a minha sobrinha mais velha e irmã mais velha podem levar livros, bem o meu filho também, mas esse lê pouco... tomara eu que levasse mais!
Fico espantado com o que se diz... enfim, aqui por estas bandas, os professores não lêem, mas é fácil perceber porquê... porém a nossa realidade é completamente diversa, não se percebe como tal possa acontecer!
Quanto ao PNL, mas é para fornecer livros à escola e aos alunos, ou para orientar as leituras deles? Fiquei confuso...
Saudações saudáveis cá da Cidade Morena.
Ambas as coisas. O PNL fornece livros às escolas e recomenda leituras.
EliminarÉ verdade que existem professores que pouco lêem. Mas tenho dúvidas de que sejam professores de português. É que não se faz em vão um curso de línguas e literaturas. E não acredito que quem não goste de ler o frequente com aproveitamento. Agora se a Rosário pergunta se todos os professores lêem romance e poesia... Não. Não lêem. Não sei avaliar se por ser desábito de família, se por sua natureza mesma. Há gente que só lê livros da sua área de estudos.
ResponderEliminarA verdade é que a tentativa de fazer de cada homem um leitor, nunca será verdade. Há pessoas que sabem ler e possuem todas as condições para, mas não gostam desse exercício.
Concordo com a hipótese de haver para todos iguais oportunidades na escola - que nunca são iguais porque se vão inscrever em pessoas diferentes e de meio diverso -. Será pelo menos uma forma de tentar nivelar os potenciais leitores.
Eu sou professora de Português e leio muito, leio tanto quanto me é possível. E agora que estou sem trabalho ainda leio mais. Mas quando estava na escola onde leccionei durante cinco anos, nenhum dos meus colegas tinha hábitos de leitura. Falo de um colégio pequeno, claro, e NENHUM dos professores do 2.º e 3.º ciclos ou do ensino secundário lia o que quer que fosse. Quando um dia uma professora disse que andava a ler um livro, era a de Espanhol e o livro eram As 50 Sombras de Gray. Por isso percebo o que diz. Sempre me chocou, sempre achei que empobrecia o ensino. Mas olhe, ironicamente, quem está sem trabalho sou eu, que leio tanto. Ahahah.
ResponderEliminarAcho uma grande falha de muitos professores. Seja de que área forem, ler é fundamental. O que acontece é que muita gente acha a leitura perfeitamente dispensável.
Veja no blog Da Literatura o último parágrafo do post "Timothy Garton Ash", e verá por que diabo é que a leitura se tornou, como diz, "perfeitamente dispensável".
EliminarSim: é o diabo. É urgente (re)pensar isto. É muito inquietante.