Na Europa de Leste

Gabriel García Márquez, antes de se tornar escritor, já era jornalista; e publicou longas reportagens numa espécie de fascículos que, mais tarde, quando já era conhecido, acabaram por ser reunidas e publicadas em livro. Uma delas já foi falada neste blog – trata-se de Relato de Um Náufrago, a crónica de um homem sozinho à deriva numa jangada, na sequência de um naufrágio, durante uma dúzia de dias. Recentemente, foi dado à estampa um outro projecto do mesmo tipo, ainda mais interessante, que dá pelo título de Em Viagem pela Europa de Leste e é o testemunho de uma visita de García Márquez (com dois outros jornalistas) a alguns países da Cortina de Ferro no final dos anos 1950. O périplo inicia-se em Berlim Oriental e inclui a Checoslováquia, a Polónia, a Hungria e a União Soviética – e as diferenças de país para país são comentadas pelo autor e pelos seus companheiros de viagem. Na URSS, o escritor colombiano de esquerda não resiste, porém, a relatar como o regime idealizado por Lenine é tudo menos uma pera doce, que o povo aceita com medo e não questiona. Como refere Plinio Mendonza, que voltou com Gabo a Moscovo mais tarde, o escritor galardoado com o Nobel da Literatura ficou muito desiludido com o comunismo. (Só para vos dar um exemplo, eis o que conta sobre a Polónia: «Para nos fazer crer que na Polónia há liberdade religiosa, abriram igrejas e puseram por todo o lado funcionários públicos disfarçados de padres.») Basta ler este livro para saber porquê.

Comentários

  1. Li há dias isto no blog do Malomil e logo corri a comprá-lo.

    Lê-se de um trago. Como a vodca polaca, 46 graus. Viagens de Gabo pela Europa de Leste na década de 1950. Um retrato sombrio, primorosamente escrito, bem-humorado, e que procura ser imparcial e honesto do muito que Gabriel García Márquez viu na Alemanha Oriental, na União Soviética, na Checoslováquia, na Hungria. De todos os países vistos, a Hungria pós-revolução de 1956 é, talvez, aquele que mais arrepios lhe suscitou. Em contraste, é radiosa a descrição da Checoslováquia. Mais penosa, a burocrática Alemanha de Leste. Ou a Polónia – com uma tremenda narrativa sobre Auschwitz. Umas vezes como convidado oficial (a Moscovo, por exemplo), outras como easy rider, na companhia de Jacqueline, uma francesa de origem indochinesa, paginadora numa revista de Paris, e de Franco, correspondente ocasional de revistas milanesas, «domiciliado onde a noite o surpreenda». Tudo o que vêem é cinzento, triste: «pobre gente» da RDA (o «povo mais triste que eu alguma vez tinha visto». Mas também a generosidade espontânea dos russos, habitantes de um território de 22 milhões de quilómetros quadrados sem um anúncio da Coca-Cola. Da Rússia, com amor, Gabo enaltece a higiene de Moscovo (mas, pouco depois, alude à porcaria que encontra no campo russo). São frequentes as descrições da «arquitectura de pastelaria» e, quando se acerca do Palácio da Cultura de Varsóvia, uma bizarra oferta de Estaline a um país em cinzas, García Márquez diz que o edifício iria ser, provavelmente, destruído dentro de décadas. O Muro caiu, falou-se da demolição do Palácio da Cultura de Varsóvia, mas ele continua lá, imponente, porventura horrendo, mas testemunho de pedra de um passado que não quer passar. Um livro soberbo. Como a vodca polaca, 46 graus.

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    1. Bonita peça com que nos brinda, Extraordinário Anónimo!

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    2. Fiquei com vontade de lê-lo, conseguiu entusiasmar-me. Aprecio a prosa de Gabriel Garcia Marques. Mas não vai para a happy hour da feira do livro. Logo se vê.

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  2. Para se ter uma ideia da origem e expansão do império soviético sob Lenine e sobretudo Estaline e as suas excrescências na Europa de Leste, basta ler a obra do historiador Sebag Montefiore "ESTALINE e a Corte do Czar Vermelho". Está lá tudo muito bem explicadinho.

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  3. Como não podia deixar de ser, e políticas aparte, sou leitor fiel de GGM.
    Aliás como de muitos outros escritores Sul ou Centro Americanos... que normalmente são da esquerda, o que em nada me afecta, ou melhor afectam sim senhora pois são a esquerda esclarecida, humana e sofredora, assim tornados por essa sua mesma humanidade em países e regimes tão difíceis, pobres, explorados, subjugados! Nada a ver com as modernas esquerdas europeias, dos filhos da burguesia frustrados por não lhes darem a importância que acham que têm, betinhos inúteis, que nunca sofreram nem suaram, agrupados em clubes de café que se acham iluminados e o suprassumo!

    Saudações palúdicas cá da Cidade Morena.

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  4. Rosário, viste o que eu escrevi no expresso?

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    1. Se és tu que escreves, Rui Lagartinho, vi e gostei.

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    2. Perdoem meter-me na conversa... mas não leio aqui o Expresso (não chega cá e deixei acabar o online), e gostava de ler o que escreveu! Seria possível um link ó coisa parcida, para poder ter acesso?

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  5. Emílio Gouveia Miranda14 de fevereiro de 2017 às 05:22

    A frase mais interessante sobre o comunismo que vi escrita nestes últimos tempos foi: Só há comunistas felizes em países em que não vigoram regimes comunistas (mais ou menos isto). E acredito sinceramente que sim, sobretudo depois de tudo quanto tenho lido e visto da história do último século.

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    1. Caríssimo Emílio Gouveia Miranda, se me permite a observação, há comunistas felizes em países comunistas! Aqueles do aparelho, os que mandam... é claro! Eheheh!


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    2. Emílio Gouveia Miranda14 de fevereiro de 2017 às 06:16

      Pois; esqueci-me desses...
      Grande abraço, Amigo.

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