Peripécias camonianas
Se não me engano, é já amanhã que irá para os escaparates o novíssimo romance de Mário Cláudio, intitulado Os Naufrágios de Camões, que tem como ponto partida a tese de um linguista norte-americano de que Os Lusíadas podem não ter sido escritos, pelo menos na íntegra, pelo poeta que todos conhecemos e que não teria sobrevivido ao naufrágio no delta do Mekong, no qual conta a lenda que salvou a sua magna obra entre as vagas. Timothy Rassmunsen, assim se chama o linguista, defende que o capitão da nau onde viajava o autor da epopeia se terá feito então passar por Camões e dado continuidade ao seu poema; e clama não estar sozinho nesta descoberta, socorrendo-se dos escritos do explorador britânico Richard Burton, descobridor das Nascentes do Nilo e tradutor d’Os Lusíadas para inglês. Verdade ou mentira? Pois saberemos se lermos os três capítulos do romance, cada um dedicado a uma personagem diferente: Rassmunsen, Burton e o escrivão-mor da embarcação naufragada que, por estar no sítio certo à hora errada (a do naufrágio), bem poderá esclarecer-nos sobre o que realmente aconteceu. Poderosamente imaginativo, polémico e inteligente, não perca mais uma peça literária fascinante deste grande autor.
Por motivos profissionais e pessoais, este romance atracará no porto das minhas leituras.
ResponderEliminarExtraordinário tema, e, certamente um livro a ler!
ResponderEliminarÀ semelhança da polémica gerada em volta dos escritos do não menos Extraordinário William Shakespeare, que haja quem defenda não terem sido da autoria dele... e já agora, suponho que haja mais destes mistérios literários.
Na verdade, muitas vezes me interroguei sobre Luiz Vaz de Camões, que a tradição descreve como sendo um "truão", um galanteador incorrigível, boémio e brigão, além de poeta genial! E teria sido ele assim, ou é apenas história fantasiosa para compor o mito? Dar-lhe carisma?
Mas, por outro lado, não foram assim p.e. Byron? Hemingway, Melville, London? Fleming, Conan Doyle, E. R. Burroughs? Para citar apenas escritores...
Olhando à obra em referência, "Os Lusíadas", além da genialidade da escrita poética, ressalta uma imensa cultura clássica que se pensarmos num soldado ou viajante daqueles tempos, sem acesso à internet e que não andaria com uma biblioteca ambulante nem teria acesso a elas pela forma como viajava nem lá pelos sítios onde andava e escreveu, conclui-se que teria de ter uma memória Extraordinária além da tal cultura! No entanto é referido que tenha estudado em Coimbra e que sendo filho da Pequena Nobreza teria adquirido sólida cultura.
Sem desfazer... mas o mito de Camões é pelo menos tão grande quanto a sua obra, e sem dúvida que esta é ímpar.
Não falo da lírica camoniana, mas apenas e concretamente de "Os Lusíadas", que também não acredito fosse escrito pelo capitão do navio naufragado... a menos que este tivesse idêntico acervo cultural e formação que num marinheiro seria de duvidar. São peças que não encaixam lá muito bem, a cultura e o saber que são exigidos ao autor, por um lado, e a dedicação que a um soldado e aventureiro não parecem ocorrer.
Mas, teria Camões de facto apenas iniciado a sua obra, durante as viagens e aventuras, em meia dúzia de páginas que pudesse enrolar e transportar num tubo? E de facto salvar do naufrágio? É bem possível...
Posteriormente, tendo-se fixado em Goa, poderia então ter aí desenvolvido o resto da epopeia?
São questões deveras apaixonantes, pois para lá da obra existe o homem, que também fascina!
Aguardo por isso a leitura desse tema, aliás se já está nos escaparates vou pedir que me o tragam para ler por cá, também eu exilado!
Saudações ansiosas da Cidade Morena.
PS - As Dinamene que por aqui circulam, são bem desengraçadas por sinal, ao contrário das Lueji e Gingas ... eheheh!
Um livro imperdível, sem dúvida.
EliminarE sim, extraordinário ALP, há mais mistérios literários. Estou-me a lembrar do Homero: também se sabe muito pouco da vida dele e muitos duvidam mesmo se ele existiu. Quem terá escrito a Odisseia e a Ilíada?
Mistério...
:-) Antonieta
Extraordinário A.L.P., contribuindo, talvez, para as suas perplexidades sobre Camões, sugiro-lhe a leitura de
ResponderEliminarhttp://observador.pt/especiais/camoes-o-malandro-que-se-contentava-com-pouco/
Bom fim de semana para todos os Extraordinários - muito tenho aprendido convosco.
Ana
Grato pela indicação e pelo seu interesse. É um tema fascinante, este!
EliminarAqui aprendemos sempre qualquer coisa, por isso vale a pena cá vir!
Aconselho-lhe também a leitura do Dicionário de Camões, com uma excelente entrada biográfica da Professora Vitaliana Leal de Matos.
EliminarPois eu tenho andado a reunir uns pedacitos, digamos, poético-auto-biográficos de Camões, nos quais que ele ia relatando as peripécias da vida.
EliminarPeço licença para transcrever este, o qual me sensibiliza especialmente:
« Em prisões baixas fui um tempo atado
Em prisões baixas fui um tempo atado,
vergonhoso castigo de meus erros;
inda agora arrojando levo os ferros
que a Morte, a meu pesar, tem já quebrado.
Sacrifiquei a vida a meu cuidado,
que Amor não quer cordeiros, nem bezerros;
vi mágoas, vi misérias, vi desterros:
parece-me qu'estava assi ordenado.
Contentei-me com pouco, conhecendo
que era o contentamento vergonhoso,
só por ver que cousa era viver ledo.
Mas minha estrela, que eu já'gora entendo,
a Morte cega, e o Caso duvidoso,
me fizeram de gostos haver medo. »
A professora Vitalina Leal de Matos tem um interessantíssimo livro “ Este meu duro génio de vingança”sobre esse enigmático e apaixonante Luis Vaz de Camões.
EliminarÉ um romance biográfico e ficcional que revela factos muitos dos quais desconhecidos, sob o percurso de vida do poeta.
A Professora é considerada a maior perita na vida e obra de Camões, e diz que seria bom se houvesse um bom realizador que fizesse um filme sobre tão insigne personagem.
Quiçá um Roland Joffé, Peter Weir ou mesmo Scorsese pudessem traduzir em imagens esse inquieto poeta de ADN marítimo misturado e extasiado com os seres dispersos por todos os reinos da terra e para além dela...
A História de Portugal, sobretudo por inspiração ideológica do Estado Novo, está recheada de mitos duvidosos que podem ser desmontados pela criação literária.
ResponderEliminar"A História de Portugal, sobretudo por inspiração ideológica do Estado Novo, está recheada de mitos duvidosos que podem ser desmontados pela criação literária." (sic)
Eliminar- Podem ser desmontados pela criação literária, como podem por ela ser montados... a quem o leia parece que a criação literária seja uma espécie de crivo para desfazer mitos quando é capaz de ser exactamente o contrário! Não tem sido sempre a literatura quem mais contribuiu para os criar, alimentar, aumentar, divulgar? Aos mitos?
- Por outro lado, atribuir ao Estado Novo essa responsabilidade ou o seu exclusivo é na minha triste opinião outro erro crasso. Herculano foi um agente do Estado Novo? Ou Pinheiro Chagas? Apenas para citar dois criadores de mitos...
Diria que a nossa literatura sempre se inspirou na história (que a temos rica, ainda que isso pareça incomodar alguns círculos da nossa elite intelectual) e o faz pelo menos desde o tempo de Camões, que não sei se terá sido o primeiro grande criador e divulgador desses mitos.
O Estado Novo foi apenas mais um a surfar a nossa história, que por oposição, no pós-25 de Abril fez-se escola em a desfazer.
O amigo ALP, assim a extrapolar e a fazer inferências abusivas do meu enunciado, faz-me lembrar as antigas cheias invernosas, quando o Tejo transbordava e alagava a lezíria.
EliminarEsquece-se de que a literatura nacionalista (para não acrescentar também a literatura colonialista, que até tinha prémios literários instituídos pelo Governo) foi um dos instrumentos usados pelo Estado Novo para enaltecer e glorificar os nossos heróis patrióticos, para reedificar os mitos e tudo o que pudesse contribuir para a configuração ideológica de uma Pátria/Nação perfeita e grandiosa, quase divinizada.
Se o meu amigo fosse alemão, diria que o Holocausto nunca existiu.
Saudações bairradinas
Herculano fez o melhor que pôde com os meios de que dispunha. Hoje em dia, porém, temos outras possibilidades, têm sido publicados livros com os resultados das recentes investigações, mas, no que respeita ao imaginário coletivo, o pós-25 de Abril não desfez nada do que o Estado Novo sedimentou.
EliminarPara dar apenas alguns exemplos (da época em que estou mais à vontade): continua a acreditar-se que Afonso Henriques tinha a missão divina de fundar o reino português; que é verdadeira a lenda de Egas Moniz (que foi de corda ao pescoço ter com Afonso VII, por o primo não lhe querer prestar vassalagem); que Afonso Henriques pôs a mãe a ferros, depois do combate de São Mamede; que D. Dinis mandou plantar o pinhal de Leiria; que a Universidade foi fundada em Coimbra, etc.
Antes de Camões, houve realmente criador de mitos. Todos os cronistas medievais (como Fernão Lopes) criavam mitos, pois consideravam sua missão agradar a quem os encarregava de escrever as crónicas. Isso era-lhes mais importante do que contar a verdade, fazia parte da mentalidade medieval. Os monges copistas agiam da mesma maneira.
P.S. Ainda se continua a confundir Templários com cruzados. Nas procissões, os miúdos vestidos de cruzados ostentam a cruz vermelha da Ordem do Templo, mais tarde da Ordem de Cristo.
EliminarPeço desculpa, mas não pretendi ser abusivo... apenas me surpreendeu a sua afirmação de que o Estado Novo criou esses mitos... o que não é correcto!
EliminarO Estado Novo continuou a fazer o que outros antes fizeram, e ainda se pratica, aliás.
Que regime não usou a literatura para esses fins? Diga-me...
Portanto, a literatura cria mitos, certo? E se fizermos um balanço, cria mais do que desmistifica ou não?
Bairradinas... isso é terra de "baga"... eheheh!
Amigo, eu não escrevi que o Estado Novo criou mitos. É inferência sua. Aproveitou-os e adaptou-os de acordo com a conveniência ideológica.
EliminarEstou de acordo numa coisa: a literatura pode criar mitos. Aliás, a literatura pode criar tudo, coisas deslumbrantes e coisas horríveis, como guerra, intolerância e morte. Também pode criar lixo de natureza variada.
Abraço e um copo bairradino; aliás, dois, não bebo sozinho.
Amei o título. Parabéns Mário Cláudio! Uma lufada lusitana (certamente) o leitor cultural, terá em apreciá-lo.
ResponderEliminarDe vez em quando há um Extraordinário que confessa não ter lido este livro ou aquele, aquele autor ou este. Eu nunca li uma obra de Mário Cláudio. Agora tem que ser. Se há um enigma para mim é haver alguém que tenha obtido tanta cultura quanta a de Camões. E depois o assombro: que talento!
ResponderEliminarDaquela época (um pouco antes) também é um mistério para mim o modo como se chegou à construção da caravela. Um dia teremos uma ficção sobre esse tema.
Extraordinário Amalivros:
Eliminar- Mas há excelentes obras sobre a caravélica questão! Até e sobretudo escritos por estrangeiros, investigadores da ciência naval ou meros curiosos da história, que também se debruçam sobre o nosso notável poder de fogo instalado nelas, ao tempo revolucionário, inovador e de uma superioridade absoluta! Estão íntimamente interligadas, a concepção e o desenho da caravela com finalidade bélica naval e o seu armamento, dado que se destinavam a isso mesmo, navegar para longe, carregar e impôr a força. No seu tempo, eram invencíveis.
Será isto outro mito?
Não... está estudado e comprovado, não se trata de propaganda salazarista! Eheheh!
Extraordinário Pacheco
ResponderEliminarPenso que se trata de assuntos distintos. A adaptação da artilharia aos navios é posterior à criação da caravela. Os franceses inventaram a artilharia nos combates em terra (isso lhes permitiu derrotar os ingleses na Guerra dos Cem Anos e expulsá-los do continente) e os portugueses adaptaram-na a bordo creio que apenas nos finais do século XV. Isso lhes permitiu o domínio dos mares durante certo tempo. A invenção da caravela foi fundamental para manobrar nas condições requeridas pelo avanço no Atlântico sul. Mas não embarcavam peças de artilharia. E não conheço prova de que tenham sido os portugueses a fazê-lo. Que fizeram uso inovador da invenção, isso sim. E aí está: deu-nos direito a umas páginas na História Universal.
Tem razão! Empolguei-me e baralhei-me... naus e não caravelas.... as naus eram fortificações ambulantes! Mas há de facto livros escritos sobre as caravelas, isso sim...
EliminarSaudações sem confusão... eheheh!