Perder

Em pequenos, nunca tivemos lá em casa animais de estimação – excepto um gato encontrado doente durante um Verão que, quando voltámos para casa, no fim das férias, foi com alguém que se ofereceu para cuidar dele, mas pouco depois fugiu e nunca mais se soube o que lhe acontecera. Lembro-me vagamente de um periquito – cuja gaiola a minha avó limpava afanosamente –, mas então já eu era adolescente; e também de um aquário com três peixes, dois dos quais morreram quase imediatamente, sobrando apenas o mais feio – que viveu até aos meus quinze anos, uma raridade. Recordo-me, porém, de alguém ter dado a um dos meus irmãos um grilo numa gaiolinha na primeira casa onde vivi (antes, portanto, dos meus seis anos) e de, por causa do sabão que escorreu dos lençóis do andar de cima (nesse tempo ainda não havia máquinas de lavar roupa), o desgraçado ter sucumbido e causado muitas lágrimas, sobretudo a esse meu irmão. Nunca é fácil lidar com a perda de um animal querido – e agora há um belo livro sobre o assunto chamado Gato Procura-se, assinado por Ana Saldanha e com ilustrações de Yara Kono. É, para abreviar, a história de um gato que morre; o problema é que os pais do dono, um rapazinho, não conseguem dar-lhe a notícia e inventam que o felino anda pelos telhados e um dia ainda há-de voltar; os avós não prometem o regresso, mas também arranjam eufemismos, dizendo que o pobre gato foi para o céu, que agora é um anjo, que tem asas e outras coisas do tipo. Só a criança, afinal, parece ter realmente a certeza do que aconteceu e perceber que o gato não regressará. Uma história simples mas bonita sobre a perda que poderá ajudar muitos pais a lidarem com a questão da morte de um animal de estimação junto dos filhos. Leitura sensível.

Comentários

  1. Hum, hum. Correndo o risco de pragmatismo e insensibilidade digo que embora a perda de um animal possa ser triste na medida da afeição que lhe dedicamos, o trauma cura - ou pelo menos minora - com a substituição do animal.
    Para as pessoas é que não há substitutos.

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  2. António Luiz Pacheco8 de abril de 2015 às 01:59

    Um bom tema... mas lá está, porque hão-de as crianças "ser poupadas" a certas realidades? Quantas das crianças modernas e dos meios desenvolvidos ignoram que a chuva molha e o vento é frio ou o Sol morde na cabeça? E sobre dor ou sofrimento que se evitam, como neste caso a perda? Temo que em vez de ficarem traumatizadas, cresçam adultos insensíveis isso sim... que ignoram que uma canelada dói!

    Nesta senda da perda do animal - eu que já perdi dezenas deles e daqueles especiais, também perdi pai e mãe, avós e entes queridos ou grandes amigos - lembro um grande livro de Manuel Alegre , "Cão como nós" ... um belíssimo tributo da amizade do dono a um cão.

    Saudações sensibilizadas cá da Cidade Morena

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  3. António Luiz Pacheco8 de abril de 2015 às 02:27

    A propósito da preparação da notícia, não resisto a contar uma velha anedota:

    - O Comendador tinha um gato pelo qual nutria a maior afeição, multiplicando-se em desvelos, carinhos e cuidados para com o felino, aliás e como habitual, de feitio instável e pouco colaborante.
    Sempre que viajava, deixava o gato entregue aos cuidados do seu jardineiro, cumulando-o de deveres e obrigações de zelo para com o animal.

    Aconteceu que numa dessas suas ausências o gato morreu! O pobre servidor, pesaroso mas lacónico enviou um telegrama (foi antes de haver telemóveis!) dizendo: “Gato morreu. Lamento.”.
    Bem… foi um drama, o Comendador teve um chilique, a ponto de ter de ser hospitalizado para observação e estabilização cardíaca, seguido de acompanhamento terapêutico por um psicólogo e tudo!

    O jardineiro chamado a capítulo perante todo o pessoal, foi severamente repreendido pelo prestimoso secretário do Comendador, em substituição deste ainda convalescente, sobre a forma abrupta e até brutal como a notícia do passamento do estimado felídeo foi transmitida! Poderia ter causado a morte do Comendador, pessoa sensível e já com problemas de coração.
    O homem, pessoa simples e para quem aquele tratamento de cuidados e mimos ao gato era madureza, questionava como deveria ter feito. O proficiente secretário explicou à assembleia doméstica que no caso de uma má notícia, deveria haver sempre uma preparação prévia! E exemplificava:

    Mandava um primeiro telegrama: “O gato subiu ao telhado!”.
    Ora o Comendador ficaria alertado, preocupando-se com o facto e esperando nada acontecesse ao gato, pela sua atitude arriscada!
    Seguir-se-ia um segundo telegrama: “Tendo subido ao telhado, o gato escorregou.”. Sem dizer ainda o pior, o Comendador ia aumentar o grau de preocupação, ao saber que o gato escorregara no telhado!
    Então enviava-se um terceiro telegrama: “Por ter escorregado no telhado, o gato caiu no pátio!”. Ora agora o Comendador estaria mesmo preocupado, mas gradualmente, sem ter sido de repente e temeria já o pior!
    Finalmente o último telegrama: “Por ter caído do telhado para o pátio, o gato morreu.”. Ora aí estava, o Comendador já preparado pelos telegramas anteriores num crescendo de gravidade e preocupação, aceitaria este desfecho como consequência lógica e sem choque de maior, apenas o normal pesar pela notícia…
    Haviam compreendido?

    Uns meses depois, o Comendador encontrava-se fora, e recebe um telegrama enviado de casa, pelo seu criado pessoal, dizia assim:
    “A Senhora sua mãe, subiu ao telhado!”.

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  4. Não se deve esconder a verdade das crianças, mas também não se deve deixá-las sozinhas com a sua tristeza e a sua amargura. O resultado é crescermos com vazios dentro de nós, que, mais tarde, apesar de já não sabermos de onde vêm, ainda nos causam incómodo.

    Também é melhor acompanhar a criança na sua tristeza, deixá-la desabafar e falar do que a incomoda, do que arranjar-lhe logo um animal substituto. Isso poderá acontecer, mas mais tarde, quando a tristeza pelo primeiro já estiver curada.

    Tenho a certeza que este livro que a Rosário recomenda lida bem com o assunto;) E ainda bem, livros destes são muito úteis e necessários.

    Essa coisa da substituição, tipo rei morto, rei posto, antigamente, também se aplicava às crianças, o que prova que, nos "bons velhos tempos" também havia falta de ética e confusão de valores. Na aldeia onde o meu pai nasceu e cresceu, só metade das crianças sobrevivia à infância. Ele próprio teria doze irmãos, em vez de seis, se todos tivessem escapado às doenças e sabe-se mais a quê...
    Quando nasci, nos anos 60, já era um pouco diferente, mas havia ainda a gente da velha guarda. Estando os meus pais, certa vez, lá de visita comigo, ainda bebé, eu ganhei febre. Sem carro e sem um médico à vista, a minha mãe afligiu-se. Ora, um tio do meu pai incomodou-se com tal frescura de mulher de cidade e berrou-lhe: "Mas está aflita com quê? Deixe-a morrer, que arranja logo outra!"
    Como se vê, nesse tempo, certas vidas humanas não contavam muito. Se calhar, uma vaca era mais preciosa, para um desses lavradores, do que um bebé, mesmo que fosse seu filho...

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  5. obrigado pela sugestão. Fiquei com vontade de ler.
    Conheço um senhor que já teve vários snoopys . Sempre que lhe morre um compra outro da mesma raça e dá-lhe o mesmo nome. Isto é muito injusto para o novo Snoopy , porque cada animal tem a sua personalidade. Os animais, tal como as pessoas, não se podem substituir.

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    Respostas
    1. Apoiado!
      A minha longa experiência de lidar com animais vítimas de dificuldades dá-me autoridade para reforçar a sua tese.
      É necessário sublinhar isto: - cada animal é um ser com a sua individualidade, a sua personalidade.
      Percebo tão nitidamente que cada um deles nos exprime isso de uma maneira tão óbvia, que me custa entender por que razão tantas pessoas não entendem isto.
      O que é certo é que, sempre que um animal em dificuldades se cruza comigo, basta trocarmos um olhar e ele confia em mim.
      Tenho tantas histórias...
      Sei que isto faz parte dos meus genes - herdei do meu avô materno, que até as galinhas baptizava, e elas vinham quando ele as chamava pelo nome.
      A minha mulher tem o mesmo dom.
      Devido a esta nossa capacidade, já nos passaram cá por casa dezenas de animais a precisar de ajuda. Uns foram ficando, outros (a maioria, porque isto aqui não dá para tantos) foram encaminhados para pessoas com a mesma empatia.
      Neste momento temos aqui em casa três gatas, uma cadela e um cão - tudo pessoal vindo de maus tratos, abandono, etc.
      Ainda há menos de uma semana adoptámos uma gatinha siamesa, baptizada de Lili (Marlene), abandonada no Porto. Veio substituir a Teresinha, da mesma raça, que morreu de velhinha...
      A bicharada cá de casa aceitou a Lili sem problemas de maior. Saem ao avô... (eu).
      Isto para não falar de um casal de sapos, que há uns anos se adaptaram aqui no pátio das traseiras, e que todos os anos reproduzem uns herdeiros, que depois vão à vida... Se calhar emigram, e depois as (verdadeiras, não as do Governo...) estatísticas da emigração, desemprego, e tal, são o que a gente sabe...

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    2. Gostei tanto, mas tanto, de ler este seu texto, JJ.
      E tem razão, os animais não são substituíveis, cada um tem a sua individualidade.
      Também eu tenho recordações inesquecíveis de alguns amiguinhos de quatro patas, especialmente gatos.
      Que bom haver pessoas como o Joaquim e sua mulher!
      Que todos os deuses do universo vos abençoem!
      :-)
      Antonieta

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    3. Ora, ora, Antonieta – não vale a pena estar a incomodar todos os deuses do universo, que, coitados, devem ter tanto com que se ocupar.
      A sua bênção, Antonieta, é quanto nos basta para nos sentirmos gratificados.
      Bem-haja.

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    4. Joaquim,
      Eu escrevi 'deuses' com minúsculas porque estava a pensar na "mother nature, brother sun and sister moon" e não nos Deuses convencionais, que devem andar atarefadíssimos (e sem grandes resultados, diga-se).
      Não me sinto capacitada para abençoar ninguém, mas podem contar com toda a minha admiração.
      Abraço para ambos extensivo a toda a bicharada.
      :-) Antonieta

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