Eruditos e analfabetos

Almeida Faria foi o autor homenageado este ano pela revista das Correntes d’Escritas, com vários artigos a ele dedicados por autores e estudiosos como Ana Luísa Amaral, Cristina Robalo Cordeiro, Hélia Correia, Isabel Pires de Lima ou Lídia Jorge. No seu discurso de agradecimento durante a sessão inaugural, o escritor contou uma história deliciosa. Quando se estreou na literatura aos 19 anos com Rumor Branco – uma obra considerada de grande modernidade e que gerou inclusivamente controvérsia entre os seus defensores e os seus detractores – vivia no Alentejo numa zona extremamente pobre e onde quase ninguém sabia ler. O romance – decerto muito pouco convencional para a época – não deve, pois, ter convocado a simpatia de muita gente por ali, talvez nem sequer a da mãe do escritor, que terá comentado a sua dificuldade com a criada analfabeta. Mas Almeida Faria passou, de qualquer modo, a ser considerado na sua terra uma pessoa importante e, tendo sido visto certo dia numa livraria, logo foi fotografado e objecto de uma notícia no jornal local, que referia detalhadamente as obras que tinha comprado. Ora, vendo a fotografia do rapaz no jornal aberto e inteirando-se do que ali se contava, parece que a criada analfabeta não esteve com meias medidas e lhe terá dito: “Pronto, agora, que o menino já tem esses livros todos, já pode copiar e fazer um livro como deve ser, com aventuras e tudo.”

Comentários

  1. António Luiz Pacheco2 de abril de 2015 às 04:21

    Ahahah!
    A sabedoria simples e directa de uma mente que não tem por isso muitas dúvidas!

    A Cristina Torrão vai-me desancar, mas tenho u ma história parecida de quando me divorciei da minha primeira mulher, e minha mãe comentava isso com uma criada daquelas de toda a vida lá em casa e de muita confiança, a Antónia da Graça, conhecida por "Átóininha".
    A resposta e remédio proposto por esta foi assim mesmo: "Ó menina, aquilo ele dê-le uma cura!".
    Esclareço que "dar uma cura", no Bairro Ribatejano significa dar uma sova, e aplica-se no sentido de correctivo dado aos cachopos ou neste caso, às esposas relapsas!
    Até a minha ex-mulher se riu...

    Saudações saudáveis cá da Cidade Morena!

    ResponderEliminar
  2. Tenho andado curioso por ler um romance curto que publicou nos anos 90, O Conquistador; parece que é uma sátira de D. Sebastião.

    ResponderEliminar
  3. Se a memória não me falha, O Conquistador foi mal recebido pela crítica.

    ABC

    ResponderEliminar
    Respostas
    1. A crítica desta país considera Gonçalo M. Tavares e Agustina Bessa-Luís escritores a sério. Eu julgarei por mim a qualidade do livro.

      Eliminar
  4. No programa "A Força das Coisas" Almeida Faria contou que só a partir dos 16 anos começou a interessar-se pela leitura e em simultâneo pela escrita. Diz ele que a importância das duas lhe foi suscitada pelo professor Vergílio Ferreira. Até aí só tinha lido livros de caça que pertenciam ao pai.
    Foi um belo elogio à qualidade do professor.

    ResponderEliminar

Enviar um comentário

Mensagens populares deste blogue

Em Berlim

O que ando a ler

O principal e o acessório