Utopia

A Europa está de rastos, já o sabemos – e as ameaças que vêm de fora são muitas. Olhar para a Europa hoje e imaginar o que pode acontecer-lhe neste século é um exercício interessante, e foi exactamente isso que fez Miguel Real no seu mais recente romance, O Último Europeu, que acaba de sair para os escaparates. A obra tem como narrador um Reitor da Nova Europa, um enclave dentro de uma Europa que, com o esgotamento dos recursos, as guerras e a fome, se tornou um gigantesco baldio no qual imperam clãs violentos. Nesse pequeno reduto de calma, protegido do resto do mundo por um cordão de segurança, um grupo de sábios conseguiu, porém, construir uma sociedade perfeita, mesmo que algo fria, na qual os habitantes podem suprir todas as necessidades, desejar o desejável e viver em equilíbrio. As coisas correram maravilhosamente até ao momento da narração, o ano de 2284, mas agora a Grande Ásia, lutando com problemas sérios de demografia, reclama o espaço da Europa para arrumar os seus habitantes. E, então, aquilo que era um paraíso comandado por uma tecnologia de ponta, deixa de o ser. O Reitor, um dos poucos que ainda conhecem a história da velhinha Europa, encabeçará um grupo de pessoas em fuga para a replicação da sua utopia num outro território. Consegui-lo-á? Esta aventura, que só aparentemente é ficção científica, constitui uma reflexão extremamente actual que devemos acompanhar até para entendermos o que podemos fazer já pelo nosso futuro.


 


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Comentários

  1. Claudia da Silva Tomazi26 de janeiro de 2015 às 02:11

    Dois parágrafos Rosário? (foi exata)

    Gosto do Miguel Real, é disciplinado.

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  2. Bem, parece a replicação de Tróia. Destruída pelos gregos, eliminada do mapa, Tróia lança Eneias em fuga pelo mar para que vá replicá-la noutro lugar.
    Presumo que Miguel Real não quis ser irónico quando colocou o último representante daqueles que andaram a exterminar povos pelos quatro cantos do mundo a fugir para um lugar ignoto para aí sobreviver.

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  3. António Luiz Pacheco26 de janeiro de 2015 às 04:22

    Gosto muitíssimo de ler Miguel Real!

    Pelo tema, este deve ser um romance de que vou gostar, escrito por um autor a meu gosto!

    A ver se me compensa do imenso barrete e decepção que foi " Serpa Pinto - o mistério do sexto império" (que dirá Mário de Carvalho a um título com tamanha cacofonia?).

    Já agora, e a propósito do comentário de Amalivros que entendo perfeitamente o que quer dizer, parece-me no entanto que ninguém andou a exterminar ninguém, nunca... o que sucedeu sempre ao longo da história e desde o início da humanidade é que toda a gente andou sempre a exterminar aos outros!
    Os espanhóis exterminaram os aztecas que haviam exterminado outros... os novos americanos exterminaram os apaches que havia exterminado os hopi e os pueblo... a até os europeus esclavagistas dos séculos anteriores fizeram escravos a povos que escravizavam outros por sua vez... e por aí afora, numa girândola interminável.
    E creio que nunca terá fim!

    Tenho curiosidade sim em saber para onde será a fuga... que território poderia ainda albergar a tal sociedade liderada pelo sábio? E como terá sido imaginado o êxodo?

    Saudações expectantes cá da Cidade Morena.

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    1. A fuga vai ser para o Peloponeso, mas o título do "post" deveria ser Distopia.

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    2. O facto de outros terem cometido crimes antes de nós não quer dizer que também os cometamos. Espero, por exemplo, que não se repita, na Europa, um holocausto. Mas, sabendo da resistência da natureza humana em aprender com o passado, receio que...

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    3. António Luiz Pacheco26 de janeiro de 2015 às 10:54

      Hum... não é esse o ponto Cristina. O que eu refiro é que não há este ou aquele culpado, e sim que TODOS os povos são responsáveis por terem agredido ou extinto outros. Tal não desculpabiliza ninguém, mas devia dar que pensar, repito, pois os extintos foram muitas vezes quem extinguiu outros antes de serem por sua vez extintos... tal como a noite sucede ao dia...

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    4. Insisto em que se deve parar com esse tipo de aceitação. Enquanto compararmos acontecimentos desses com a noite a suceder ao dia, ficamos passivos, como quem diz: nada a fazer, é mesmo assim, paciência!

      É preciso acreditar que é possível mudar! Só assim se poderá mesmo mudar alguma coisa e, não, encolhendo os ombros.

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  4. nunca li Miguel Real (tenho dois livros dele em casa...).

    nunca calhou, como acontece com milhares de escritores.

    acho estranho (e curioso) um romance de 2284, só ser,aparentemente, ficção científica.

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    1. Claudia da Silva Tomazi26 de janeiro de 2015 às 15:28

      Luís Eme qual o critério a comprar vossos livros?!

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    2. Este "que so aparentemente e ficcao cientifica" revela preconceito contra a ficcao cientifica, entendendo-a apenas como aqueles textos mais basicos de space opera... Claro que o livro de miguel real e, tambem, um livro de ficcao cientifica. E isso nao o menoriza, apenas ajuda a encaixa-lo.

      (nao tenho acentos, o meu pedido de desculpas)

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    3. hoje estou numa fase que evito comprar livros (embora nem sempre o consiga...), por falta de espaço para os arrumar em casa e por ter largas centenas de livros que sei que não os irei ler, alguns de bons autores, Cláudia.

      mas compro livros de autores que gosto, sobretudo.

      claro que quando aparecem boas sugestões (sucede com frequência aqui) também são bem recebidas. :)

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  5. Claudia da Silva Tomazi27 de janeiro de 2015 às 01:57

    O escritor Miguel Real está a inaugurar (experiencializar) sob nova perspectiva a literatura portuguesa; há quem afine e de mais a mais escrever é também, avaliar expressão de idéias ou ideais em "conflito".

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  6. António Luiz Pacheco27 de janeiro de 2015 às 02:17

    Vivam todos... waláli!

    O importante são os "elivulo", em si e por si... haja muitos, escrevam-se muitos, sobre todo e qualquer assunto, pois haverá sempre quem os leia!

    Tenho tanto livro que jamais lerei... mais do que os que já li, ou irei ler, e como dizia o outro: "De que serve uma biblioteca, só com livros já lidos?"

    O pior é mesmo a falta de espaço... esse o nosso grande inimigo!
    Imaginem que guardo ainda os manuais da Escola do Exército de meu pai e avô... alguns foram-me úteis na pesquisa do meu Largueza, quem diria?

    Tua pandula!
    Saudações da Cidade Morena

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