O rasto dos leitores nos livros

Não costumo pedir livros emprestados, embora empreste livros com grande frequência. Não é que seja niquenta e me custe ler o alheio; mas a verdade é que já tenho tantas leituras atrasadas entre os volumes que o Manel e eu trazemos para casa todos os meses que não há quase nunca ocasião para pedir a alguém mais um livrinho que seja. No entanto, já me aconteceu no passado ler muita coisa que não me pertencia – e é muito curioso verificar as marcas que cada leitor pode deixar num livro: sublinhados a lápis ou a caneta fluorescente (muitas vezes referentes a passagens de que se gostou ou a frases que simplesmente vão ser úteis no futuro), páginas dobradas que mostram que o dono do livro não chegou se calhar até ao fim, gralhas assinaladas (nem sabem o jeito que daria aos editores que os leitores no-las enviassem para correcção em edições futuras), pequenos apontamentos que são também indícios da leitura feita e da consequente reflexão; e, ainda, a marca que marca o livro – e que até pode vir de outro livro qualquer (o que nos permite saber o que o nosso emprestador andou a ler para além, claro, do livro que nos emprestou). Neste Natal, a Livraria Barata pediu-me que lhes facultasse um poema meu já antigo alusivo à quadra natalícia para o porem num marcador que seria oferecido aos compradores da livraria. Talvez algum dos Extraordinários o encontre um dia dentro de um livro, emprestado ou não. Ele aqui vai e, se calhar, está neste momento a marcar páginas de um livro que nada tem que ver com poesia...


marcador verso poesia 2.jpg


 


 

Comentários

  1. Claudia da Silva Tomazi8 de janeiro de 2015 às 02:04

    Fora hábito (desagradável) e café, alguns compartilham pequeno gesto este, amigável.

    2015 pode ser diferente? Sim, este ano é por excelência exótico.

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    1. Sempre que leio um livro alheio faço questão de deixar uma marca entre as suas páginas. Normalmente é uma impressão de uma imagem ou citação que me apraz.

      Este poema é muito sentido e já há muito faz parte do meu reservatório de emoções. Agradeço a simplicidade com que o transpôs em palavras.

      ( http://poeiraresidual.blogspot.pt/2014/04/ficou-vazio-o-teu-lugar-mesa-m-rosario.html )

      Atentamente,
      Adelaide

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  2. também não peço (embora às vezes me emprestem livros, porque acham que os devo ler...).

    sou mais de emprestar (embora cada vez com mais cuidado, porque entretanto houve alguns que se perderam pelo caminho...).

    gostei do marcador, e do poema, claro. :)

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  3. Havia um escritor famoso não me lembro agora do nome que dizia que os livros ficavam zangados quando eram emprestados e por isso não voltavam...
    Em relação a este poema já o li por diversas ocasiões, é um poema cheio.

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  4. Quando me emprestam um livro leio-o muito rápido, como se este estivesse ansioso por regressar a casa dele. Mas prefiro ler livros que compro pois gosto de marcar a minha passagem por eles, como um animal a marcar o território. A minha viagem é feita de sublinhados constantes e comentários que, acho, sou eu a escrever no meu cérebro.

    De uma triste doce o poema...

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  5. A melancolia da perda na época natalícia não podia ser melhor espelhada do que neste belo poema da MRP. Obrigado !
    Ao contrário da minha mulher, eu não gosto de sublinhar, anotar ou de algum modo alterar (exceto deixar vincos de dobra de página) os livros, mesmo os meus, que vou lendo. Acho, se calhar estupidamente, que os dessacralizo e leso irreparavelmente. Se for livro de estudo, trato-o exatamente ao contrário: sem o menor respeito.

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  6. Tem graça: isto de os leitores deixarem um rasto nos livros faz-me lembrar um comentário que aqui coloquei no post de 8 Julho 2011, o qual era sobre os brindes que as editoras por vezes atam aos livros.

    “(...) isto fez-me, justamente, entender plenamente o que é a essência do conceito de livro.
    Um livro, para adquirir a plenitude do seu estatuto, deve transitar antes de chegar às nossas mãos. Esse trânsito anterior acrescenta-lhe conteúdo, enriquece-o com algo de dificilmente definível, qualquer coisa extra que lhe é incorporado pelos anteriores leitores, e que fica ali subjacente, impossível de ignorar quando eu exerço a nova leitura.
    Quer dizer: cada livro que aqui (nas feiras de velharias / livros em segunda mão) compro traz consigo, já intrínseco, algo de extra, o brinde deixado à minha imaginação pelo(s) anterior(es) leitor(es).
    Não existem regras para isto – ou, se existem, não foram ainda sistematizadas (ainda bem…).
    Tenho encontrado as mais variadas pistas deixadas por anteriores leitores. Algumas visíveis. Num caso concreto, liguei para o nº de telefone que vinha apontado numa das páginas. A pessoa que me atendeu não tinha sido proprietária transitória do livro. Mas, graças ao meu contacto, leu o livro e, mais tarde, telefonou-me a agradecer, porque o tinha lido na expectativa de que, falando dele no seu círculo de relações, haveria de descobrir quem havia acrescentado o seu nº de telefone ao livro. E descobriu. E consolidou essa amizade.”

    Ora bem: se esta pessoa tivesse o talento de Maria do Rosário teria feito um poema à amizade consolidada graças ao rasto deixado num livro – e esse poema daria, também ele, um belíssimo marcador.

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  7. Desculpem a minha grosseria e o meu egoísmo, mas de tudo o que possuo e posso emprestar, a única coisa que não empresto é precisamente um livro. Quando me chega às mãos um livro, sinto-o como uma parte de mim. Bem sei que é um sentimento de posse abusivo, mas que fazer? Normalmente, aconselho alguém amigo ou conhecido a comprar ou a requisitar numa biblioteca, mas emprestar não consigo... Também não os sublinho nem anoto, marco-lhes o canto da página para saber que ali está algo que me interessou. Os meus livros do Roth, por exemplo, estão quase todos de cantos dobrados. Há por lá coisas que me fascinam. Mas não são únicos...
    O poema da Rosário já muitas vezes o li em silêncio como uma oração à minha avó, pois foi precisamente depois de morrer que as noites de Natal, cheias de família, terminaram... Somos poucos e ela era o pilar de tudo...

    Um abraço aos extraordinários e desejo a todos um excelente 2015.

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  8. Troco muitos livros com amigos, leitores confiáveis, mas, para além dos marcadores, o único rasto que deixo são post-its. Só a ideia de riscar um livro ou dobrar-lhe as páginas já me arrepia :)
    Acho que sou uma leitora atenta e é muito comum descobrir pequenas gralhas (bom, às vezes grandes erros), mas desvalorizo sempre a comunicação ao editor. Acabo por partir do princípio que alguém já terá reportado ou que são coisas são pequeninas que vão parecer mais mesquinhas do que importantes. É bom saber que estou errada.

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  9. Pois a minha relação com os livros é um pouquinho diferente. Sou Bibliotecária, e empresto livros. Adoro emprestar livros, como é evidente. E depois gosto de me por a analisar aquela folhinha que colocamos na página anterior à página de rosto. Aquela justamente onde colocamos a data da devolução do livro. E a seguir, gosto de lhe observar as datas. Quase como se aquilo fosse... um passaporte. E tenho aqui livros com os carimbos de tantos "países"! Depois, no quentinho do meu lar, quando os leio, gosto de pensar que aquela parte especifica, aquela mesma que me está a emocionar ou a divertir, já foi partilhada por uma data de gente. E aquele livro concreto, de certa maneira "foi o veículo de tanta emoção". Que fez parte integrante, por 15 dias ou mais, das nossas vidas. E o que se lá vai encontrando dentro, Deus do Céu! Até bilhetes da Carris dos anos 80. Ou então bilhetes de cinema. E sabem que mais? Eu deixo-os lá ficar.

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  10. Gostei muito do poema, obrigado pela partilha.

    Eu sou dos que emprestam livros, às vezes até os impinjo, gosto que eles viajem e não fiquem prisioneiros de estante. Claro que muitas vezes não voltam e deixam saudades.

    Por curiosidade, quando li "Galveias", descobri uma gralha e anotei. A partir daí anotei todas as que apanhei e foram umas 4 ou 5. Quando o José Luis Peixoto apresentou o livro em Aveiro mostrei-lhas, ele agradeceu-me e tirou fotos com o telemóvel às páginas, julgo que com esse intuíto de poderem ser revistas numa possível futura edição.

    Rui Miguel Almeida

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  11. Só empresto livros, o resto (pelo menos aquilo que é passível disso) prefiro dar.

    Quanto ao poema, acho que vai directo ao alvo.

    É na quadra Natalícia, sempre cheia de bons momentos e recordações, que as saudades nos atingem com mais veemência.

    Aceitem a dádiva deste abraço virtual.

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  12. Claudia da Silva Tomazi8 de janeiro de 2015 às 07:07

    2004 houve lançamento do livro 'O Jardim de Judith' da escritora Ruth Laus, está homenageara a cada ano um de seus irmãos com livros (considerava todos poetas).

    2004 seria o ano de Judith, livro com assinatura de cinquenta poetas; a noite do lançamento alguns estavam presentes entre eles Dennis Radünz a dedicatória no meu segundo exemplar "Cláudia as palavras fogem". Havia eu extraviado o primeiro.

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  13. Quase posso afirmar que a única coisa que tenho são livros. Tomo o livro como um objeto precioso. Não os sublinho, não aponto nada, não faço observações à margem, nem sequer dobro os cantos da página quando interrompo a leitura, uso uns marcadores que eu próprio fabrico.
    A opção dá-me trabalho pois todos os registos que sou compelido a realizar faço-os em pequenas folhas de papel que sempre os acompanham. Tiro daí uma vantagem: quando se trata de livros de bibliotecas já encontro o método enraizado.

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  14. Eu também não costumo ler livros emprestados (porque tenho tantos para ler!), mas empresto bastante. :)

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