Falta de jeito

Eu bem sei que hoje não é dia de palavrinhas (nem de expressões em desuso), mas reparo nos originais que todos os dias inundam a minha secretária que a maior parte dos candidatos a escritores (e alguns escritores também) não sabem escrever a palavra «aselha», colocando um Z no lugar do S. Acho que eu própria, em miúda, pensava que o Z é que ficava lá bem quando chamava aselha a alguém, mas devem ter-me ensinado a ortografia correcta entretanto e não voltei a enganar-me. Uma aselha é, como sabem, uma pequena asa, uma pega, uma presilha; e vem seguramente da palavra «asa» que, segundo leio algures num blogue, já se escreveu em tempos «aza» (daí «azelha», que apareceu assim escrito em Camilo, por exemplo). Mas que ligação tem uma pessoa desajeitada a uma pega, não me dizem? Pois bem, nesse mesmo blogue alguém explica que em tempos que já lá vão, no Norte do País, se chamava aselha a um grande contentor de barro sem asas (coisa estranha nomear pela ausência, mas talvez seja verdade) e que de tal forma dava pouco jeito transportá-lo que passou a dar-se esse nome a qualquer um que se mostrasse francamente desajeitado ou, por outras palavras, a uma pessoa que não tinha por onde se pegasse. Justificação científica ou não, a história tem pés (de barro ou não). Mas é hoje uma completa aselhice pôr Z em «aselha».

Comentários

  1. Claudia da Silva Tomazi com z28 de janeiro de 2015 às 02:29

    Quanto ao Brasil, sim há o famoso jeitinho brasileiro e quem herda conselhos faz história.

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  2. Upsss...eu imediatamente fui confirmar o meu aselhices imperativas. Ufa!!! Ainda bem que não me enganei, mas pronto, já teria alterado agora. Só prova que, na verdade, não tinha tanta certeza acerca da escrita do termo.

    É que, não sei bem porquê, um aselha com z -"azelha", portanto -, parece-me muito mais inábil. Coisas. Que não são verdade.

    Mas a história de um asado sem asa (um desasado tb designa alguém meio sem saber como agir por lhe ter sido sonegado o argumento ou a ferramenta a utilizar) faz sentido para origem do termo.

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  3. Curioso: quer isso dizer que há uma enchente de novos livros sobre aselhas? Que ilações sociológicas podemos extrair daí?

    :)

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  4. Ainda hoje não consegui compreender como palavras como aza e azelha , perdão asa e aselha, ficaram incólumes à loucura reformista dos últimos anos.
    E estava aqui a pensar, face aos erros ortográficos denunciados pelo Crato em provas xaradas devidamente carimbadas pelo NAO , quantos azelhas " criarão cada vez mais colmeias de azelhas " num futuro não muito longínquo, quando se mudar a ortografia de asa e aselha com um NIAO (um novíssimo acordo ortográfico).

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    1. Vamos que a pessoa desasada em causa é de seu nome Zé (m.) ou Zélia (f.).
      Nesse caso não seria de, caridosamente, o Acordo Ortográfico dar asas à justiça e abrir, para esses infelizes “azelhas”, esta excepção?

      (Ou será uma infelis exceção? É que isto do A.O. deixa-me às veses tão dezatinado que até troco os bês pelos vês...)

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    2. Ó Pedro ainda gostava que fosse esclarecido que erros ortográficos deram os professores? era de toda a justiça -para os professores, note-se- que isto fosse esclarecido; é que, sinceramente, se há professores a darem erros ortográficos então não podem mesmo ser professores.

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    3. Tem razão, Severino, mais a mais se os erros forem demasiados e recorrentes. É verdade, no entanto, também, que a recorrência não se avalia numa única prova, ao contrário da avaliação que deveria ter sido feita de forma exigente durante o período de formação pedagógica. Isso remetia-nos até para ensino público, ensino privado. Avalie-se, então, a formação específica e pedagógica para o ensino. Mas estou convencido que muitos dos erros ortográficos devem ter a ver com o NAO. E mesmo que o não sejam, não há ninguém que não os faça (desde que, com conta, peso e medida). E Severino em 2015 o ministério do senhor Crato deveria saber que a aprendizagem hoje é para a vida.
      Mas pior que a abordagem da avaliação de parâmetros como a escrita é o horror de algumas perguntas, autênticas xaradas , algumas delas feitas num português muito pouco entendível.

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    4. Mas ó Pedro temos que ser exigentes connosco e ainda mais se torna obrigatória tal exigência a quem tem responsabilidade de ensinar os outros...e, sinceramente, quem escreve á sem agá e com sinal de pontuação agudo para mencionar que aconteceu á (há) dez horas não pode ensinar ninguém...
      Contudo, não me admiraria nada que estas provas possam estar cheias de outras armadilhas, ai isso acredito, porque não confio nesta gente...

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  5. A explicação seria mais lógica se o facto de a asa (ou a pega, presilha) ser pequena dificultasse o pegar no objeto que a ostentasse.

    Mas, pronto, nem sempre a lógica dita estas evoluções linguísticas.

    Uma outra evolução que considero interessante é a da palavra vilão/vilã, que, na Idade Média, queria simplesmente dizer habitante da vila. O sentido pejorativo terá vindo do facto de os cavaleiros nobres desdenharem dos cavaleiros vilãos (que Afonso Henriques, aliás, muito respeitava e estimava). Em finais da Idade Média, as cantigas de escárnio já se fartavam de os satirizar (Charlie Hebdo lässt grüßen), chamando-lhes também coteifes. O termo foi adquirindo então esse sentido desprezível. Um outro caso parecido constitui a palavra barregã, mas não me vou alongar mais. Fica para a próxima ;)

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    1. Cristina, e o feminino mais engraçado, viloa!

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  6. Interrogo-me sobre a razão de tão abundante ocorrência do termo em originais de ficção. Será que predomina o pendor autobiográfico?

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  7. Há muita aselhice de origem asinina.

    ABC

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  8. António Luiz Pacheco28 de janeiro de 2015 às 06:35

    Confesso a minha aselhice!!!!
    Mas acho que escrevo com s, porque de asa...

    Mas escrevo Luiz e Tereza (a minha irmã) e Brazil!
    Aprendi a escrever assim na escola, e ficou-me... mas no cartão de cidadão vem lá Luis, pois vem. E eu ralado!

    As minhas professoras primárias, hoje dariam cada palavra cada erro certamente, e o que o Crato se esqueceu de dizer (calhando) é que os professores deram erros ao abrigo do AO ... e não da ortografia com que foram formados! Era caso para o avaliar a ele, e ver quantos erros dava... ah! Pois é...

    Peço muita desculpa à Estimada e Extraordinária Anfitriã, e aos demais Extraordinários, mas continuarei a dar todos os erros que calhem, e nem por isso vou deixar de escrever... os erros de ortografia podem ser corrigidos, mas aquilo que importa, a verve, a alma e o espírito, esses não.

    Haja escrita e haja escritores!
    Haja quem leia e coisas boas para ler!
    Que se lixe o AO.
    Que se lixe o Crato, que nem com o Prior do dito a gente nos démos bem...

    Saudações lixadas desde a Cidade Morena.

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    1. estava a pensar exactamente isso, extraordinário Luíz (com zzz, claro). :)

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  9. Diz o dicionário da Porto Editora:
    Do latim *ansicŭla-, «pequena asa»

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