O doente opiómano

Sigo, em regra, a obra de autores de que gosto – e Sándor Márai é um deles. Li, por isso, um dos seus últimos romances publicados em Portugal, mais concretamente A Irmã, que é também um dos mais estranhos dos que conheço do escritor. Assim que começa, percebemos que algo vai correr mal, com o tempo terrível que se instalou e o narrador apanhado pela tempestade numa albergaria de montanha, a poucos dias do Natal. Nesse mesmo local, encontra-se um músico outrora muito famoso, que desapareceu da ribalta ninguém sabe bem porquê e que partilha com o narrador a história da doença que o afectou, impedindo-o de voltar a tocar. Diz, aliás, que escreveu um texto sobre o período da doença e promete mostrá-lo ao seu interlocutor, mas desaparece da albergaria sem o chegar a fazer. Muitos anos mais tarde, depois da sua morte, o manuscrito vem, porém, parar às mãos do narrador, seguindo a vontade expressa pelo falecido. E é esse texto que constitui a segunda parte do romance, que é uma espécie de diário do doente num hospital em Itália, onde quatro irmãs cuidam dele à vez e lhe administram morfina para as terríveis dores que um estranho vírus lhe provoca. É bastante soturno, devo avisar, e algo misterioso também, pois a recuperação do músico depende do amor e há uma voz que lhe segreda uma noite que não o quer ver morrer, mas ele ignora a qual das irmãs pertence. Talvez àquela que lhe oferece uma dose que podia ser letal... A ler, embora não seja dos meus preferidos do escritor húngaro.


 


Comentários

  1. Sándor Márai "agarrou-me" com o excelente "AS VELAS ARDEM ATÉ AO FIM" e também gostei do LEGADO DE ESZTER mas "A MULHER CERTA" afastou-me deste autor...

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  2. Deixou-me de pulga atrás da orelha.
    Vou procurá-lo...

    Bom dia a todos...

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  3. Tal como aconteceu com a MRP, também não é dos meus romances preferidos do Marai. Confesso a minha fraqueza: desisti dele ao fim de uma vintena de página enquanto que a minha mulher o leu até ao fim e com agrado. A minha fraca perseverança talvez seja devida a ter achado que a narrativa não andava com a velocidade e as mudanças que me atraíram noutras obras do húngaro.

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  4. Claudia da Silva Tomazi9 de setembro de 2014 às 04:30

    Desconhecer a editora D. Quixote nem deveria estranhar outros, a conhecê-la começaria com autor premiado Manuel Alegre a obra "Barbi-Ruivo meu 1. Camões".

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  5. Curioso. Um dos autores de que não consegui ler quase nada, preso em Divórcio em Buda. Aliás como o Ulisses do J. Joyce . Obra-prima que vou lendo arrastadamente (diferente da apreciação que faço dos seus jogos de palavras) ao sabor de dias mais repletos de água, marcando-o como quem regista o pico de inundações. Todos os anos consigo atravessar mais umas muralhas, não sei se por ter crescido e atravessar mais facilmente o caminho, se por teimosia de não deixar uma palavra por ler, como comida no prato, por respeito a tantos em privação extrema. Lá chegarei, entretanto, que por cada nova investida, cada novo passo em frente, tenho de fazer dois para trás. Penso que há autores que põem à prova a nossa maturidade. :)

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  6. Tenho dois na estante de livros a ler no quarto. Mas o raio do Tempo...

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  7. Boa noite Maria do Rosário,
    vou começar a ler um livro da sua edição, «A demanda de D.Fuas Bragatela » de Paulo Moreiras. A história medieval portuguesa suscita-me bastante interesse, mas o que me despertou mais a atenção foi o seu título original.
    Após a leitura deste livro, irei seguir o seu anterior conselho e ler uma obra de Mário Cláudio.
    Obrigada e cumprimentos.
    Fernanda

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    Respostas
    1. Fernanda,

      Deixe-me que lhe diga: considero "A demanda de D. Fuas Bragatela" uma obra-prima da literatura portuguesa do século XXI. Merecia ter tido prémios literários e merece, sem dúvida, muitos mais leitores. Se gostar pelo menos metade do que eu gostei, então vai adorar!

      Rui Miguel Almeida

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    2. Rui,
      comecei ontem a ler o livro e promete. Tenho é que ter o dicionário sempre à mão!
      Obrigada e cumprimentos.
      Fernanda

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    3. Mas atenção ao Mário Cláudio pois não é uma escrita fácil, por exemplo:
      - "CAMILO BROCA"-um grande livro;
      - "RETRATO DE RAPAZ" uma grande pastilha"!

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  8. Este foi um dos livros das minhas férias. Espero que já haja edições mais bem revistas, pois a que eu li estava sofrível.
    Nada diz neste texto sobre o que é talvez o tema central do livro: a renuncia ao amor ou à própria vida, feita por amor.
    Gostei muito desta história, com os seus contornos soturnos (há um suicídio de um casal de amantes logo no início do livro), embora me tivesse obrigado a abster-me da vontade de pegar num lápis e começar a fazer a minha revisão, como se de um original se tratasse, tal era a quantidade de erros e disparates. Depois fui ver se já alguém tinha escrito sobre isto na Internet e, sim, já, pelo que decidi ignorar e ler até ao fim. E vale a pena. Tal como li As Velas Ardem Até ao Fim e A Herança de Eszter. A seguir, um dia destes, virá A Ilha. Este autor consegue escrever como ninguém sobre a condição humana, sobre a amizade, o amor, os percursos da vida e as opções que vão levando a que os percursos de definam. Obrigada por me ter dado a conhecer este autor, que descobri aqui.

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  9. Deste autor só me falta ler esse livro e Os Rebeldes. Adoro!

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