Caderno de memórias
Ainda ontem falava aqui de palavras e é curiosamente também disso que trata um romance que saiu recentemente, da autoria de António Tavares, vice-presidente da Câmara da Figueira da Foz que tem o pelouro da Cultura. O livro, que se intitula As Palavras Que Me Deverão Guiar Um Dia, é como a reprodução de um caderninho comprado na infância, em Moçâmedes, que vai sendo alimentado ao longo do tempo – com palavras, claro, mas também cabelos, fios, nódoas e outras recordações marcantes. Está é, em suma, uma história de crescimento em Angola, onde o autor nasceu, muito ao género de Cinema Paraíso – esse filme sublime – mas com livros; livros que vão parar à mão do protagonista e da sua pseudonamorada (uma rapariga que parece indiferente a tudo, menos aos limões, até descobrir a leitura) por causa de uma carrinha-biblioteca vendida à sucata onde ambos passam a maior parte do dia, lidando também com os despojos das memórias alheias. A aprendizagem dos números com uma fita métrica, o primeiro sexo, a descoberta do corpo, a paixão adolescente por uma actriz de cinema, bem como temas mais latos como a vida num bairro fechado, as perseguições da PIDE, a Guerra Colonial ou a influência da igreja católica no período anterior ao 25 de Abril, compõem um texto belíssimo e inspirador, que não por acaso foi finalista do Prémio LeYa no ano passado. Um caderno para abrir e ler de uma assentada.
P.S. Depois de amanhã, se estiver perto, assista à primeira apresentação do romance, às 18h30, na Assembleia Figueirense, a cargo do professor José Augusto Bernardes.
Muito interessante. Mas fico de pé atrás sobre a qualidade da revisão quando no título de um livro se deixa passar um erro. "As palavras que me deverão guiar um dia" soa bem em linguagem diária e toda a gente insiste nesse erro nas conversas de café (e não só): o de colocar a partícula reflexiva longe do verbo a que diz respeito (neste caso, 'guiar'). Correcto num lugar tão saliente como um título, teria de ser: "As Palavras Que Deverão Guiar-me Um Dia".
ResponderEliminarCreio que já discutimos este assunto anteriormente. Continuo a defender a correcção de frases como a do título deste livro uma vez que o pronome relativo é um atractor e, como tal, atrai para junto de si o clítico. Ver, por exemplo, Gramática da Língua Portuguesa, p. 853 e seg., de Maria Helena Mira Mateus et al.
EliminarJCC
Não é erro. Acabo de consultar a doutora Almira Soares, especialista na matéria e muito generosa a partilhar a informação. Forneceu-me este link, para um capítulo da Gramática de Celso Cunha sobre o assunto transcrito no Ciberdúvidas. Peço que preste especial atenção a: II, 2º, d). O exemplo é:
Eliminar«O sufrágio que me vai dar será para mim uma consagração.»
http://www.ciberduvidas.com/pergunta.php?id=12342
O Ciberdúvidas, todavia, aceita também a sua versão.
Assim aprendemos todos.
OK, creio também já termos tido esta discussão. Para mim, é menos correcto e continuo de pé atrás com o espanholismo. :) Também há gramáticos que aceitam "ter a ver com" (galicismo) em vez de "ter que ver com" (portuguesíssimo) e já cheguei a ver dicionarizado "despoletar" no sentido de "espoletar"; também, pasme-se, já encontrei "desfolhar" com o sentido de "folhear", num conhecido dicionário. Mas não é por isso que concordo com estas leituras mais popular da língua. Digamos que, para mal dos meus pecados, sou um purista. E se nada disto me chateia ao longo do texto, sobretudo em diálogos, confesso que sou muito rígido nos títulos...
Eliminarmais populares, claro
Eliminarprovavelmente foi uma escolha do autor.
Eliminare como tal, mal nenhum vem ao mundo.
Já li o romance e recomendo-o.
ResponderEliminarO seu autor, António Tavares, será o apresentador do meu romance no próximo sábado.
Até quinta-feira, na Figueira da Foz.
António Breda Carvalho
Tem uma capa tão gira! E, pelos vistos, muito assunto dentro.
ResponderEliminarDesejo muita sorte ao autor, que o mérito já possui.
Cartas também expressam memórias, bem e, nas castas de Darwin este diz apreciar as laranjas de Portugal !
ResponderEliminarSim, leio os mais variados assuntos em causa (tratando-se memória).
Ainda sobre a discussão gramatical:
ResponderEliminar«Obedeça à gramática quem não sabe pensar o que sente.»
Fernando Pessoa, Livro do Desassossego
ABC
Anotado. :)
ResponderEliminarHá pessoas com critérios mais largos e outros mais estreitos, gramáticos e escritores incluídos. Pelo que tenho percebido, a MRP tem um critério mais largo e não se importa de cometer erros de português a favor do que para ela soa melhor Veja-se os seus livros de poesia, que contêm muitos atropelos às regências. Eu estou
ResponderEliminardo lado do Pedro, acho que no título deste livro há erro, sim, mas eu pertenço à velha guarda...
Um abraço a todos e boas escritas,
Manuel Aires SIlva.
Fiquei com curiosidade e vou ler! Até porque grande parte da minha família materna é de Moçâmedes.
ResponderEliminarCuriosamente eu nunca fui a Angola!
Parece interessante, mas é pena não surgirem temas novos. Vivemos uma ficção mono-temática.
ResponderEliminarParece realmente tratar-se de uma obra de esplendor imenso.
ResponderEliminarIrei iniciar um trabalho para a escola no âmbito da disciplina de Literatura Portuguesa relativo a este livro e gostava de incluir opiniões relativas à obra. Já a leu? Será que me poderia ajudar? Muito obrigada.
Cumprimentos,
MargaridaCSilva