A realidade na ficção

Diz-se frequentemente que toda a literatura é autobiográfica, mas até onde podem ir os que se dedicam a ela quando inscrevem nos seus livros factos, personagens e circunstâncias reais, sobretudo contemplando aqueles que lhes são próximos? Bastará mudar os nomes das pessoas para que as personagens não possam ser identificadas com amigos, inimigos e parentes do escritor? Na Noruega, um ficcionista resolveu compor um romance épico de centenas de páginas sobre a sua vida e a da sua família que, como todas, possuía os seus podres, entre o pai sádico e a avó alcoólica ou a primeira mulher constantemente em depressão. Enquanto o escrevia, mostrou algumas partes à mãe, que o aconselhou a parar por ali ou, pelo menos, a esconder os nomes verdadeiros. Mas Karl Ove Knausgaard não aceitou a sugestão e, quando por fim foi dado à estampa Min Kamp (uma paródia ao título da obra de Hitler), o romance vendeu 450 000 exemplares por causa da polémica que o rodeou – mas, claro, a família nunca mais lhe dirigiu a palavra e até a segunda mulher declarou não poder continuar a viver com um homem capaz de contar todos aqueles horrores sobre os próprios parentes. O autor aceitou, dizendo que de facto ele fora recompensado, mas era sobre os outros que recaíra o achincalhamento. Também em França, a romancista Christine Angot, conhecida como a rainha da ficção-choque, usou uma ex-namorada do parceiro como personagem de um dos seus livros (Les petits) e, apesar de lhe ter dado outro nome, a visada sentiu-se de tal modo identificada e afectada que lhe pôs um processo em tribunal, alegando que o romance lhe estragou a vida e que tentou inclusivamente matar-se por causa dele. E o juiz acabou por lhe dar razão e obrigar a escritora a indemnizá-la. Poderá toda a escrita ser assim tão autobiográfica?

Comentários

  1. Depende. Por exemplo, Isabel Allende contou a história da família em "Paula" e, que eu saiba, não houve sublevações. Já acontecera em "A casa dos Espíritos" e afirmou numa entrevista que a família preferia a foto de Jeremy Irons à do avô (mas julgo que seria brincadeira, parece-me uma escritora bem humorada). Se a escrita não for inventiva e se limitar a transcrições desapiedadas não vejo apenas o problema da identificação. Adivinho falta de escrúpulo e até de imaginação. Ainda que admita: pode render.

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  2. É proibido proibir. O escritor tem total liberdade de escrever sobre o que quiser. Se violar a privacidade alheia, assumirá essa responsabilidade perante lei. Para mim essas devem ser as regras.
    Não me repugna ver um escritor condenado em tribunal por revelar informação íntima, sem permissão dos visados. Repugnam-me os livros como o da ex companheira de Hollande. Se a minha mulher fosse escritora, não gostaria de ver a minha vida privada descrita num romance em que ela afirmasse que aquele era o comportamento íntimo do seu marido.
    Ao que dizem, Marcel Proust deixou de frequentar o bar do Ritz não só por causa da asma grave de que padecia mas sobretudo porque um dos burgueses parisienses que retratou apareceu nesse bar dizendo que estava à espera do escritor para tirar satisfações.
    A linha que separa a liberdade do ficcionista e o respeito da privacidade dos seus próximos é difícil de definir com precisão. Na dúvida, eu optaria pela prevalência do direito à privacidade. Mas eu não tenho nem terei facebook e esta é uma época em que a nova geração tem prazer em partilhar as suas intimidades com meio mundo e eu estarei eventualmente "démodé".
    (O tema que a MRP nos trouxe hoje tem um excelente tratamento no Babelia de sábado passado)

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    1. Artur. Renda-se ao facebook . Por que o facebook não é só a face de faces ou uma cloaca, mas a face do mundo, repleta de jardins. Desconfie dos velhos do Restelo que se julgam Deuses e sequestram a pluralidade. Já até os Deuses esgravatam na face do facemundo e a própria literatura tornou-se de escrava em plural e liberta.

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    2. Caro Pedro, respeito a sua opinião mas não estou disposto a partilhar o meu dia dia, fotos e comentários pessoais de modo descontrolado (ninguém verdadeiramente garante o controlo de acesso no facebook, como foi recentemente noticiado). Abraço.

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    3. Claudia da Silva Tomazi8 de setembro de 2014 às 04:19

      Concordo.

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    4. António Luiz Pacheco8 de setembro de 2014 às 10:27

      Compreendi-te... (sic Rufino Fino - canalizador)!

      Eheheh!

      Concordo inteiramente consigo!
      Até e sobretudo na questão do Facebook - que por acaso tenho e uso, mas não para em expor e sim porque é a forma de estando longe me manter em contacto com os amigos, ou os grupos com coisas em comum... de fazer notar que o Grupo Literário Cinegético, já produziu uma obra - a Colectânea Literária Cinegética, escrita por 42 caçadores que escrevem e ilustrada por 11 artistas plásticos também caçadores!

      Mas essa exposição doentia a que o Extraordinário Artur alude, é um facto actual e bem real!

      Saudações do Bairro Ribatejano!

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    5. Ora aí está um excelente uso para o facebook, mais book do que face, criando uma Coletânea Literária Ilustrada. Parabéns !

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  3. «Tão» talvez seja um advérbio demasiado radical. Mas toda a escrita somos nós e as nossas circunstâncias. Min Kamp mais do que paródia, é uma libertação das circunstâncias de Karl que só não tem perdão se não alterar o nome dos personagens, fazendo ver ao mundo que a ficção é hoje a enorme mentira de um mundo que já incorporou a realidade na ficção. Talvez por isso a ficção seja engolida pela sua própria realidade.

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    1. António Luiz Pacheco8 de setembro de 2014 às 10:30

      Li algures que a realidade ultrapassa a ficção, e aliás também me refiro a isso no meu livro...

      De resto alguém tem dúvidas?
      Em pleno século XXI degola-se (convém fazer notar que o termo é degolar e não decapitar como dizem os media) gente por ser "infiel" ! Nenhum Orwell, Huxley ou Verne conseguiu prever tal coisa!

      Saudações do Bairro Ribatejano.

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  4. Bom dia Companheiros Extraordinários

    Então mas o que é o Facebook? não é um livro aberto onde cada pessoa escreve (mal) e expõe diariamente toda a sua intimidade? o que comeu, a que horas se levantou, onde foi almoçar, onde foi jantar... e tudo o que não interessa a ninguém...

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    1. Sim e não, Severino. Um livro aberto, para quem pontapeou a informação que lhe querem dar pela liberdade da que quer anotar.

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    2. António Luiz Pacheco8 de setembro de 2014 às 10:31

      Pode não ser... remeto-te para o meu comentário ao Extraordinário Artur, ó Extraordinário Severino!

      Um abraço cá da terra!

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  5. Bom dia,

    Não creio que toda a escrita seja auto-biográfica, de todo. Há autores que o são quase totalmente em toda a sua obra. Gosto muito de um deles: Henry Miller.

    Metendo um bocadinho de pimenta no tema: nem todas as vidas dão para verter em livros auto-biográficos.

    Uma boa semana,

    Rui Miguel Almeida

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  6. A escrita exacerba, põe a nu defeitos que na vida corrente passam despercebidos. Pega na pessoa e torna-a personagem. Despe-a de tudo o que não é relevante, chega a reduzi-la a um tipo social para melhor expor o seu ridículo. E muitos dos leitores, se o escritor tiver arte para de tal os convencer, comprazem-se com os podres dos outros, a fazerem esquecer os próprios. Depois, independentemente do que os modelos eram, conta apenas o que a escrita fixou para memória futura: um bêbedo, um brigão, um pinga-amores, um péssimo pai, pior marido. Porque, para muitos, são as pústulas sociais que seduzem.
    Foi com alguma apreensão que aceitei meia dúzia de anos atrás o convite para apresentar na minha terra o meu romance Entre Cós e Alpedriz. Correu muitíssimo bem (tenho vídeo que o comprova), mas precisei de muito tacto. Queriam saber quem era afinal a Joaquina Guiomar porque a vida daquela que conheceram não quadrava com a da protagonista, mulher levada da breca -- e não viram o óbvio, porque o segredo de um segredo bem guardado é escondê-lo à vista de todos. Apesar de escrito no livro, mais do que uma vez. Corrigiam uma ou outra história - que eu prometi rectificar em futura edição. Acrescentavam pormenores - e eu sorria, interiormente pouco humilde, incapaz de explicar que a narrativa impõe o seu ritmo, a sua verdade. Receio que dentro de alguns anos o meu livro seja a história da terra, a sua verdade oficial, e nele aqueles que o compraram e foram centenas leiam aos netos a história "autêntica" dos seus país e avós...
    Mas ficcionar uma realidade, ou aspectos dessa realidade, é muito diferente da exposição e exploração comercial dos podres dos mais próximos, sejam eles entes queridos ou entes odiados. Abomino os escritores que maltratam e ridicularizam as suas personagens, talvez por viver na fé de Flaubert e como ele dizer de todas as que criei e criarei: Madame Bovary c'est moi.
    JCC

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    1. José: mas toda a ficção terá de ter as suas personagens ou estas poderão assumir forma individual ou colectiva, numa contemplação reflexiva sobre o caos? Nada sei neste mundo cada vez mais globalizado localmente e de localizações globalizadas. Apenas que a ficção está hoje completamente cercada pela realidade colectivamente autografada. Não há personagem ficcional que hoje se consiga criar para além da ficção científica, pela criação de mundos para além da imaginação mais delirante e inovadora. Biliões de personagens são hoje parte de um tecido grosso chamado realidade. E é talvez por isso que muitos já não sentem o apego à ficção que se repete, por considerarem-na sempre uma fotografia ingrata da ficção que vivem e a que chamamos realidade: esses novos mundos já cada vez mais raros e distantes.

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    2. A realidade, ou as realidades, não tem que ser trivial. Se o escritor se perde em banalidades, se a sua escrita não tem ritmo, se não consegue criar, não a realidade, mas a ilusão do real que torna as histórias verosímeis e confere vida às personagens que nelas se movem, sai obra intragável, apreciada apenas por certos críticos e leitores, os quais, sem verem que o rei vai nu, encontram qualidades na sua ilegibilidade.
      Acrescento a despropósito: o que é difícil é escrever simples e claro. Com ensina o padre Vieira: "E nem por isso temais que pareça o estilo baixo; as estrelas são muito distintas e muito claras, e altíssimas. O estilo pode ser muito claro e muito alto; tão claro que o entendam os que não sabem e tão alto que tenham muito que entender os que sabem."
      JCC

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    3. Concordo com o seu último parágrafo.

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    4. José: Sem dúvida que a realidade deve ir para além da trivialidade, seja através de uma linguagem que faça apelo à poética, seja através de um desenrolar de um fio com coerência própria.
      E não é a ilusão da realidade que se teme, essa agradece-se. Mas a sua transcrição traduzida num enorme vazio que faz de algumas obras directos concorrentes pobres da realidade, sem lugar a uma frase que crie reflexão e inquietação no leitor, apelo à sua curiosidade, sem uso de memória colectiva ou mesmo individual, que não repleta da realidade comezinha e trivial. E curiosamente o PAV é um bom exemplo a propósito de como a boa escrita pode estar encapsulada de boa pedagogia, que até os peixes podem e devem entender, isto é se não quiserem prover mais a agulha e o isco.

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  7. Um escritor, queira ou não, de forma mais concisa ou superficial, é sempre refém das suas memórias. E as memórias são pedaços de realidade que ainda retemos por dentro. Mas isso não implica que o escritor tenha o direito de achincalhar outras vidas, muito pelo contrário, um bom escritor tem a mestria de contar a realidade sem com ela se confundir. E eu acho que há excelentes escritores.

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  8. E esta questão faz-me sempre lembrar o incidente Bulhão Pato/Eça a propósito do Alencar e, logo, a cintilante frase do Eça: «E visto que nada agora pode justificar a permanência do sr . Bulhão Pato no interior do sr . Tomás de Alencar, causando‑lhe manifesto desconforto e empanturramento , – o meu intuito final com esta carta é apelar para a conhecida cortesia do autor da Sátira, e rogar‑lhe o obséquio extremo de se retirar de dentro do meu personagem.»

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    1. Bela citação de "Os Maias" ! É sempre bom lembrar o que os mestres disseram sobre o assunto !

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    2. Nesta guerra antiga entre 'retratados' e 'retratadores', há casos - como este do Bulhão Pato achar que era o Alencar e da resposta lapidar que levou do Eça - que se tornaram proverbiais...

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    3. Lapidar e com a beleza da escrita do Eça e com a inteligência do seu ácido humor. Obrigado, mais uma vez, pela citação que nos trouxe.

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  9. pode mas não deve.

    acho que quem escreve ficção não consegue fugir da realidade, mas não precisa de dar uma identidade tão real às personagens.

    eu que gosto de escrever ficção, mesmo sem me aperceber, acabo por descobrir que os "maus da fita", têm características de alguns "filhos da puta" que se cruzaram comigo. mas são quase sempre duas, três pessoas, até para que possa ganha vida própria, sem ficar preso a ninguém.

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    1. Caro,
      Se escrevesse e publicasse livros com personagens f.d.p(s) que se "cruzaram" ou "cruzam" comigo, não caberiam eles em todas as bibliotecas e livrarias do Mundo. Se tivesse então a infeliz ideia de começar pelos políticos .....


      Extraordinária tarde para todos vós.

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  10. Biografias não autorizadas serão sempre de mau gosto. Com nomes verdadeiros ou falsos.

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  11. António Luiz Pacheco8 de setembro de 2014 às 10:36

    Extraordinário tema este!

    E Extraordinárias intervenções... estou a gostar muitíssimo de ler este Extraordinário debate!

    Excuso-me de dizer o que seja, pois só conseguiria ser ou repetitivo ou banal!

    Continuem...

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