Os sapatos de Agustina

Todos temos certamente saudades de ouvir falar de Agustina e de a ouvir a ela. Mas, enquanto não podemos fazê-lo, resta-nos prestar-lhe homenagem lendo o que escreveu. A Fundação Calouste Gulbenkian prepara-se para publicar, numa edição única com o título O Elogio do Inacabado, cinco manuscritos inéditos da senhora do Norte – que nos presenteou, entre outras obras-primas, com A Sibila –, precedidos por um prefácio da académica Silvina Rodrigues Lopes. A propósito desta notícia, não resisto a uma pequena história fútil. Não sou consumidora de alta-costura: primeiro, porque não tenho dinheiro; segundo, porque não tenho medidas (sou baixa e calço 35); terceiro, porque muitas das farpelas que por aí desfilam simplesmente não são vestíveis por ninguém com uma vida normal. Mas, curiosamente, houve uma coisa interessante sobre moda que aprendi com Agustina Bessa-Luís uma vez em que partilhei a sua companhia na Suíça. Estávamos num festival literário em Genebra e ela convidou-me para me juntar a ela e a Lídia Jorge numa visita ao centro da cidade. Eu desconhecia que íamos às compras e só o percebi quando ela repudiou a companhia de um macho-escritor que se preparava para ir connosco. A verdade é que Agustina trazia os catálogos dos grandes costureiros todos assinalados com o que queria ver e experimentar e, entre esses itens, estavam uns sapatos muito bonitos, uma criação Ferragamo. Entrámos na loja da marca e a escritora mostrou o que queria e disse que número calçava (se a memória não me falha, o 37). Quando a funcionária trouxe os sapatos, Agustina descobriu, porém, que lhe estavam um pouco apertados (o seu pezinho é gorducho) e calculei que a empregada se propusesse simplesmente trazer-lhe o número acima. Mas eis que, na alta-costura, para o mesmo comprimento de pé existem sapatos com a base estreita (para pés delgados) e com a base mais larga (ideais para os pés da nossa escritora). Uma grande ideia, claro, mas reservada apenas às lojas boas e caras. Com Agustina, enfim, aprende-se sempre qualquer coisa.

Comentários

  1. Mas todas as histórias fúteis tem a sua pedagogia. A conclusão ad contrarium só pode ser esta: em Portugal, ao contrário dos países bons e que não se fazem de caros, a base é sempre idêntica. O Elogio do Inacabado cabe que nem sapato de luva na imagem de marca Portugal.

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    1. Contudo, os sapatos seriam portugueses...

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    2. A eterna incongruência nacional, Severino. Faz lá fora o que não fazes cá dentro!

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  2. E direi mesmo mais:

    A nossa existência não é uma sequela infinda de histórias fúteis? E o que seria dela sem estas?
    Uma chatice por certo...

    Como assumido cultivador da treta (esclarecida) sou adepto de histórias fúteis que dêem côr à nossa vida!

    Saudações fúteis do Bairro Ribatejano.

    História fútil:

    Debaixo da casa das minhas "tias Sousas" havia um sapateiro que se sentava na soleira da oficina a cantar, dias inteiros:

    O sapatêiro táim três pedras!
    A prumêra é d'am'lári!
    A sigunda é da pac'ência...
    E a tercêira de bater sola!

    OBS: - Pelo acordo otográfico (escreve-se como se ouve ou diz e é proposta minha) a estrofe vai em barrão, dito portanto à moda de Santaráim!

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  3. Os sapatos de Agustina fecharam circuito com uma notícia do Nuno Camarneiro que considerou (e bem), por experiência própria, como as residências literárias são uma ideia engraçada mas utópica. Chamar-lhes utópicas é privilégio de homens de boa vontade. Mas revela em que se tornou uma boa parte do mundo da escrita: um puro negócio e uma idiotice. Como aquela de não se aumentar o salário mínimo, a bem da economia. Mas, de facto, já poucas coisas fazem sentido senão as Horas Extraordinárias da escrita que sendo puras e utópicas transportam a escrita com amor.

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    1. Esta gente, que só fala em milhões, quando se trata de distribuir mais uma migalha (€ 15 por mês, por mês, repare-se) por quem efectivamente faz, porventura, o trabalho maior aqui d'el rei que querem lixar a economia (e chantageiam logo com a saída de Portugal), como aquele patriota do Pingo Doce (Holanda), um os grandes pantomineiros cá do burgo (esta do pantomineiro também está em desuso - a palavra, claro-)...

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  4. Acho que já tinha lido esta história antes...e agora fico a pensar onde terá sido...

    Gostei do texto mas não gosto nadinha quando não me consigo lembrar de alguma coisa:)

    Cláudia Moreira

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    1. Experimente aqui:

      http://horasextraordinarias.blogs.sapo.pt/compras-no-estrangeiro-230188

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  5. ... história fútil?! Para quem?

    Eu , por acaso, já conhecia esta história, porque a Maria do Rosário já ma tinha contado, numa conversa, um dia qualquer. De fútil não tem nada.

    A vida não será também isto?

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  6. Os dias de chuva, são propícios à futilidade... e a propósito lembrei-me ainda de outra do famoso sapateiro que tinha oficina no andar de baixo da casa das tias Sousas.

    Ele abusava da pinga, e uma vez deu uma cura à mulher por causa dumas favas que esta teria feito e não lhe agradaram. As tias Sousas faziam queixa ao meu avô Abreu e ele ia ralhar com o sapateiro por causa destas escândalas...

    Vai daí a justificação apresentada pelo remendão foi lapidar e até ficou no léxico das frases e expressões cá de casa:

    " Ó sôdótor, ist'na'é d'agora! Ela sempre assim foi, porém agora tá no relaxe! Ê c'ando faço favas... é cum folha d'alho e tudo!".

    Eheheh! Assim devíamos ser todos no que toca ao rigor do que fazemos, devíamos fazer sempre com folha d'alho e tudo!!!!!

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  7. Confessa-nos Maria do Rosário que não é consumidora de alta-costura porque é baixinha, porque tem uma vida normal e porque tem pouco dinheiro.

    Deixe lá, Rosário. Não se incomode demasiado com isso. Mantenha o seu estilo próprio.

    O importante é não perder o estilo, e, se possível, não perder o dinheiro também. O estilo sem dinheiro é uma infiltração do mau gosto.

    ...

    Ah! Já me esquecia: esta última frase é de Agustina.

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  8. Tive aulas de Gramática com Agustina Bessa Luís...!
    Ensinou-me muitas "futilidades" que nela são conhecimento...!

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  9. Lembro de Agustina a sua enorme simplicidade quando me assinou uns quantos livros na Feira do Livro. Uma senhora vestida de forma simples, com os seus pézinhos gorduchos, como disse, a transbordar ligeiramente dos sapatos. Todos os autógrafos foram cuidadosamente pensados e postos em cada livro com uma generosidade e simpatia difíceis de encontrar em escritores com menos obra. Se já adorava a sua escrita, fiquei a admirar o ser humano. Agustina é grande. Enorme. Em qualquer parte do mundo, com a mais valia de sempre ter sido fiel à realidade do nosso país e, talvez por isso, granjeado menos reconhecimento internacional. Que o tempo lhe faça justiça. Merece,

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  10. Porque terá a poetisa a fixação nas compras da grande Agustina?

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