Paris, não sejas inglesa

A França é um dos países que mais a sério se levam – e que levam a cultura mais a sério. Os membros da Académie Française chamam-se nada mais, nada menos do que «Imortais» e defendem com unhas e dentes a língua de Molière; de tal modo que há uns tempos condenaram publicamente o uso de anglicismos, chumbando, irritados, a palavra «flyer» (que também aqui usamos vulgarmente para dizer «desdobrável»), a expressão «asap» (abreviatura de «as soon as possible», que consideram tudo menos transparente e sem qualquer vantagem em relação a «dès que possible») e o afrancesamento de verbos a partir de palavras inglesas, como, por exemplo, «scorer», que se emprega aparentemente com regularidade no desporto (do inglês «score», marcar pontos). Mas é curiosamente quando a imprensa francesa mais se assemelha aos tablóides ingleses e americanos no desmascarar da vida privada do Presidente que isto acontece. Porque, se a história de Mitterrand e de uma filha ilegítima perfilhada apenas aos dez anos fez as parangonas dos jornais franceses na época do escândalo, houve um longo hiato até as revistas voltarem às histórias pessoais dos seus dirigentes – e fizeram-no com Sarkozy, que se pôs a jeito, mas mesmo então não usaram da agressividade que parecem agora dirigir a Hollande, acusado, entre outras coisas, de manter várias concubinas, uma das quais instalada no Eliseu num luxo pago pelos contribuintes (só porque não se casou, não quer dizer que essa senhora não seja a mulher dele). Enfim, os Imortais zangam-se com a língua inglesa, mas os simples mortais parecem adoptar alguns hábitos dos países anglófonos sem nenhum problema.


 


P.S. Escrevi este post antes de saber que ia haver separação.

Comentários

  1. Claudia da Silva Tomazi29 de janeiro de 2014 às 01:55

    Madame "Bovary" que o diga.

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  2. estou convencido que é precisamente devido à perda de preponderância { hegemonia } da cultura francesa, que a EUROPA entrou em acentuado declínio | no cinema, música, desporto, na literatura e filosofia { na politica e na economia}, a França “ avant-garde “ deu lugar a uma nação letárgica, deixando órfãos os altos valores que poderiam suster as forças mesquinhas que agora se propagam quase sem limites

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  3. UE = perda de identidade (e não só) das nações; o golpe do século!

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  4. Talvez o facto de Hollande ser até hoje o presidente francês com o qual os franceses menos simpatizem justifique essa maior agressividade no escarafunchar da sua vida privada...
    Quantidade ao resto, sem dúvida: muito defensores do que é seu. Por vezes, quando ouço os noticiários, tenho a leve sensação de que o mundo é apenas a França, é que passam-se semanas sem se saber do resto.
    Um abraço.

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  5. A França perdeu a identidade? basta olhar para a selecção francesa de futebol.

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  6. António Luiz Pacheco29 de janeiro de 2014 às 04:02

    Hum... os franceses! Pois... são iguais a todos os outros, se bem que uns sejam mais iguais que outros!

    Chauvinismo é uma das suas características mais evidentes... mas lá está, se formos a ver os bifes idem, alemões e américas é tudo farinha do mesmo saco, que aliás cá na Tuga se 0consome!

    Quanto aos anglicismos, é um mal (?) que veio para ficar, por muito que nos chateie e ao Extraordinário Severino em particular... mas ás vezes dão jeito.

    Uma vez pus a rir uma assembleia numa reunião do digníssimo Pingo Doce, quando um colega meu, director de logística e muito dado a estes termos do marketing (aliás justamente alcunhado de Out door), depois de uma explicação exaustiva dos sistemas que estava a implementar nos armazéns de não-perecíveis, me perguntou qual o sistema usado nos de perecíveis.
    Eu, muito sério, disse-lhe que era o "screamway" (do grito).
    Fez-se silêncio pois ninguém nunca ouvira falar em tal sistema, e o termo era absolutamente novo, talvez o mais moderno!
    Então eu exemplifiquei berrando alto: "Ó Adérito! Trás essa palete!"....
    Foi uma gargalhada geral!

    Ó Severino esta foi boa!!!!

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  7. Eu também não concordo que se esmiúce a vida privada dos políticos. Mas ter um/a amante, com ou sem filho/a ilegítimo/a, não assumidos durantes anos, é uma coisa (embora as consequências psicológicas para o rebento em questão não sejam doces, mas adiante). Agora, manter "várias concubinas", ou não conseguir resistir a uma "rapidinha" com diferentes parceiras em todos os hotéis em que se instala (tipo Strauss-Kahn) não abona muito a favor do carácter do individuo. E isso já pode influir na sua ação política.

    Penso eu de que...

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  8. Em matéria de políticas de defesa da língua, invejo países como a França ou a Espanha, que têm entidades oficiais, as academias, nas quais o Estado delegou essa função. Pelo contrário, nós não temos uma política de língua, nem nenhuma entidade com reconhecida competência e autoridade para decidir e fornecer respostas oficiais às nossas dúvidas. Não temos nenhuma ferramenta de língua oficial, seja ela um vocabulário, um prontuário ortográfico, um dicionário, uma gramática.
    Pelo contrário, nuestros hermanos -- que maravilha a Gramática Descriptiva de la Lengua Española! Quem me dera um Littré, um Petit Robert português! Porque, por cá, está tudo ao deus-dará, entregue à boa vontade de uns, aos interesses comerciais de outros, à incompetência de muitos.

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  9. Essas criaturas quando surgem acham encantador que os media divulguem a sua vida. É tudo qualidades, são verdadeiros heróis. Nós consumimos. O interesse continua e eles revelam-se o que naturalmente são. Nós consumimos. Somos maus consumidores, basta passar os olhos pelos expositores das lojas que vendem publicações ou ver um pouco de televisão à hora do ironicamente denominado \"horário nobre\".

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  10. Já aqui referi neste blogue a minha aversão a este tipo de linguajar pois desde que se passou a designar uma camiseta por T-shirt e uma cueca por slip , tem sido um ver se te avias, porque o que tem fundamento passou dizer-se back -ground , um apagão passou a designar-se por black-out , em vez de um aperitivo passou a pedir-se um drink , fazer jogo limpo, na linguagem do inimitável e grande dinamizador da língua portuguesa, JJ (já o ouviram certamente a falar na 2ª. pessoa...se tu jogas assim, se tu fazes assim...) pois para JJ jogar limpo é ter fair play , em vez de passatempo hobby, feed back em vez de retorno/resposta, ele não corre a pé faz jogging, a rádio deixou de passar música de propaganda para passar jingles, um conjunto é palavra absolutamente ultrapassada na língua portuguesa já que fino é dizer-se um KIT, não há mais pequenas camionetas há sim PICK UP's , não existem mais lemas existem sim slogans, já não há intervalos para beber café há sim coffee break's , e por aí fora NON STOP...

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    1. Não sei se JJ será um bom exemplo, já que ele aportuguesa bem: aliás, o homem é um mister. Anteontem senti-me pior, pois tive de gramar o equivalente do meu clube - tenho um -, que não sendo um dos prosaicos, isto é um "grande", é tudo menos um qualquer, a dizer - três vezes! - que "houveram situações" que explicariam a carreira difícil no início do campeonato, etc. Senti-me overwhelmed .

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  11. C'est l'air du temps. Não lhes vem de serem franceses.

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  12. Portugal, não sejas do mundo. Ninguém imagina pedir ao nosso país semelhante propósito. Todavia, «Paris, não sejas inglesa, chinesa ou marroquina», já faz sentido. Porque será? ;)

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  13. Maria do Rosário:
    Será preciso dizer que, quanto a mim, os franceses sempre foram
    pouco abertos à utilização de Línguas Estrangeiras. Por exemplo, no caso entrepreneirial,
    muitas “lacunas“, obrigaram as empresas a colocar os responsáveis em estágios de Formação Continúa.
    Mas, diga-se que foi no sector dos recursos humanos que mais se utilizou a língua inglesa: Ex: “turn over“, “blow up“...
    Em política, o hábito é pouco usual. Contudo, a mundialização/ globalização, lá foi mudando o “estado de espírito“!
    Um abraço!

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  14. Maria do Rosário:
    Será preciso dizer que, quanto a mim, os franceses sempre foram
    pouco abertos à utilização de Línguas Estrangeiras. Por exemplo, no caso entrepreneirial,
    muitas “lacunas“, obrigaram as empresas a colocar os responsáveis em estágios de Formação Continúa.
    Mas, diga-se que foi no sector dos recursos humanos que mais se utilizou a língua inglesa: Ex: “turn over“, “blow up“...
    Em política, o hábito é pouco usual. Contudo, a mundialização/ globalização, lá foi mudando o “estado de espírito“!
    Um abraço!

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  15. Claudia da Silva Tomazi29 de janeiro de 2014 às 08:37

    Salva-se (repara) gol:Gel. De Goulle.

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  16. Estes purismos acabam por ser piores para a língua do que a abertura um pouco mais descomplexada a todas as línguas e linguagens. O inglês, por exemplo, nunca teve problemas em importar palavras sem parar, e não pode dizer-se que se tenha dado mal.

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