Europa/América

Oh como eu gostava, quando era miúda, de ir a Espanha comprar caramelos e, de caminho, trazer tantas coisas que não havia cá em Portugal (jeans da marca Lois, por exemplo). Os países eram diferentes até no que lá se comprava e, com a globalização, perdeu-se também essa surpresa, porque agora as lojas são as mesmíssimas em toda a Europa (pelo menos, poupamos nas compras). E, se falamos de lojas, falemos de livros, pois, à excepção da França, que ainda é um tanto chauvinista e olha, deliciada, para o seu umbigo a cada rentrée, os livros são hoje os mesmos em todo o lado e, com as maravilhas do agenciamento literário e das novas tecnologias, até são publicados simultaneamente no mundo inteiro (foi, por exemplo, o caso de uma biografia ilustrada de Mandela que saiu há uns anos em edição mundial, em variadíssimas línguas, no mesmíssimo dia). Mas nem sempre isso sucedeu, e os autores milionários e campeões de vendas nos EUA (como John Grisham ou Stephen King, que atingiam 6 milhões de exemplares vendidos num mês ou dois) tinham dificuldade em perceber (ou os seus editores e agentes por eles) porque não ultrapassavam aqui em Portugal os 2000 exemplares vendidos, quando lá chegavam, claro, o que nem sempre acontecia (no Brasil, pelo contrário, tinham êxito garantido, que ali era a América que dominava os Top dos livros – e ainda é). Antepassados de Daniel Silva ou Dan Brown – que hoje toda a gente lê e vendem carradas – devem ter-se arrependido de não ter nascido para a escrita duas décadas mais tarde.

Comentários

  1. Quando li o título do post, pensei que seria sobre a Editora Europa América que não deve andar muito bem.
    Afunilamos cada vez mais a diversidade e a descoberta de novos temas e autores. O dinheiro que dá para a cultura vai para os livros mais vendidos. Talvez com o que se poupa em ir ao cinema, se possa comprar mais livros portugueses.

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  2. Claudia da Silva Tomazi17 de janeiro de 2014 às 02:47

    Cantiga de infância! Melodia fresca.

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  3. John Grisham , Daniel Silva, José Rodrigues dos Santos ou Dan Brown - são filhos da globalização e trazem com eles tudo o que de negativo a globalização também acarreta, por isso só agora cá chegaram (os pais deles felizmente (ou infelizmente, já nem sei) não chegaram cá).

    No Verão vejo muito estrangeiros na praia com calhamaços dobrados na areia (deitam-nos no lixo no final) e quando olho para os títulos só vejo é palha, ora esta gente que contribui para estes best-sellers não gosta de livros, não tenho a mínima dúvida disso, daí o meu juízo da globalização na literatura.

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  4. Tal como o Henrique Vogado, também eu quando li o título do post , pensei que seria sobre a Editora Europa América.

    Parece-me também a mim que a EA não deve andar muito bem, aliás, parece-me justo realçar que após o desaparecimento do seu fundador e grande líder, Francisco Lyon de Castro, ela começou a cair.

    É justo lembrar que a EUROPA-AMÉRICA deu uma grande contribuição para a cultura em Portugal, nos anos da ditadura, nomeadamente quando lançou a sua grande colecção de livros de bolso EA, com excelentes livros, ainda me lembro muito bem dos dois grandes livros que abriram esta colecção:
    1-ESTEIROS do Soeiro Pereira Gomes (grande, grande livro) e o nº.
    2-O MÚSICO CEGO - Vladimiro Korolenko (uma pérola), lembro-me muito bem.

    Uma belíssima colecção onde não cabiam nem Daniéis Silvas, Dan Brown's ou 575's JRS's ).

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  5. Milhões de cópias deste e daquele, indústria gigante. São muitas as pessoas e as procuras, e depois? Ficaram os dedos e os anéis foram? Talvez, podem ter ficado alguns dedos, como nas mãos de toxicodependentes dos anos 90.

    Todavia, o dilema da edição enquanto projecto cultural continua sem resolução, e eu não o conheço assim tão bem.

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  6. A França é assim, chauvinista, não só nos livros. Na música, por exemplo, acontece a mesmíssima coisa. Não sei avaliar se é bom ou mau, mas sei que quem cá vive, o meu caso, vê-se, pelo menos, obrigado a conhecer o que por cá se produz. Confesso que, independentemente de serem mais virados para o próprio umbigo do que o resto da Europa, tenho por aqui descoberto coisas magníficas que talvez de outra forma não acontecesse. Aprendemos a viver assim: a apreciar enormemente o que se faz no país que nos acolhe . Como eu gostaria, só um bocadinho, de ter sentido isso num Portugal.
    Um abraço caros extraordinários.

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  7. «que hoje toda a gente lê e vendem carradas»

    Para as pessoas literariamente exigentes, é preocupante o facto de a subliteratura ser um êxito de vendas e, por conseguinte, traduzir um elevado índice de leitores, contrariamente ao que acontece com a leitura de obras canonicamente literárias.
    Contudo, encarando o fenómeno com algum otimismo, parece-me que é preferível esta realidade -- milhares de leitores de obras com fraca qualidade literária -- à inexistência de leitores, sobrando apenas os leitores elitistas.
    Afirmo isto porque luto diariamente contra a resistência que a maior parte dos jovens tem face à leitura, até mesmo quando eles têm a liberdade de ler o que lhes aprouver.
    Portanto, não ler é sempre pior do que ler maus livros.

    António Breda Carvalho

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    Respostas
    1. Concordo perfeitamente com o que diz o António Breda Carvalho.
      Aqui há muitos anos, ia eu no Metro com o meu grande amigo e poeta Luís Amaro (um homem excepcional) e dizia-lhe, apontando eu para a revista Maria que a senhora sentada à minha frente lia, oh amigo Amaro já viu que o pessoal só lê é tralha; responde-me ele, oh Seve, não interessa o importante é ler!

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    2. Caro Extraordinário Severino

      Boa resposta: o importante é ler.
      Sobre a "Maria", escrevi contos rosa para lá durante alguns anos: cerca de duas centenas deles. Creia que, na revista, a revisão era levada a sério a tal ponto que era difícil encontrar gralhas, ao contrário de alguns livros editados.
      Por isso, se se referem ao conteúdo, tudo bem, há quem não goste (e eu, como paradoxo, não gosto), mas deu-me muito prazer escrever esses contos, que fariam um livro de mil e quinhentas páginas. E olhe que, se acreditarmos serem muitas as sobras - o que duvido - cada revista tinha uma tiragem, ao tempo, de 400.000 exemplares!
      Publicaram, em livro, vinte e dois dos meus contos, numa tiragem que rondou os 30.000 exemplares. Nunca mais conseguirei atingir essa fasquia.

      Outra coisa: sobre a mulher que sabia tudo, referida pelo amigo António-Luiz, pretendo oferecer-lhe um exemplar; haja forma de saber para onde o hei-de enviar...

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    3. Eu acredito que nestas revistas (Maria, Mariana, etc...) há excelentes profissionais e certamente até belíssimos artigos, só que para se ler umas coisas não se podem ler outras, nem se trata de menosprezo ou sequer preconceito, é uma questão de rentabilidade do precioso tempo.

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    4. António Luiz Pacheco18 de janeiro de 2014 às 06:16

      Extraordinário Fernando:

      Eu fiz uma espécie de análise crítica ao seu "A mulher...", em "O que ando a ler".
      Não sei se viu?
      E referi aliás que os Extraordinários A.Severino e J.Jordão iriam gostar, na minha opinião!

      Agora que acabei, posso garantir que me deliciei e adorei os diálogos em especial!

      Um abraço

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    5. Já li, António-Luiz, pelo que tenho de lhe agradecer a leitura que fez desse livrinho e as elogiosas referências ao mesmo, expostas no comentário referido.
      Na sinédoque apresentada quanto ao termo editora, sem querer generalizar, quero dizer que me causa algum engulho submeter a apreciação de um livro meu à leitura de editor/leitor que ainda sabe do ofício menos do que eu...
      Trata-se do meu primeiro romance policial e, pelo facto de o ser, pode apresentar algumas fragilidades nos pormenores que ocultam e desvendam o mistério, pois este género literário é aquilatado consoante a mestria do autor - e a minha é, apesar de já ter publicado muito, a de um neófito ou principante na matéria -, o "novelo da chave" que envolve o mistério e algum humor à mistura, pois os pormenores do crime e da sua investigação apelam a essa característica.
      Entreguei a obra à editora que já conhece e deliberadamente aceitei a forma de publicação e divulgação; tanto assim que, logo no dia do lançamento, com duas apresentações, "despachei" metade dos livros que me foram atribuídos.
      Não o propus a qualquer outra editora, principalmente às que, no mercado editorial português, costumam ler (quando lêem) uma página por dia e nos dão uma resposta quando já esquecemos que lhe entregámos o original para edição; e quando essa resposta cria bolor no original e impede, na possível resposta negativa sob escusa esfarrapada, que o mesmo tenha sido proposto a outras casas congéneres.
      Para além d
      Para nós, os escritores "filhos de um deus menor", não é a edição que nos causa constrangimentos: é a distribuição. Se conseguíssemos, no mercado que serve este País, uma distribuidora que, embolsando os cinquenta e tal por cento, colocasse em conta consignação (já não falo em conta firme) o livro em sítios onde possa estar visível, que bom seria!
      Depois, há aquele factor dos lançamentos, com convites para os amigos, o que me causa alguma perplexidade. Ora, convidar um amigo para a apresentação do livro para depois, à saida, ele ter de pagar para ter um exemplar, é como convidar esse amigo para almoçar em nossa casa e obrigá-lo a pagar o almoço. É claro que, nesses convites, interessa a mensagem para quem "de facto" lê. Levo isto a peito: prefiro oferecer um livro a quem o lê do que vendê-lo a quem, mal chegue a casa o despache para o fundo de uma estante sem o abrir ou, na pior das hipóteses, o empurre para o canto da lenha.

      Abraço

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    6. Troquei um parágrafo, sem saber como o fiz. Costumo escrever directamente na caixa e, quando quero acrescentar qualquer coisa, "encaixo" o texto. Desta vez, correu mal e não faz sentido o segundo parágrafo estar onde está.
      Assim, esse parágrafo deve estar onde aparece a "amputação" de outro mal parido - "Para além de".

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    7. Gostei muito do seu comentário. É exactamente o que penso. Pode enviar-me um endereço de mail para colocar umas questões mais privadas?
      Jccatarino@hotmail.com

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  8. Hummm...também pensei que o tema seria a editora
    onde comprei alguns livritos, os professores da faculdade como se tivessem sarna,não comprem, são traduções péssimas. Ainda bem que não lhes fiz caso, foi a minha oportunidade de as ler. Mas também é verdade que tinham alguma razão. Pude constatá-lo.

    Desconheço as obras dos autores nomeados no post, mas tenho a sensação de que adquiri, a pedido, alguns Daniel Silva para alguém.
    Quem não leu inibe os bitaites:)

    Tenham um bom fim de semana

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  9. Custa-me utilizar a palavra chauvinista para falar da França, onde vivo há alguns anos. Pois o que é de sublinhar é o interesse que os média e o publico dedicam a muitos autores (literatura, cinema música...) pouco conhecidos mesmo nos seus países de origem. Mas é verdade que os franceses defendem como ninguém os seus autores e orgulham-se igualmente da sua abertura aos outros.

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  10. Agora, imagina-me a passar a infância e a adolescência em Vila Real de Santo António...Sim era tudo, surpreendentemente, diferente tudo estava ali ao meu alacance, dos caramelos, ao gel Badedas,das calças Lois, à música, ao salero e até a televisão e os programas de rádio. Nessa idade tudo se devora com curiosidade e avidez. Recordo um programa de rádio que, à revelia de Franco, passava muito jazz, leitura de poesia e muita conversa sobre livros e via com os ollhos arregalados o maravilhoso Planeta Azul de um extraordinário comunicador, creio que era biólogo, que tudo nos explicava sobre a fauna e a flora deste planeta azul, via também os programas de Jean Jacques Cousteau, tudo isto muito, muito antes de qualquer coisa parecida passar na nossa cinzentona, ná época, RTP. Ir ao Corte Inglês ou às Galerias Preciados era uma expeiência única: tudo era novo e brilhante e, se por um lado, me foi contaminando com vírus do consumismo, por outro, permitiu-me perceber, muito cedo, o quão atrasados e miseráveis nós éramos. Temos na família experiências e aventuras mirabolantes passadas à beira do Guadiana, com Pide e tudo à mistura, mas isso não é para aqui chamado. Também tive direito a uma bela edição dos Contos dos irmãos Grimm e da Condessa de Segur, tudo em castelhano e a juego. Aprendi a hablar, ainda que com a musicalidade da Andaluzia e a ver o mundo a cores e cheio de vida. Enfim, visitar Ayamonte, Huelva e Sevilha era conhecer outro mundo, outras pessoas...Hoje o efeito de surpresa perdeu-se, num segundo estamos em Instambul ou na cidade Hong Kong, no entanto, ainda há muito mundo para conhecer (para eu conhecer ) e mesmo que os livros sejam os mesmos em todo o lado, não são lidos por todos, hoje não se lê, ninguém sente a necessidade de viajar pela mão de um autor, nem de se emocionar com um poema, uma história bem contada. Creio que o que se perdeu mesmo, mesmo foi o prazer da supresa, temos medo de surpresas. Tavez porque as que últimas (surpresas) têm sido muito desagradáveis. E não falo só de livros. Talvez tenhamos nascido na década errada, não sei. Ou será que um dia destes poderemos viajar numa qualquer máquina do tempo? Quizas, quizas.

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    1. Que belo texto Linda.

      É que estou a ver tudo o que tu ali expões.

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    2. António Luiz Pacheco17 de janeiro de 2014 às 11:46

      O biólogo seria o Prof. Felix Rodriguez de la Fuente?

      Belo texto o seu!!!!

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    3. Possuo 10 volumes (mais 1 de índice) de "A Fauna", uma obra de La Fuente, que era colaborador do WWF. Uma jóia de trabalho, que coleccionei em fascículos e encadernei.

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  11. É esse o nome, muito obrigada .
    Morreu muito novo num desastre de avião, durante a preparação de uma reportagem. Eu era miúda e fiquei muito triste . Lembro-me da notícia na TVE e das reacções à sua morte.
    Mais uma vez obrigada.

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  12. encostado ao mundo, o ser encontra na arte o subterfugio de si mesmo, o andaime com que procura alcançar-se, do lado de fora, podando as silhuetas bravias que florescem sem som. enviúva-se de alegrias e dores, e mastiga cada eco como se lhe extraísse uma musica, ou a cor densa de um diospiro. porém a eternidade anteceder e precede o existir, por si própria, sem cânone, com o mesmo preceito com que lavra as águas, desenha os musgos e a transparência das medusas. a perpetuidade do tempo não cabe na eternidade da arte. o que nela cabe é talvez a querença na claridade de universos por inventar

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