Vinte e seis polegadas

Publicou-o a Antígona e intitula-se O Anão. O seu autor – Pär Lagerkvist – é sueco, ganhou o Nobel da Literatura em 1951 e morreu no ano dos nossos saudosos Cravos. Nunca tinha lido nada deste senhor (lacunas é o que mais tenho em matéria de leituras) e gostei deste pequeno romance na primeira pessoa, escrito à laia de diário ou crónica por Piccolino, um anão da Corte – aliás, o único anão de um príncipe italiano da Renascença (pois, não suportando a concorrência, Piccolino matou, sem dó nem piedade, o seu congénere Josaphat, depois de levar o príncipe a vender todos os outros). Cínico e cruel, pródigo em relatar intrigas palacianas – as histórias da princesa e das suas infidelidades, dos cavalheiros bajuladores e dos seus oportunismos, das guerras e dos seus difíceis desfechos –, Piccolino não deixa ninguém imune à sua crítica e muito menos intacto, nem sequer esse príncipe que admira mais do que todos (apesar de o achar um hipócrita), ou o mestre Bernardo, o sábio filósofo e cientista que tem inegáveis ressonâncias de Leonardo (esse mesmo, Da Vinci). A prosa de Lagerkvist é despojada, não se parece muito com a dos outros autores nórdicos que tenho lido e, ainda que algo seca, resulta extremamente eficaz e equilibrada e fez-me lembrar, curiosamente, o tom de um monólogo que amanhã trarei para este blogue por crer que vale muito a pena ser conhecido. Como O Anão, evidentemente, que deve ser lido por todos, impressionáveis ou não, sem quaisquer reservas e, estou certa, com grande proveito.

Comentários

  1. Lagerkvist vestirá bem a pele de um personagem cínico, maldoso e doentio, tal como aconteceu com Littell em "As Benevolentes" ou Thomas Harris em "O Silêncio dos Inocentes". Deve dar um requintado prazer a libertação das nossas mais maléficas pulsões. E poderá ser mesmo terapêutico para quem escreve e para quem lê. Como a imaginação nos dá uma vida mais nítida do que a realidade, nada melhor que chegar às experiências extremas pela leitura, fruindo os perversos prazeres sem que ninguém se magoe.

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    1. Littell em "As Benevolentes" - Oh Artur este foi dos maiores "barretes" que enfiei até hoje, cheguei à página 132 e ainda não sabia bem o que estava a ler, uma completa e sonsa salgalhada de palavras que não faziam sentido (para mim, claro). E este calhamaço custou-me quase trinta euros e é um mono (a isto é que eu chamo mono) a ocupar o lugar na prateleira onde poderia estar um bom livro...

      Realmente isto dos gostos é muito subjectivo...

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    2. António Luiz Pacheco13 de janeiro de 2014 às 06:26

      Bem-visto. É isso a literatura!
      Sem dúvida... onde podemos fazer mal sem o fazer...
      Mas, será de desconfiar então de quem o pratica no papel? Será um potencial "mau"?

      Saudações do Bairro Ribatejano!

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    3. À pergunta do Pacheco sobre se será um potencial "mau"?, eu responderia: de modo nenhum, antes pelo contrário ! O velho Freud revelou-nos que a mente humana contém (e recalca) mundos de enorme potencial de violência e maldade (o instinto de morte ou de "thanatos", como ele chamou). Como contidos numa panela de pressão, esses terríveis nossos mundos interiores, para não escaparem de modo selvagem do seu compartimento (o inconsciente) -- o que a acontecer nos afetará profundamente -- precisam de alguma válvula escape que lhes vá diminuindo a tensão. E para isso existem os sonhos noturnos, o sexo, a psicanálise e... a literatura.

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    4. Realmente gostos não se discutem... Esse é uma dos livros da minha vida. :)

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    5. Realmente é como dizes.

      Acreditas que aquele que é um dos livros da minha vida, a primeira vez que lhe peguei larguei-o à pág. 50... na segunda vez devorei-o de seguida: "MEMORIAL D CONVENTO".

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  2. O ANÃO-Há cerca de dois meses atrás comecei a ler este livro que me entusiasmou imenso nas primeiras páginas mas depois entrou num ritmo absolutamente desinteressante e demasiado maçador e não consegui avançar para além da página cinquenta e dois...

    Tenho sempre imensa pena de largar um livro mas quando não me consigo entusiasmar minimamente largo, pois penso: tenho tanta coisa para ler...

    Claro que às vezes arrisco-me a perder grandes livros, mas quando o livro não me "agarra" à página 50 é para esquecer...

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    1. Obrigado pela apreciação crítica. Não há nada como poder ler várias opiniões sobre o mesmo livro.

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  3. Claudia da Silva Tomazi13 de janeiro de 2014 às 02:47

    Allegrete pequenina cidade.

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    1. a propósito de?

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    2. Claudia da Silva Tomazi13 de janeiro de 2014 às 03:38

      A propósito de cantar!

      Está belo dia, capice .

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    3. Alegrete.
      Pequena cidade. Do Piauí, no Norte? Ou do Rio Grande do Sul?
      "A propósito de cantar", palpita-me que é a do Sul.
      Capice?

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    4. Desculpem, esqueci-me de um pormenor.
      Alegrete - pequena cidade, com apenas "vinte e seis polegadas".
      A pequena cidade onde, às 06:38 (nossas 11:38), está um belo dia - e Cláudia está a cantar.
      "A propósito de cantar", palpita-me que é a Alegrete do Rio Grande do Sul.
      Na do Norte, ainda que eventualmente esteja um belo dia, só lá para a tarde ou noite alguém arriscaria cantar.
      Capice?

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    5. Claudia da Silva Tomazi14 de janeiro de 2014 às 01:59

      Palpitou em medida certa a seguir do entusiasmo alegretense, alegretense além gabinete gentelman.

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  4. Também gostei, sim.

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  5. Recentemente, li o meu primeiro livro da Carson McCullers e o livro tem um anão bem velhaco, mas também são poucas as personagens que se aproveitam n'A balada do café triste. ;)

    Já anotei este autor e livro, parece-me interessante.

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  6. Já me tinha sido recomendado, agora tenho a certeza de que vale a pena.

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