Ler sem roupa

Há um quadro de Edward Hopper de que gosto muito (para falar verdade, gosto de quase todos, mas este interessa-se particularmente). Representa uma rapariga que lê em trajes menores sentada na cama feita de lavado de um quarto pequeno, no qual há ainda bagagem por abrir, um sapato derrubado e um chapéu pousado à pressa sobre a cómoda. Chama-se Hotel Room e sempre vi nele a urgência de, chegando a um lugar estranho, alguém terminar um capítulo de um livro que começou no avião (ou reler uma das epígrafes para a usar numa conferência que fará nessa mesma tarde) antes mesmo de desfazer as malas. A água estará a correr para a banheira nesse momento, preparando um banho de sais relaxante. Provavelmente, não é nada disso, mas a pintura de Hopper leva-me frequentemente a devaneios ficcionais, até porque a realidade anda bastante desagradável e há, aliás, coisas tontas a acontecer todos os dias. Uma delas (para não falar só do nosso país) tem que ver com a Amazon que, na altura em que se iniciou, era apenas uma livraria, mas, de repente, passou a loja virtual de basicamente tudo o que não seja perecível (e a ver vamos). Um dia destes, porque precisava de uma informação sobre uma edição específica de um livro, fui ao site americano e só me saltavam à vista vestidos e acessórios, não aparecendo um único livro na página de abertura. Talvez se pense que quem compra livros compra também roupa (e assinada por estilistas norte-americanos algo reputados) e que isso levará alguns leitores a, em vez de comprarem um romance, vestirem-se on line. Porém, no quadro de Hopper, está especialmente concentrada na leitura uma mulher quase nua. Para quê a roupa?

Comentários

  1. Também gosto muito desse quadro.
    Li há uns anos um livro da Maria Manuel Viana cuja capa era precisamente esse quadro.
    Não tenho o livro, penso que o requisitei na biblioteca, era um livro da Alma Azul.
    Gostei de descobrir um pintor que na altura não conhecia.

    Antonieta

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  2. Se não estão em erro também a capa do "CAFÉ HUGO", do Adolfo Garcia Ortega, é deste excelente pintor, e há mais, estou a lembrar-me de um livro (creio até que é de auto-ajuda ou similar) em que um homem e uma mulher vai cada um numa das esquinas das ruas em que cada um circula e que dá a sensação que irão chocar.AMAZON-Veio-me à ideia o CÍRCULO DE LEITORES, que vende pratos, colheres, conquilhas, penicos e alguns livros...

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    1. É sim senhor! E gostei muito do Café Hugo de Adolfo García Ortega.
      Isabel

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    2. Concordo, Severino. Parece uma capa "vazia", a do Café Hugo do Adolfo Ortega, mas tem ali três vidas reunidas, três histórias.
      O livro foi-me oferecido pela minha filha, pelos meus anos. Confesso que ainda não o li. Vou lê-lo.
      Quanto à Amazon, está a preencher os espaços deixados abertos pela concentração, nomeadamente a do mundo livreiro. As pequenas livrarias foram no sorvedouro do capital e dos interesses instalados. O livreiro atencioso, o mesmo que nos comuniocava as novidades (muitas vezes através de um telefonema) morreu, requiescat in pace.
      A Amazon vende à distância para os "desgraçados" que vivem na periferia.
      Este lamento segue em comentário neste post, mais adiante.

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  3. hAntónio Luiz Pacheco22 de abril de 2013 às 04:39

    Eheheh! Bela postagem!!!
    A gente quando lemos, é como se nos vestíssemos... Mas também há livros que nos despem... sem dúvida. É mesmo assim.
    Ahahah!

    Saudações do Planalto Central

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  4. O ano passado saiu Contos Completos da Lydia Davis e a capa também está adornada por um quadro do Edward Hopper que é um pintor que eu também adoro.
    Será apenas uma coincidência que quem gosta de uma actividade tão solitária e introspectiva como a leitura, apreciar a melancolia de Edward Hopper?
    No que respeita à Amazon, para mim desde que continue a ter um catálogo vasto e que vá de encontro às necessidades dos Clientes, podem lá vender as outras tralhas que quiserem. Para pesquisar sobre determinado livro em inglês vou à Amazon, pois tem algumas ferramentas únicas, mas depois para comprar, prefiro a BookDepository.

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  5. Como para a Rosário é para mim a pintura um lugar com movimento, uma porta aberta para devaneios… talvez para a preguiça que a europa do Schuld confunde com a casa dos sonhos. Não conhecia este quadro de Edward Hooper, mas é mais um com um estranho magnetismo. O livro que a mulher loura devora, numa postura que nenhum trainer hoje não invetivaria, lembrou-me logo aqueles «manuais» imensos de Leon Uris (que não me lembro de deixar menos de 500 páginas em mãos alheias).
    Estava eu entretanto posto em sossego a ler uma interessante constatação do Grande Comissário sobre a polarização e a preguiça do sul (relembrando-me uma tese de mestrado sobre uma impossibilidade superveniente de ser igual entre os diferentes – a este propósito aconselhava o Grande Comissário a ler Myrdal), quando dou de caras com uma entrevista pictórica do Miguel - cabe-me dizer que quando estou a ler o Miguel Esteves Cardoso é como se me estivesse a ler a mim próprio.
    Leio-me na reflexão que Miguel faz a cada passo, uma espécie de racionalidade travestida e nas suas adjetivações constantes, como se a vida fossem constantes pontos de apoio onde colocarmos o pé - ou nos estendermos ao comprido.
    Quando o miguel diz que «o amor é um exagerador» faço dele as minhas palavras, porque querer estar só com uma pessoa da raça humana é um exagero, mas é também uma opção de vida: de certeza, uma boa.
    A unidade de que fala só a compreendo assim, os dois num, como se pouco houvesse à nossa volta que nos pudesse interessar.
    É nesse sentido que me pelo - sem «pêlo» visível (bate «acordo») - pelo amor de pedro e inês, ou de saramago e pilar, ou de miguel e maria joão.
    A unidade no amor leva-nos a uma bolha, uma espécie de bola de encantar que procuramos preservar a todo o custo... mesmo quando as suas paredes começam a estar mais gastas e frágeis que as nossas veias e artérias e as procuramos laquear por todos os meios.
    E depois miguel diz uma coisa que me parece soberba: «No IPO encontrámos imensa gente com muita coragem. Nem parecia Portugal. A coragem, afinal, não custa»... sim, essa última: «afinal a coragem não custa!»
    Só que ele acrescenta: «O cancro dá o susto que faz com que as pessoas apreciem a vida.»
    Pois, afinal é preciso motivação: o cancro é que muitas vezes é invisível e só exposto nos torna gente corajosa e muitas vezes viva. Como neste quadro, ou caso, onde a mente tem precedência relevante por qualquer descaso do corpo.

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  6. «Coisas tontas a acontecer todos os dias» - gostei muito deste post, sobretudo do barulho da água a correr na banheira e do cheiro aos sais de banho.

    Adoro quando um livro me despe dos meus preconceitos e me faz olhar de outras perspetiva o que sempre esteve à minha frente.

    E gosto muito de bons quartos de hotel com lençóis lavados, banhos relaxantes e tempos mortos para ler bons livros, com ou sem roupa (nenhuma de estilistas, muito menos americanos).

    Se amanhã passarem pelo Marquês de Pombal, junto à Carris, entre as 13h e as 14h, pode ser que vos dê um livro LeYa! Viva a leitura!

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    1. E eu, à mesma hora, na estação de Metro do Marquês de Pombal... Olhem que é oferecido!

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    2. Como é bom viver em Lisboa, o centro do mundo editorial português. O mesmo é dizer de quem está perto do lume, para se aquecer.
      Os da periferia, os do interior, os da província, não têm Metro do Marquês nem livros que aí os esperam, não têm a Carris junto ao Marquês de Pombal para poderem cumprimentar a Anabela, receberem e ofertarem um livro.
      Por vezes, os do centro editorial deslocam-se para a periferia, mas uma periferia que também se julga centro - Leiria, Porto, Coimbra... O que resta é um deserto, onde pinga, por vezes, alguma novidade editorial, frequentemente tardia, remetida com o mesmo despacho que é comum na Amazon e noutras vendas à distância.
      Viva o centro do mundo; estiolem os que estão ao longe. Ou juntem-se todos no centro, de forma a que não se consiga respirar no centro. E que o centro, de tão central, deixe de existir; ou que a periferia, de tão periférica e descuidada, se extinga por si, lenta e monocordicamente.

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    3. Não gostaria nada de viver em Lisboa. Nem todos querem ser centro (entendi-o; pode crer). Mas sofre-se isso mesmo que tão bem descreve . Aqui, pouco existe. No meu interior falta por exemplo uma papelaria que venda livros. É isso, livros. Existem mais no supermercado; e, mesmo esses, são poucos e de qualidade duvidosa (é um supermercado de província). Ah! Vivo numa cidade :))

      Oh! Sim, sim, já abriram algumas papelarias/livrarias. Mas vão à falência em breve tempo.

      Quem vive nas grandes cidades, ou mesmo próximo delas, tem, à partida, um avanço cultural. A sua mente há-de ser mais aberta, tantas as oportunidades que existem de poder conhecer.

      Parece-me que este obscurantismo cultural seja até desejado por quem o deveria combater com mais vigor. Quem pensa, incomoda. E desconvém

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    4. Acredite, Beatriz, que se pudesse escolher, não viveria em Lisboa ou arredores. Sou de uma aldeia perto da Guarda, onde vivi até aos dezoito anos, depois vivi em Coimbra, Aveiro e Viseu. E por lá teria ficado, no tal Centro. Ou de boa vontade iria também viver para aquela casa que vi há dias, junto a Palmela, e que mais parece de um típico monte alentejano. Mas é aqui que tenho trabalho. E olhe que as ofertas muitas vezes não passam disso. Como este fim de semana os «Dias da música» no CCB ou a exposição da Clarice na Gulbenkian. Mas é claro que é bom ter oferta. O que as pessoas do interior/periferia têm de perceber é que elas próprias têm de criar a oferta e que a oferta é um resultado da procura.

      No próximo fim de semana vou à Guarda e queria muito ir assistir ao concerto acústico da Calcanhoto no TMG, mas descuidei-me e os bilhetes já estão esgotados! Ela vem a Portugal dar um concerto único e logo na Guarda!

      Parece-me que com pouca oferta, a que existe é mais aproveitada. Em Viseu, por exemplo, a livraria Pretexto é um bom exemplo, creio. E o teatro Viriato, a outro nível. Enfim, bons exemplos não faltam.

      Não é a Beatriz que tem uma livraria itinerante? Estarei a fazer confusão?

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    5. Não sou essa Beatriz. A minha livraria itinirante é de saco plástico :); funciona quando alguém adoece e o(a) mergulho em livros que não sei se lê.
      Já li a prestações para garotos e tive a grata surpresa de saber que alguns foram procurar os livros nas bibliotecas e, por não existirem, pediram a compra; as bibliotecárias avisaram-me para não começar com ideias que lhes estava saindo cara.

      Acho a ideia de uma biblioteca de troca de livros uma coisa bem bonita.

      Também gosto da Adriana. E desta menina de que envio o link e me parece que um quid na voz :)

      http://www.youtube.com/watch?v=F92sIxuPvv4


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    6. "O que as pessoas do interior/periferia têm de perceber é que elas próprias têm de criar a oferta e que a oferta é um resultado da procura" - se fosse assim tão simples...

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    7. Caro Joca

      O centro também já há muito deixou de ser centro. É um lugar excêntrico de um mundo que já nem europeu é, de casario abandonado onde ainda ardem umas velinhas e onde sem abrigo repousam uns trapos a fazer de fronha de almofada... de pedra. Mas breve, breve, mesmo as velinhas se apagarão; e um bocejo destes excêntricos ouvir-se-à tão longe como santa comba dão, que é um lugar onde a vingança se serviu dois vezes fria.

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  7. Desconhecia o pintor. E a obra. Obrigada por ambos. No quadro, a ausência de roupa é o insólito e a leitura pode ter esse sentido de urgência. Ou não. Ler, descansa. E viajar, mesmo de gosto, cansa. A ausência de roupa - de mais roupa - pode fazer pendant com o livro, sintomas de relaxamento e gosto. Um estar em casa. Mesmo que no hotel.

    Lê-se na praia, nus ou quase. Em casa, ou lugar que a substitua, vale o à vontade de cada um. Que a mente mais recebe se despida e aberta ao que nele é dito. E isso a pode vestir depois.

    Há uns anos, por distracção, deixei o meu livro de praia esquecido sobre o capot do carro. Quando dei pela falta,já instalada, resolvi castigar-me e não voltei atrás a buscá-lo (era longe, estava só, com alguma bagagem...). Disse-lhe adeus de cabeça e fiquei a lagartar horas várias. Mas quando regressada, olhei a medo e...o exacto livro no lugar, a marca no sítio. As minhas mãos nele diferentes, em cuidados de desculpa e alegria de reencontro. Comentei a sorte com os ocupantes do carro vizinho. E eles a abanar a cabeça enquanto iam sacudindo a areia dos interstícios de pés e calções, "é verdade, já viemos duas vezes pagar o estacionamento, olhávamos e ele aqui."

    Interrogo-me se terá sido por respeito à propriedade alheia que não tive de comprar outro exemplar. Mas, nesse dia, abençoei a espécie humana, o espírito livre de qualquer dúvida. Grato até ao absoluto de mim.

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  8. Hopper é de facto magnífico, pois dá uma qualidade etérea à luz urbana e tem uma capacidade de captar o instante que parece fotográfica. Penso nele mais como um poeta do que um pintor...
    Mas, quanto ao Hotel Room, tenho até pena de estragar a vossa viagem, mas o tema é mais dramático... Ela está a ler uma carta! Deve ser uma carta a acabar tudo, de alguém que fugiu, ou de um ser amado a dar uma má notícia... É a fotografia daquele momento em que a realidade bate e dá uma profunda tristeza. Se reparem, ela não tem a postura de quem lê um livro... Mas não reparem; cada um vê o que deseja ver!

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    1. Perplexo tem de facto razão: é uma carta onde vimos um livro. Eu até confundi a carta com um livro recheado. Afinal o recheio não era mais que uma espécie de joelho de Claire: que fascínio!

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  9. Tem razão, Perplexo, é uma carta. Não necessariamente com más notícias. A garota parece estar a pensar; e, como bem nota, já a terá lido. É um erro perceptivo por sugestão :); tive alguma dificuldade em ver a carta, tão convencida estava de ser um livro. Por desconhecir, a primeira coisa que fiz foi observar. Mal :)

    Mas o imaginário importa; deixemo-lo fluir. Ajuda a viver a realidade. Sem ele, a beleza de todas as coisas existe para nada ou nem sequer vem à existência. Por ser também em nós que o belo há; e o criarmos com a alma que temos.

    Seduz-me a pintura de Van Gogh e a minha gata não lhe liga meia. Já lhe passei os quadros quase todos. E ela, nada. Palerma.

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  10. Ora bolas, afinal o que ela está a ler é o horário dos comboios!
    Transcrevo: She reads a yellowed paper, which we know from Josephine notes to be a train timetable.
    Josephine Nivinson era mulher de Hopper e posou para este quadro.
    Eu também pensava que era um livro!

    Antonieta

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    1. Um dia saberemos que uma mulher estranha falsificou o diário de Josephine; e que aquele yellowed paper colocava a amante, sim a amante, não a bela Josephine, perante um dos maiores desafios (há quem lhe chame dilema) que se coloca a um ser humano. Algo que nem a inovadora Renova alguma vez conseguiu resolver, pelo menos onde não impera o estado de natureza.

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    2. É, de facto, uma carta, a qual, pela forma como se encontra dobrada, se encontrava dentro de um envelope. Trata-se de um momento de meditação e, pelo vazio que encontro nas paredes do quarto, de uma "instantâneo" de solidão.
      Refero atrás que minha filha me ofertou o livro o Café Hugo (possivelmente, por admirar a capa, que é a reprodução da obra do Hooper) e, no aniversário seguinte, deu-me, com dedicatória apropriada, um volume cartonado do pintor, puvblicado pela Taschen em edição de luxo, com o título "Hooper", de Ivo Kranzfelder. Na página 46, em pormenor, lá está este Quarto de Hotel, de 1931, cujo está no Museu Thyssen, em Madrid. O autor do livro, na página 48, diz-nos, sobre o papel: "talvez seja um horário de transportes, um folheto de viagem ou uma carta".
      Tem lá quadros lindíssimos, que são dissecados pela escrita do autor do livro, com gravuras dos estudos preliminares do pintor, que se dava ao cuidado de escrever os pormenores em apontamentos sobre os esquiços.
      A Maria do Rosário, se não tivesse seguido a profissão que seguiu, decerto estaria hoje à frente (ou atrás) de uma galeria. E, sobretudo, tem bons gostos; não é por acaso que é uma excelente poetisa.

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  11. A melancolia é a marca identitária de todos os quadros pintados por Edward Hopper.
    Este “Hotel Room” poderia intitular-se, em português, “Escapadinha”.
    Fiz uma rápida pesquisa e, credivelmente, Hopper terá indicado que a mulher está a consultar o horário dos comboios.
    As coisas que estão espalhadas são a bagagem que ela estava a arrumar atabalhoadamente quando pressentiu que já não iria a tempo de apanhar o primeiro comboio de regresso.
    A hora do próximo comboio permite-lhe ficar ali por momentos absorta naquela contemplação melancólica – por um lado o que acabou de desfrutar, por outro a intranquilidade do imprevisível que (conforme Hopper claramente retrata) poderá esperá-la no regresso. Terá tempo para acabar de arrumar a bagagem e caminhar pensativamente até à estação – que, nestes casos, fica sempre perto do hotel…
    Se a ideia de Hopper fosse a de uma escapadinha para partilhar a intimidade com um parceiro / livro, este (o livro) estaria mais claramente definido. E a melancolia da mulher, e do ambiente, indicaria que o parceiro a decepcionara...
    Acontece, não?

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  12. Caro Jocamartinho,
    Foi precisamente no site do Museo Thyssen que eu pesquisei e descobri que a modelo do quadro era a também pintora Josephine, que no seu diário deixou escrito que era um horário de comboios.
    Confesso que me agradava mais a ideia de uma carta...
    Mas o que interessa mesmo é que é um quadro belíssimo e tanto a sua filha como a Maria do Rosário (a quem muito agradeço este post) têm muito bom gosto.
    Esse livro da Taschen deve ser uma maravilha!

    Cumprimentos,
    Antonieta

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    1. Cara Antonieta

      A edição da Taschen é, de facto, surpreendente, pela positiva. Com belíssimas fotoghrafias do autor e da Josephine Hopper, da autoria de Hans Namuth.
      O esclarecimento que descobriu no site do Museo ajudou a esclarecer a dúvida, que o próprio livro referido não aclara.
      Aproveito para emendar um lapso meu, cometido em comentário anterior - é Hopper e não Hooper.

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