O que ando a ler
Ontem era dia de dizer o que ando a ler e passou-me completamente, desculpem. Mas estou a ler, bem entendido, e não é a primeira vez que me aproximo deste autor, Andrea Bajani, que é italiano e do qual eu já tinha lido Aniversário, um romance maravilhoso sobre um filho que decide no dia dos anos da mãe nunca mais voltar lá a casa (e depois contará o que o levou a tomar tal decisão). Este que tenho agora em mãos recebeu vários prémios, foi muito elogiado em Itália e noutros países e intitula-se enigmaticamente Se Guardasses os Nossos Pecados (o original é diferente, mas, concordo, bastante difícil de traduzir, o que explica a opção). Trata-se de uma narrativa na segunda pessoa: mais uma vez, um filho e uma mãe, mas esta morreu recentemente, e o filho, já adulto, vai ao seu enterro na Roménia, para onde a mãe terá ido viver muitos anos antes, quando tinha um negócio de emagrecimento. Conheceremos a história de como tudo começou para ela, a relação com Anselmi, o sócio na empresa, e os domingos no escritório com beijos à frente do rapazinho; as viagens cada vez mais frequentes à Roménia, as ausências cada vez mais longas e, por fim, o abandono do marido e do filho que agora lhe dirige um relato do que foi sentindo e daquilo a que está a assistir na Roménia com respeito à sua morte. Não cheguei ainda ao fim, que está próximo, mas gostei mais de Aniversário, embora Bajani seja decididamente um excelente autor.
Há largos meses (não sei quantos, mas muitos...) que não falo por aqui das minhas leituras.
ResponderEliminarVou falar do livro que estou a ler, porque é de alguém, de certa forma ligado às "Horas Extraordinárias", o João Pinto Coelho.
Não sei porquê (às vezes é problema do leitor...), mas depois de chegar à página 100 da "Aguarela de Paris" (acho que é agora que ele vai começar a "animar"), sinto que tem sido o livro do João com uma entrada menos entusiasmante.
A culpa também pode ser minha, pois eu nos últimos meses voltei a ler os livros maravilhosos do Georges Simenon e do seu inspector Magret...
Bom, enquanto aí estive, uns poucos (muito poucos...) dias em Setembro, ainda li do Paulo Sérgio Silva (um Caçador que escreve) o seu sentido "Com uma Francotte nas mãos", homenagem a seu pai e avô e uma espécie de despedida ou canto do cisne de uma geração que vai ser obliterada pelas tecnologias... Foi curto pois é mais um opúsculo que um livro, mas com a qualidade e o sentimento deste Homem.
ResponderEliminarSeguiu-se inevitávelmente a minha querida Carla Pais. "A sombra das árvores no Inverno", foi deveras o grande murro no estômago de 2026! Nunca leram livros que se podem classificar assim? Como foi "Pão de Açúcar", "Notas para um naufrágio", "A rainha do cine Roma", "Torto arado", "Levantados do chão", "Entre Cós e Alpedriz", "Homens e Ratos", "Exterminem todas as bestas", "O sonho do celta"... livros que nos atingem profundamente e até fazem mudar as formas de ver certas coisas ou o Mundo, ou que nos transportam a sensações e recordações bem fundo nas nossas memórias, até históricas ou familiares?
Assim foi a leitura deste livro, que não considero um romance própriamente dito mas antes um exercício de antropologia, de humanidade pura, fruto da sensibilidade única da Carla, com quem tanto me identifico e comungo de idéias, sem as mariquices habituais ou "uoquismos" tão em voga. O livro vai ao encontro de uma corrente e navega nela, é actual e enquadra-se nessa realidade sem ser lamecha nem culpabilizar ou justificar, apenas porque são assim as coisas!
Bom, inevitávelmente tive de passar para outro, até para me libertar um pouco da carga do anterior, que foi do meu outro escritor favorito, Paulo Moreiras. "Memórias de Luciano Megera", que nada tem a ver com o "Memórias de um burro" que na devida altura me encantou, porém não me divertiu tanto quanto este! É genial a forma como o nosso autor usa a nossa língua na sua riqueza imensa, conseguindo tecer um rendilhado precioso de palavras do arco-da-velha mas que resultam num texto rico e dinâmico que nos agarra, diverte e até cultiva, pois ele consegue transmitir tudo com clareza apesar da miscelânea! Gostei muitíssimo uma vez mais! Talvez não seja para todos, mas destaco e aplaudo, merece rabo e orelhas, e, volta à praça com saída em ombros!
Agora ando a ler outro muitíssimo bom, de que também tomei conhecimento neste lugar Extraordinário: "Afrocalipse", do renomado, também escritor cabo-verdeano, Mário Lúcio Sousa. Só vos digo que, fazia falta uma distopia (?) destas, que só Pepetela seria capaz de levar por diante pelo seu sentido crítico, acutilância e humor. Só que teria de ser escrito por um africano de côr para ser aceite e não queimado na foqueira do política e racialmente correcto. Escrito por outro seria rotulado de racista, garantidamente, por todos a quem falte objectividade e alguma inteligência natural. É um romance profundamente irónico, uma crítica inteligente e muito bem feita por quem conhece perfeitamente a realidade e os casos de que se serve para satirizar um regime político algures em África, servindo-se de imagens e personagens perfeitas que se enquadram e encaixam completamente. Isto quem conheça África a fundo, tenha vivido nela e convivido com aquelas personagens e situações! A linguagem usada reforça ainda mais o que digo em termos de autenticar os acontecimentos ficcionados, caracterizando e dando um cunho muito pessoal enquanto prova de escrever numa língua viva.
Notável, aconselho vivamente. Seria roteiro para um filme do Kusturica ou até Tarantino, Guy Richie, Robert Rodriguez... qualquer um tresloucado genial desse calibre.
Votos de um Extraordinário fim de semana para todos, com muitas e boas leituras, cá desde a Cidade Morena!
Estou a terminar o Histórias de Londres, de Enric González.
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