Decepções criativas
Este é o ano das adaptações cinematográficas de muitos romances clássicos e contemporâneos (já falei disso aqui), mas ontem um dos meus autores contou-me que, mesmo quando um filme tem um tremendo sucesso, nem sempre o escritor gosta do que foi feito com o seu livro. O magnífico O Amante (que ganhou o Prémio Goncourt) de Marguerite Duras tornou-se um filme do realizador Jean-Jacques Annaud nos anos 1990. Eu vi esse filme e gostei (claro que o livro é outra coisa), mas a escritora, pelos vistos, detestou-o. Achou que ele traía o romance e que a adaptação era «obscena» em relação à verdade do livro. Conta-se que ela não gostou de ver a sua história (sua mesmo, biográfica) escapar-lhe do controle e que só não fez ela própria um filme do livro logo a seguir porque adoeceu naquela altura. Mas teve discordâncias profundas com o realizador, pois achou que a sua abordagem fora demasiado comercial e que simplificara a complexidade do romance, transformando-o num «melodrama exótico». Porém, longe de ficar parada, tomou a caneta e reescreveu o enredo num livro-guião chamado O Amante da China do Norte. Usou a decepção para criar. Magnífica terapia.
Também tive uma reação desse género quando vi a adaptação para cinema, pelo mesmo realizador, d'O Nome da Rosa. A minha foi contudo diferente porque gostei muitíssimo do livro e muito do filme. O cinema explora a vertente espetáculo, o efeito visual, o ingrediente romanesco e o livro não (ou apenas alguns aspetos). As especificidades das mentalidades (os pormenores relevantes de época introduzidos por Eco) foram eliminados ou apenas aludidos no filme. Tinha que incluir uma paixão sofrida, claro, que não existe no livro. Mesmo assim gostei do filme.
ResponderEliminarOra que belo tema de conversa nos trás aqui hoje!
ResponderEliminarÉ-me bastante fácil entender que um autor possa não gostar da versão cinematográfica da sua obra... o escritor foi vendo o filme na sua cabeça, aos personagens, entrosando-se com eles pois os criou à sua imagem e necessidade, vivendo aquilo que escreveu. Ora o realizador pode não ter tido a mesma leitura, quiçá "desconsiga" de interpretar o que ia na mente do escritor, mesmo por impossibilidade de recriar alguns detalhes, cenas, lugares, pessoas.
Também não sei até que ponto um escritor conseguiria realizar um filme... cada macaco no seu galho (enfim, ainda se pode dizer macaco?). Todavia há realizadores que escrevem livros, bons livros, o que não me admira.
Saudações cinéfilas cá da Cidade Morena.
Admito como sempre, estar enganado.
ResponderEliminarO tema de hoje pareceu-me interessantíssimo e aguardei em expectativa, comentários... hélas! Em vão.
Óbviamente, ser interessante para mim não obriga a que outros se interessem.
No entanto dá-me que pensar: não é polémico!
Não envolve a Leya (não, não sou nem nunca fui publicado e até fui recusado por esta...) e parece até que nem dá para discutir premiações, preferências, etc.
Dá-me que pensar sim. Eu ainda penso, aliás o meu trabalho é justamente pensar.
Penso bem? Creio que não penso mal ou estaria desempregado há muito, pois pensar é uma coisa e pensar profissionalmente é outra e muito diferente, esta tem implicações económicas e financeiras e dita a morte do pensador. Ora ainda estou vivo,
Enfim, lamento que não se tenha aqui discutido este tema Extraordinário.
Saudações cá da Cidade Morena.
Este tema tem muito pano para mangas,ou não.Pode-se apenas dizer que há livros bem adaptados ao cinema,assim como outros não são.
ResponderEliminarTambém há aqueles que sao baseados,outros inspirados e outros a partir de uma determinada obra.Em todos eles tem de haver alguma concordância entre autor e realizador e há casos de livros que saem melhorados enquanto outros se tornam irreconhecíveis.
De qq maneira,este meu post é somente para o amigo Pacheco não se sentir sozinho,embora nao seja grande contributo…
Viva !
ResponderEliminarMaria,
Deixe-me perguntar-lhe uma coisa, fora do contexto do post de hoje, quando o Sapo Blogs acabar vai passar a escrever no Substack ?
Espero que sim :) Bjinho.
Ora , mas muito obrigado pela solidariedade!
ResponderEliminarEheheh.
Abraço!