Gerir a carreira

Os tempos são outros, e o escritor não tem outro remédio senão sair da sua torre de marfim e dar-se a conhecer ao seu público potencial: ter sites na Internet onde noticia prémios e actividades, ir às livrarias e bibliotecas conversar com os leitores, ter páginas nas redes sociais em que  publica posts sobre onde vai estar e o que anda a escrever. E, como é aí que as pessoas mais estão e mais lêem (infelizmente nem sempre um texto de mais de dez linhas), é também aí que, sem pagarem direitos, passam a vida a partilhar o trabalho dos escritores. E estes recebem hoje cada vez menos por essas e por outras (os poetas são umas vítimas, alguns têm todos os seus livros partilhados às postas no Facebook). Vai daí, em muitos países, os escritores aderiram aos «substacks literários», uma forma de ganharem dinheiro, criando newsletters em que os subscritores (fãs e leitores) pagam uma renda mensal ou anual para saberem tricas, lerem obras que o autor ainda não publicou em primeira mão, conhecerem as suas opiniões sobre a actualidade, terem direito a livros autografados antes de toda a gente, enfim, uma data de privilégios que são exclusivos para essa comunidade e que, no fundo, também dão de comer ao autor. O The Guardian traz um interessante artigo sobre estes procedimentos que conta como tanta gente é capaz de pagar entre 35 e 150 libras por ano para estar mais perto dos seus escritores de eleição. Fixe a palavra «substack», um dia destes chega cá e depois nada será como antes. O artigo pode ser lido aqui:


https://www.theguardian.com/books/2025/jul/12/where-authors-gossip-geek-out-and-let-off-steam-15-of-the-best-literary-substacks


 

Comentários

  1. António Luiz Pacheco22 de julho de 2025 às 02:34

    Bom, é o Mundo Moderno!
    Porquê admirar-nos, revoltarmo-nos, resistir... é assim, sempre assim foi e será.
    Podemos evidentemente discutir o tema, podemos até nem concordar, porém lamentar para quê ou por quê? A modernidade e a evolução são imparáveis, e, de acompanhar sob pena de ficarmos para trás, atrasados e excluídos. Como os talibãs...
    Quem me diria quando estudava à luz do candeeiro de petróleo, que um dia, 50 anos depois, estaria a dedilhar num computador pessoal e a trocar idéias com pessoas a mais de 7000 Km de distância?
    É disso que falo. Não podemos saber e é inimaginável.
    Creio que estas iniciativas de que se fala aqui são positivas, estimo que apoiem a criação literária e mantenham os escritores em condições de continuarem escritores - escrevam é coisas que valham a pena ler!
    Gosto de ir sabendo destas coisas, acho até que são um bom sinal de que estamos no sentido certo, a evoluir e a acompanhar os tempos.

    Saudações modernas (enfim só até certo ponto, eheheh!) cá da Cidade Morena.

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  2. Cláudia da Silva Tomazi22 de julho de 2025 às 04:40

    Ingleses desde sempre generosos ou melhores em cumplicidade, até com bons olhos esta atual engenharia para os fazerem meeiros, obviamente tendência.
    Embora creio que elevada arte, somente a imaginação e delícias das palavras o ápice do recurso expressivo e em nada “substitui” um livro.

    Nem há dificuldades por definição à quaisquer cognição em labor de velas soltas com toda sorte ares, criatividade.

    Ora, é certo que para escritores (alguns) nem questões primeiras, antes porém o manancial apraz na melhor forma de conforto.

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  3. Parece-me uma ideia muito interessante. Teria uns quantos escritores para subscrever.
    Infelizmente falta oportunidade para os já falecidos...

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  4. Os portugueses aderiram aos substacks com a mesma gana das adesões a outros serviços via internet, incluindo os profissionais da escrita. Por exemplo, o seu colega Manuel S. Fonseca, da Guerra & Paz, já tem uma (para mim, em português, é uma resma ou pilha de subscrições).

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