Excerto da Quinzena

[...] Queres conhecer o teu pai? Qual pai? Eu vivia com um pai há quatro anos, que me levava à escola todas as manhãs e me lia histórias para adormecer, por isso a minha confusão era compreensível. O verdadeiro, o biológico, disse o psicólogo. Encolhi os ombros porque era uma criança muito educada e era-me difícil dizer que não. Era tão cautelosa que, quando o meu avô me levava à loja de doces e me encorajava a escolher o que quisesse, eu escolhia sempre o mínimo: uma goma, uma pastilha, uma coisa tão pequena que nem merecia um saco. O psicólogo emitiu um relatório favorável, que foi entregue a um juiz, o qual decretou e estipulou um regime de visitas em resposta ao pedido do meu verdadeiro pai. Depois de nove anos, estava farto de que ninguém o procurasse.


 


Aixa de la Cruz, Mudar de Ideias, tradução de Pedro Rapoula 

Comentários

  1. "Perguntaram-lhe se era verdade que andava metido com a mulher do maricas. Achavam até normal que ela tivesse outro, porque se o marido era assim não servia para o essencial. O essencial, segundo lhes parecia, está sempre certo e não pode faltar. O Crisóstomo, com o coração em chamas, não falaria do assunto, porque entendia uma violência meterem-se na sua vida, sem respeito pelas circunstâncias, os pormenores, os amores. A tão grande espera. Os pescadores, contudo, animavam-se com a conversa pelo cómico de cada ideia. Diziam ser uma enormidade do mundo moderno que os maricas casassem e que as mulheres se aviassem pela vizinhança. Os maricas eram uns porcos, e as mulheres umas ordinárias. A humanidade fazia-se assim. Do bem ficavam os homens, por serem estáveis e normais.Todos iguais. De aberração em aberração, um deles contou que já vira uma mulher que antes havia sido um homem. Não era um homem de vestido, como no carnaval, era um homem de pila cortada. Foi um enfermeiro quem lho garantiu, um enfermeiro amigo que acabara de ver a aberração despida para uma operação qualquer. Tinha um buraco na carne de se lhe tivesse sido arrancado o pénis à dentada. Outro pescador contou que a filha de uma vizinha nascera com os olhos tapados como se fosse uma bola fechada. Morrera logo a seguir numa choradeira que ninguém parou. Foi uma coisa boa que morresse, que a mãe até lhe tinha vergonha. As mães tinham sempre vergonha de filhos assim, uns filhos mal gerados, porque eram vistas como mães más, com o corpo burro, um corpo também ele defeituoso no processo de imaginação dos filhos."
    Valter Hugo Mãe, O Filho de Mil Homens.

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  2. António Luiz Pacheco11 de julho de 2025 às 02:40

    Não sou grande leitor de poesia em geral, porém leio uma certa e determinada poesia como leria um ensaio.
    Neste caso concreto, lembro o poema sublime na sensibilidade e sabedoria iniciática do autor, um poema que é intemporal e transversal.
    Um poema que deve hoje e como nunca ser relembrado pela sua notável e humana conclusão.

    Lágrima de preta, de António Gedeão

    Encontrei uma preta
    que estava a chorar,
    pedi-lhe uma lágrima
    para a analisar.

    Recolhi a lágrima
    com todo o cuidado
    num tubo de ensaio
    bem esterilizado.

    Olhei-a de um lado,
    do outro e de frente:
    tinha um ar de gota
    muito transparente.

    Mandei vir os ácidos,
    as bases e os sais,
    as drogas usadas
    em casos que tais.

    Ensaiei a frio,
    experimentei ao lume,
    de todas as vezes
    deu-me o que é costume:

    nem sinais de negro,
    nem vestígios de ódio.
    Água (quase tudo)
    e cloreto de sódio.

    Saudações e votos de um fim de semana sem ódio mas com sabedoria, cá desde a Cidade Morena.

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  3. "Viajar pelas páginas deste livro é embarcar numa jornada que atravessa séculos e continentes, deslizando pelo tempo e pelo espaço. Neste percurso, a palavra escrita encontra raízes na vida e no corpo das plantas, testemunhas silenciosas da evolução do conhecimento e do registo da experiência humana. Cada folha de papel que deslizamos entre os dedos transporta consigo o vestígio das árvores que lhe deram origem e a herança de civilizações que criaram o pensamento e a cultura"
    Ivo Meco, "Das plantas num livro: um ensaio deambulatório sobre Botânica, História e Literatura", 1ª Edição, Pergaminho, Maio 2025, p. 13

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  4. O comentário anterior, sobre o livro de Ivo Meco, é do Anónimo, Manuel Dias da Silva

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  5. Que texto sensível, delicado, amei a escrita dessa moça, vou procurar. Obrigada por compartilhar, querida.

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