Excerto da Quinzena
Ao terceiro dia de vida, Antonio Borjas Romero foi deixado nos degraus de uma igreja, numa rua que hoje tem o seu nome. Ninguém soube dizer exatamente em que data foi encontrado, só se sabe que uma mulher muito pobre tinha o hábito de se sentar ali todas as manhãs, sempre no mesmo sítio, com uma malga de cabaça à sua frente e uma mão frágil estendida a quem passava no adro. Quando viu o bebé, repudiou-o com um gesto de repugnância. Mas a sua atenção foi atraída subitamente por uma caixinha brilhante, escondida entre as dobras da roupa, que alguém ali tinha deixado, como se fosse uma oferenda. Um retângulo de lata, de cor prateada, com arabescos finos gravados. Era uma máquina de enrolar tabaco. Roubou-a e meteu-a no bolso do vestido, desinteressando-se do bebé. Contudo, durante a manhã, apercebeu-se de que os seus tímidos vagidos, os seus gritos hesitantes comoviam os fiéis, que, julgando-os juntos, iam sucessivamente enchendo o fundo da malga com moedas de cobre. Ao chegar a noite, levou-o para um curral, encostou-lhe a boca à teta de uma cabra preta coberta de moscas e, de joelhos debaixo da barriga da cabra, pô-lo a mamar um leite espesso e quente. No dia seguinte, embrulhou-o num pano da cozinha e prendeu-o às ancas. Ao fim de uma semana, começou a dizer que o menino era dela.
Miguel Bonnefoy, O Sonho do Jaguar, tradução de Luísa Benvinda Álvares
"BÖHMEN LIEGT AM MEER" (Boémia à Beira-Mar), de Ingeborg Bachmann, em traição minha:
ResponderEliminarhttps://ocasosluiscaminha.blogspot.com/2025/02/boemia-beira-mar-bohmen-liegt-am-meer.html
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MRP, tenho quase a certeza de que "O Sonho do Jaguar" é de Miguel Bonnefoy (não Michel, embora também seja francês, além de venezuelano). Um grande narrador (e tão jovem!).
E é. Fui levada a escrever o nome em francês por causa de um outro Bonnefoy, vou já emendar, obrigada por ter visto.
ResponderEliminarSinceramente não me atrai nada este excerto.Parece-me tratar-se de mais um chorrilho de desgraças tão ao gosto da grande maioria dos nossos extraordinários.Já tivemos doses suficientes de Auschwitz,de racismos,de faltas de direitos,violações.Dê-nos algo de edificante,de nos fazer pensar,raciocinar,ajudar a encontrar nos livros verdadeiros sentimentos,estados de alma,sentido de vida,histórias e enredos envolventes.Não estou a falar de romances de cordel,mas há tantos autores que nos transportam a uma outra dimensão,nos levam a tais níveis de elevação do pensamento.Julian Barnes,Ian mcEwan,Paul Auster,Lidia Jorge,Izabela Figueiredo,Haruki Murakami,Dulce Maria Cardoso,Bruno Vieira Amaral,David Machado e tantos outros.Ocorreram-me estes como poderiam ser tantos outros que todos conhecemos.
ResponderEliminarUm bom fim-de-semana para os extraordinários em geral sem visões demasiado negras desta nossa curta passagem!
Olhe que não me parece nada um chorrilho de desgraças:
ResponderEliminarhttps://www.publico.pt/2024/11/06/culturaipsilon/noticia/le-reve-du-jaguar-miguel-bonnefoy-recebeu-premio-femina-2110736
Por acaso fiquei curioso sobre o livro, não que goste particularmente de desgraceiras como foi referido, porém o título despertou-me a atenção. Nunca se sabe o que o livro contém até o lermos, ou, pelo menos a sua resenha. Foi o que fiz...
ResponderEliminar" Quando uma pedinte muda de Maracaíbo, na Venezuela, encontra um recém-nascido abandonado nos degraus de uma igreja, nem imagina o destino invulgar que o pequeno órfão virá a ter. Criado na miséria, Antonio será sucessivamente vendedor de cigarros, carregador nos cais, empregado num bordel, até se tornar, graças à sua fervilhante energia, um dos mais ilustres cirurgiões do seu país. Uma companheira excecional será a sua inspiração. Ana Maria irá ficar conhecida como a primeira médica da região. Terão uma filha, a quem darão o nome do próprio país: Venezuela. Ligada tanto pelo nome como pelas suas origens à América do Sul, só pensa, porém, em ir para Paris. Mas ninguém consegue alguma vez deixar verdadeiramente os seus. E será nos cadernos de Cristóbal, o último elo da corrente familiar, que as mil histórias desta espantosa linhagem poderão finalmente ancorar.
Nesta vibrante saga de personagens inesquecíveis, com um estilo flamejante, Miguel Bonnefoy pinta o retrato, inspirado nos seus próprios antepassados, de uma família extraordinária cuja história se entrelaça com a da Venezuela."
Portanto trata-se aparentemente de uma saga familiar, romanceada e baseada em factos reais.
Saudações alegres e luminosas, votos de Extraordinário fim de semana, cá da Cidade Morena.
“Quinzinho é que sofria vadiações enormes. Disfarçava o pretexto de arranjar uma roseira, qualquer coisa no automóvel e ia conversar com o chofer, com o jardineiro que vinha semanalmente arranjar aqueles fiapos de verde a que chamavam jardim. Depois do almoço ia na cidade e eram então os momentos de maior penúria de alma. Buscava os conhecidos, passava horas paradas na charutaria. Alex que era dum alemão conhecido; quando encontrava alguém lá da roça agarrava o amigo perguntando com rapidez pra conversa não acabar; lia todos jornais com desinteresse novo, por curiosidade só, pra passar o tempo, coisa que antes não sabia o que era. Dantes, na fazenda, cada noticinha à toa, só vendo como ele se apaixonava. O caso de um indesejável que pretendera embarcar com nome falso o tornava heróico patriota, capaz de dar o sangue pelo Brasil, uma falência fraudulenta o deixava economista, um crime o moralizava, tudo, sim, numa grande aparência de calma pachorrenta sempre, mas vivido com paixão interior.”
ResponderEliminarCafé, romance inédito de Mário de Andrade
Excerto sofrível.
ResponderEliminarA.T.